20 Novembro, 2009

CHEGOU NADA. ERA TUDO O QUE FALTAVA!




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AS NOVAS VERSÕES DE NADA

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14 Novembro, 2009

ELVIS - DIREITO DE RESPOSTA


Estou morto, muito morto mesmo. Diria que nunca estive tão morto em toda a minha vida. Na verdade, estou mais morto que Janis Joplin, Charles Chaplin e John Kennedy juntos. Enfim, ou estou morto ou não me chamo Elvis.

Semana passada John Lennon enviou uma mensagem a vocês, terráqueos, insinuando que eu não tinha ainda batido as botas. Logo eu, que cheguei por aqui 3 anos antes dele. O fato é que John tem lá seus motivos para inventar coisas a meu respeito. Mesmo sendo quatro disputando comigo sozinho, os Beatles não conseguiram tirar minha coroa de rei do rock, pois é assim que continuam me chamando aí embaixo, certo? Isso pode ter mexido com os nervos de John, embora não seja frequente nos mortos o destempero emocional.

John afirma em seus garranchos psicografados (que já devem estar indo a leilão na Sotheby’s por milhões de libras) que eu não morri coisa nenhuma ou devo estar nos quintos dos infernos comendo sanduíche de pasta de amendoim. Estou sim, devorando essa iguaria, e por isso mesmo estou no céu, pois é minha comida favorita. Aliás, aproveito para dizer que foi a pasta de amendoim que me tornou gordo nos últimos anos, e não o coquetel de tranquilizantes – que erroneamente atribuem como desencadeadores do meu inchaço e de minha causa mortis.

Tempo houve em que os Beatles formavam um verdadeiro fã-clube deste que vos fala. Lembro nitidamente daqueles quatro cabeludos chegando embasbacados à minha mansão em Los Angeles, ansiosos por me conhecerem de perto e me adorando como se eu fosse um profeta do Antigo Testamento. Estava dedilhando meu contrabaixo deitado no sofá e nem dei muita bola quando anunciaram sua chegada e os despejaram no meio da sala. Continuei tocando e olhando a TV, de chinelo e bermuda, alheio completamente ao que se passava, como se eles fizessem parte da mobília ou da criadagem. Contaram umas piadas, tocaram umas musiquinhas, olhando pra mim com cara de quem aguarda a aprovação paterna. Na tentativa de quebrar o gelo, o mais narigudo deles (esqueci o nome) ficou fazendo uns malabarismos com as baquetas, até que eu disse: “Puxa, você é bom mesmo nisso. E o que mais sabe fazer?”. Ficaram mais um tempo e enfim se escafederam, depois que eu olhei para o relógio e disparei sem pestanejar: “Bem garotos, se me dão licença, eu não tenho o dia todo...”.

Falar é fácil. O que Lennon não disse é que ele e George tentaram formar um trio comigo, por esses rincões celestes. Recusei polidamente: “Forget about, acho que nossos estilos não se bicam”. George entendeu, mas John me pareceu indignado com a recusa e inventou essa coisa toda de que não me viu por aqui.

O que interessa é que meu túmulo está lá em Memphis, e meus ossos podem ser exumados a qualquer momento. E você, John? Onde está seu túmulo? Para quem não sabe, John não tem túmulo, suas cinzas foram espalhadas sei lá onde. Isso significa que, se há alguém nessa história que pode ter sua morte questionada, esse alguém é John. Quem me garante que ele não continua firme e forte em seu apartamento no Dakota, sem botar a fuça pra fora de casa, isento das responsabilidades e obrigações que pesam sobre qualquer encarnado e deixando tudo a cargo de sua gueixa septuagenária?

É, John, mesmo morto devo admitir que você foi vivo, mas ninguém há de cair na sua conversa. Quanto a vocês, mortais, continuem mandando suas orações e fazendo suas peregrinações anuais a Graceland.

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06 Novembro, 2009

JOHN IN THE SKY


Que me perdoem a demora, mas só agora, depois de tantos anos, me autorizaram uma comunicação. Tenho pouco tempo e terei que ser breve e incisivo, como as letras das minhas canções após o fim do conjunto.

Sabe Yoko, Deus é testemunha do quanto eu queria encontrar alguém cabeça feita, com os olhos puxados e cabelos caindo pela cintura, que me lembrasse seu layout nos sixties e me fizesse companhia enquanto você não chega. Mas os japoneses são longevos e os mortos vêm pra cá com a aparência que tinham no desencarne. Então torço para que você bata as botas o quanto antes,de forma a chegar aqui em condições desfrutáveis. O que me deixa apreensivo é que você já passou dos 70 e eu continuo com meus quarentinha recém-completados, you know?

Eu queria dizer algo a respeito daquele mosaico que fizeram em minha homenagem no Central Park, com a palavra “Imagine”. Acho que a intenção foi boa mas o resultado estético ficou aquém da intenção. Por favor, destruam aquilo a picaretas e peçam a Yoko para que crie algo ao seu estilo, como nos velhos tempos. Ela conhece meu gosto e sabe o que quero dizer. Sou crítico e perfeccionista, sempre fui. Perguntem ao George Martin e ele confirmará que, por mim, regravaria a obra inteira dos Beatles, desde “Love me do”. Inclusive “Love me do”. Principalmente “Love me do”. Aliás, onde estávamos com a cabeça quando fizemos “Love me do”?

Há muita lenda envolvendo meu nome, e elas só cresceram de 1980 para cá. A história de que o comercial de cereal na TV inspirou “Good Morning” tem fundamento, mas quanto à balela de que “Lucy in the Sky with Diamonds” não queria dizer LSD, de que foi só uma coincidência, ora vamos, come on... Eu precisaria estar muito drogado para inventar aquela história do desenho que o Julian fez na escola, e devo admitir que estava! Ah, e como estava.

Para dar um basta definitivo aos boatos que persistem até hoje, o Paul não está morto coisa nenhuma. Caso contrário ele já teria incorporado não só um médium, mas toda uma assessoria de imprensa mediúnica para um ghost-pronunciamento em rede mundial, com posterior lançamento em CD, DVD e Blu-Ray. E Elvis, acreditem, também não está morto, a menos que tenha ido para o inferno e esteja por lá devorando seus sanduíches de pasta de amendoim.

Rebatizem, por favor, o Aeroporto de Liverpool – que leva o meu nome e tem como slogan “Above us only sky”. Nem morto eu compactuaria com isso.

Parem de peregrinar por Abbey Road e cruzar a faixa de pedestres. Outro dia um sujeito ficou olhando demais para a câmera na hora de tirar a foto e meia hora depois estava me pedindo autógrafo aqui em cima. Sério, guys. Procurem pela massa de tomate ainda fresca debaixo do ônibus Route 139. O nome da vítima é Thomas Allen Silverstone, veio de Denver para uns dias de turismo em Londres e mexia com seguros.

Também aproveito para fazer, desta vez além-túmulo, o mea culpa sobre aquela declaração que dei em 66, dizendo que éramos mais populares que Jesus Cristo. Tenho por aqui uma legião razoável de fãs, mas uma disputa com o filho do Homem seria ridícula. Mesmo na época em que eu tinha aquela barba comprida.

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31 Outubro, 2009

PEQUENO ALBERT


Sempre que acordado pelo barulho dos marrecos, o pequeno Albert passava o resto do dia de mau humor. Não era incomum que nessas ocasiões, só de pirraça, misturasse deliberadamente moela com chantilly no café da manhã e usasse seu suéter furado. Furado, aliás, por uma bicada de marreco, numa véspera de Natal em que um deles também acordou de ovo virado.

Nada pode garantir de maneira categórica que o interesse do pirralho pelos buracos negros datasse dessa época do furo na blusa, mas há fortes evidências que reforçam a tese. Foi também à mesa de refeições que, certa feita, gotículas de leite quente espirradas do bule despertaram no futuro grande físico a obsessão pela via láctea e seus mistérios, segundo depoimentos de vizinhos de cerca. Daí foi um passo para a formulação das primeiras teorias e equações. A modorrenta rotina da fazenda e a falta propriamente do que fazer turbinavam a imaginação do menino, que punha-se a disparar enunciados bucólico-científicos aos quais ninguém então dava crédito, exceto os sargaços, alguns esquilos e Copérnico, seu poodle de estimação.

É nesse limbo pouco estudado, quer seja, o tempo do Albert imberbe, que a história deveria se debruçar com acuidade investigativa e faro de paleontólogo. Se o fato de pouco sabermos da vida de Cristo enquanto criança pouco prejuízo trouxe à disseminação do Cristianismo enquanto doutrina, o mesmo não se pode dizer em relação à infância do nosso herói e suas consequências sobre a maior de suas descobertas: a Teoria Geral da Relatividade.

Explico e dou exemplo. É sabido que Albert foi tachado como débil mental por um professor. Como revide ao mestre, o mirim impôs-se o propósito de sobrepujar os achados de Newton no campo da Física. Assim, aos 12 anos, deitou-se debaixo de uma árvore aguardando inspiração idêntica à que fez o sagaz Isaac descobrir a lei da gravidade. A lerdeza de raciocínio atribuída ao menino explica o fato de não ter se dado conta de que a árvore sob a qual se deitara era uma jaqueira. Para não contrariar outra lei, a de Murphy, é claro que uma das jacas o atingiu em cheio. A queda do fruto fez abrir, literal e figurativamente falando, a cabeça do garoto, que ficou com o hipotálamo e o cerebelo em posição invertida à normalmente encontrada nos comuns dos mortais. Além disso, é de conhecimento público que seu cérebro, dissecado e estudado após o óbito, fez os cientistas concluírem que este era maior e mais denso que a média. De onde se deduz que a suposta anatomia privilegiada devia-se ao inchaço causado pelo impacto da jaca sobre a caixa encefálica, constatação infame demais para constar com dignidade num relatório científico – o que justifica a omissão do ocorrido até a presente data.

Mais grave ainda é a também desconhecida demanda jurídica daí originada, movida por um japonês de sobrenome Kobaiashi, o antigo proprietário da fazenda onde os Einstein residiam. Entendia o produtor hortifrutigranjeiro que, se não houvesse plantado a jaqueira quando administrador da propriedade, o desenvolvimento fenomenal do garoto não ocorreria, e consequentemente a Teoria Geral da Relatividade não teria sido formulada. Assim, seus herdeiros pleiteiam até hoje uma revisão histórica onde se atribua a co-autoria da TGR ao antepassado nipônico, passando doravante a denominar-se “Teoria de Einstein / Kobaiashi”. O processo encontra-se tramitando atualmente no Fórum da Comarca de Cotia.

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23 Outubro, 2009

DELETADOR DE SAUDADE - MANUAL DO USUÁRIO


No Menu Principal do programa, escolha “Definir Saudoso”. Aparecerão na tela os modos: amigo(a), namorado(a), noivo(a), cônjuge, pai, mãe, filho(a), amante, caso, rolo e ficante. Escolha e dê Ok.

Em seguida, maximize o box “Características Físicas”. Preencha os campos Idade, Altura, Peso, Cor de pele e de cabelo, Estilo de roupa, Classe Social, Escolaridade, Convicções Ideológicas e nº do Pis/Pasep.

Vá até a janela “Sinais particulares”. Se houver algum, marque e indique a parte do corpo onde se situa: Cicatriz, Pinta, Tatuagem, Piercing, Botox e Silicone.

Escreva no editor de textos frases que a pessoa falaria com mais freqüência para você. Para que as falas tenham sotaques e inflexões personalizadas, vá até Opções, selecione Definir Modulação de Voz, escolha a mais conveniente e clique
em Aplicar. De quinze em quinze minutos as frases soarão no alto-falante do computador, em ordem aleatória ou mediante programação específica. Exemplo: mãe falando “Tá na mesa!!!” ao meio-dia e às sete da noite.

Inserir final de frase. Recurso interessante, não disponível na versão 6.2 do programa. Você pode escolher entre: “Né?”, “Entendeu?” “Certo?” “Ok?”.

Ainda no editor de textos, liste uma agenda básica com os compromissos do seu dia-a-dia. Esses dados serão automaticamente transferidos aos nossos servidores. Para que fique realmente próximo em todos os seus momentos, o ente distante saltará na tela como uma janela pop-up, lembrando cada um dos afazeres programados.

A área de trabalho do computador – ícones, papel de parede e descanso de tela, também pode ficar com a cara do sumido. Além disso, o programa permite a instalação de “Oi” e “Tchau” da pessoa, quando da inicialização e do fechamento do sistema operacional.

Nosso programa enviará a você e-mails em nome do saudoso. Para que não falte assunto, é preciso preencher o menu “Áreas de Interesse”. Selecione as mais adequadas. Você pode responder aos e-mails. Só não conte com a resposta da resposta, porque aí também já é demais.

O Menu Privé é acessado mediante senha, e deve ser utilizado por usuários que mantenham ou mantinham relações carnais com o ausente. As opções vão desde “Não, hoje estou com dor de cabeça” até “Foi bom pra você?”, passando pelo indefectível “Caramba, isso nunca aconteceu comigo antes”.

Lembramos que o nosso revolucionário produto deleta a saudade através de três níveis de operação: Ar da Graça, Presença Marcante e Repulsa, sendo que o modo Repulsa possui a função de transformar a saudade em reação alérgica ao saudoso, pela superexposição de sua figura no computador do cliente.

No menu Opcionais, você encontrará as alternativas “Sachet Chulé” e “Kit Hálito”, que serão entregues em sua casa no prazo máximo de três dias úteis. O sachet é um simulador de chulé do dito cujo. Clique em Suave, Médio, Forte, Extra-Forte ou Deus-me-livre. O Kit Hálito disponibiliza as modalidades Vinagrete com alho, Vinagrete sem alho e com bastante cebola, Cachaça, Uísque 12 anos, Uísque 8 anos engarrafado aqui, Cerveja, Cigarro, Pasta de Dente, Café, Mexerica e Amendoim Japonês.

Você pode desativar temporariamente o programa ou cancelar a assinatura do serviço a qualquer tempo. Para maior segurança, mesmo que o usuário mova o saudoso para a lixeira, um clone do mesmo permanecerá oculto no HD. Para habilitá-lo, clique em “Ajuda” e selecione “Volta, vem viver outra vez ao meu lado”.


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17 Outubro, 2009

GHOST WRITER DA IGREJA NACIONAL DO SANTO TESTEMUNHO


O Senhor dos aflitos esteja ao meu lado nessa hora. Que todos os santos me amparem, ainda que ninguém aqui acredite em santo. Mais 16 depoimentos pra criar ainda hoje. Vão ao ar de madrugada. Quero ver outro no meu lugar dizendo sempre a mesma coisa e tendo que falar de outro jeito. É o desgraçado que estava no fundo do poço, com a vida derrotada, endividado até o pescoço, bebendo, tomando droga, socando a fuça das crianças, chifrando a esposa, amante fazendo vodu. Chega o parente que é da igreja, leva ele pra assistir o culto, mergulha a cabeça dele na piscina de plástico, vem a transformação instantânea e daí a um mês a vida abençoada, empresa com dinheiro saindo pelo ladrão, viagem para Bora-Bora, três apartamentos, uma casa de praia, frota de Pajero na garagem.

O pior é que tem que redigir também a fala do pastor. O desencapetamento, as perguntas que ele vai fazendo pro convertido responder. Outro dia tinha um post-it do bispo aqui em cima da mesa me dando o maior esporro, dizendo que estava tudo muito igual. Mas fazer diferente de que jeito? Se eu troco “fundo do poço” por “fim da linha”, eles corrigem o texto e mandam falar “fundo do poço” de novo. Se eu falo em “falta de perspectiva” volta pra “vida derrotada”, assim não dá. E o dízimo? Agora a imprensa está pegando no pé dizendo que os pastores são ostensivos, que batem carteira na cara dura. Veio ordem pra maneirar no roteiro, pra pegar mais leve na hora de pedir o dinheiro e dar o número da conta, deixar uma coisa mais velada.

Ainda se fosse só o texto, ficava fácil de resolver. Mas tem o problema dos atores, quer dizer, dessas toupeiras de teatro amador que falam tudo decorado, como se estivessem olhando o teleprompter. Eles tinham que ler o script e falar do jeito deles, pra ficar mais natural. Já disse isso não sei quantas vezes nas reuniões de pauta, mas na hora da gravação é aquela coisa mais falsa que perfil do Lula no orkut. Quando dá, já sento direto aqui no computador e deixo as falas prontas já pra uma semana ou mais. Aí entra o horário eleitoral de algum partido ou então mais comerciais por break e tenho que enxugar tudo de uma hora pra outra, pra caber no horário do programa.

O calvário prossegue na hora da cura. E quem opera o milagre é este escriba mal pago. Já comprei por conta um tratado de moléstias e fico caçando enfermidades para adoecer o moribundo de araque, conforme o jeitão do freguês.

Tudo bem que é meu ganha-pão, eu devia torcer pra audiência subir. Mas, se sobe, eles ligam de madrugada em casa, pedem pra ir voando pra ilha de edição do programa e fazer render a enganação redentora. “Força a mão aí, meu camarada, capricha no exorcismo porque o ibope tá lá em cima, não deixa despencar não”. Teve um dia que nem dava tempo de escrever pra mandar pro engravatado que estava comandando o programa, eu ia falando os textos de improviso direto no ponto dele. Ah, minha mãe. Se me dá um branco a farsa toda desmorona, despenca o cenário dos querubins tocando trombeta, é capa de “Veja” na certa. E o pior é remoer essa adrenalina sabendo que o bispão manda-chuva tá lá no palácio dele, onipotente no seu trono Luiz XV, vendo tudo ao vivo e já dando feedback por celular para o diretor do programa. Muda ali, muda aqui, repete em câmera lenta a cena do cara que jogou longe a muleta e invadiu correndo o palco.

Eu tenho o poder e o dom, a ira santa, o fogo sagrado que destroi a iniquidade e manda pro fundo do inferno os devassos e os incrédulos. E o que eu quero agora é mandar pro ar este texto. E vai desse jeito mesmo, no calor da hora. Estou sozinho aqui na técnica, é só apertar um botão. O templo ruiu. O Cristo de verdade apareceu para expulsar os vendilhões.


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10 Outubro, 2009

TOCs PARA ONOFRE


Penso que numa relação saudável entre patrão e empregado tem de haver diálogo, abertura e franqueza. Por mais que essa relação sofra um natural desgaste de 46 anos, como é o nosso caso. É sabendo que você também pensa assim que tomo a liberdade de fazer alguns comentários sobre seus préstimos e a particulares constatações de natureza diversa, anotadas em 14 do corrente em minha agenda de capa preta – aquela que você ofereceu-me de presente no Natal passado.


Quando optei pela contratação de um administrador doméstico, imaginei estar comprando minha despreocupação quanto a entraves de ordem prática que tomariam-me todo o tempo, ainda que o dia, ao invés de 24, tivesse 27 horas ou mesmo 27 horas e meia. Acertei de vez em quando. Errei quase sempre.


Comecemos por um elogio – o único – mas digno de menção neste improvisado relatório. As meias sociais estão seguindo o habitual degradée de tonalidades de um par para outro, na forma como são dispostas na gaveta, facilitando assim a escolha e a combinação com a roupa a ser utilizada. O mesmo critério, contudo, não vem sendo adotado com as meias esportivas e os lenços. Gostaria de saber em que estes itens da indumentária são inferiores para merecerem sua desatenção, Onofre.


Numa das reentrâncias da louça do bidê da suíte, em posição perpendicular à duchinha, pude observar um ponto verde de aproximadamente 1mm de diâmetro, o que poderia comprometer seriamente a higiene íntima das senhoras - que por ora não trago, mas que posso vir um dia a trazer aos meus domínios.


Queijos com furos em excesso no café da manhã: nada pode me irritar mais e embrulhar meu estômago na hora do desjejum. Sendo os mesmos adquiridos por peça, e não por quilo, acabo pagando pelo não-queijo ou invés do queijo. Solicite, doravante, que a moça do setor de laticínios corte o queijo ao meio para que você dimensione o número de buracos antes de efetuar a compra. Tome como parâmetro uma quantidade máxima de 0,3 furos (dos pequenos) por centímetro quadrado. No começo você precisará recorrer à calculadora científica, mas com o tempo passará a resolver a questão no olhômetro.


Já mais de uma vez o alertei quanto à conveniência de alternar o lado de inclinação da vassoura no processo de varredura. Se o esforço de inclinação for só para a esquerda ou só para a direita, os ramos da piaçava ficarão tortos prematuramente para um dos lados, encurtando a vida útil do utensílio.


Não creio que sua ignorância chegue ao ponto de não saber o que seja simetria, nem que me venha com a desculpa de ter faltado à aula nesse dia. De qualquer forma, tenho para mim que a questão é menos matemática do que de equilíbrio estético, e para isto basta um mínimo de bom senso. Refiro-me ao frequente desalinhamento entre os quadros nas paredes e os tapetes da sala, bem como à distância entre o Cuco, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e o termômetro que trouxe de lembrança de Campos do Jordão.


Passemos ao armarinho de remédios. Nada justifica aquela bagunça, onde todos se misturam: os não-tarjados, os tarja vermelha, os tarja preta ( Rivotril, Eufor, Dormonid, Bromazepan, Tofranil, Prozac ) e por fim os fatais, como raticidas, formicidas, soda cáustica e maionese de casamento – toda esta parafernália em meio aos apetrechos para lavagem gástrica, em caso de arrependimento.


Agora, os jornais que forram a gaiola do loro. É preciso que haja uma utilização equânime das publicações. Há lógica no raciocínio: se o Loro fala é possível que também leia, e é justo possibilitarmos ao bichinho pluralidade de informação, alternando a forração com a Folha de São Paulo, o Estadão, O Globo, o Jornal do Brasil e a Gazeta de Jacutinga.


Algumas maçanetas das portas estão rangendo, sinalizando falta de aplicação periódica de óleo lubrificante WD40. Você, Onofrinho, mais do que ninguém conhece meu hábito de percorrer todas as portas da casa antes de recolher-me à noite aos meus aposentos, certificando-me, re-certificando-me e tri-certificando-me de que se acham todas trancadas. Por favor, faça sua parte a ajude-me a tornar mais suave esta árdua tarefa. Saberei recompensá-lo com um panetone de frutas e um garrafão de vinho Sangue de Boi, junto com o décimo-terceiro no final do ano.


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03 Outubro, 2009

FLASH PIZZA


Flashback chegando assim, na asa do desaviso: no céu e no assoalho da boca, a língua de um se contorce na prospecção de outro, e limpa com a ponta os dentes cheios de restos dos sonhos de ontem. Como ontem foi há muito, ambos carregam, por onde se atrevam, uma boa porção de momentos gostados, em providencial caixa de primeiros socorros.

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Não é impossível que um dia sejam batidas as estatísticas da época, quando impuseram um novo patamar nos escores de Eros. Mas duvido que haja casal como o que foram – pura labareda – com gana e técnica para quebrar o recorde. Bom, o disk pizza chegou e o puxa-puxa do queijo não espera muito tempo. A seguir, cenas dos próximos capítulos do vale a pena ver de novo.

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Falar em pizza, virgem só o azeite naquele reino permissivo, já que os dois, além dos dois, foram de muitos. E consumiram-se em devassidão até enjoarem e firmarem pacto de par hermeticamente isolado, naquele destilador de ciúme em que se meteram e de onde sairiam mutilados. Testemunhas avalizam que, desde então, as olheiras não eram mais da carne acesa até altas horas.

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Assim fiquei, voltando aos dias daqueles dois, até que o sono me rendesse. A pizza, ao meu lado, fria. Meia mofo, meia bolor.

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26 Setembro, 2009

ZORAIDE PROPAGANDA


Tudo começou quando fui servir suco para o Dr. Célido e o Diretor Comercial na sala de reunião. Vi os dois falando sobre o anúncio que vocês criaram e dizendo que carecia aumentar o elefante no layout e enfiar uma tarja alaranjada perto da tromba dele, dizendo “últimos dias, aproveite” ou algo parecido. Não entendi patavina dessa história de retrato de elefante no reclame, já que até onde eu sei a empresa trabalha com fibra ótica e eu acho que tem que mostrar as coisas que a fábrica faz, quanto é que custa e colocar depois o endereço, que é pra pessoa se orientar e saber onde é que tem que ir pra comprar os negócios que a propaganda fala.

Vocês inventam umas doideiras, se sai uma propaganda dessa vão achar que é anúncio de circo. Só sei que eles continuaram até tarde trancados lá na sala, às vezes dando berros e rabiscando inteirinho o layout que a moça que trabalha aí com vocês trouxe anteontem. Depois vi que cada um ficou fazendo uma lista de frases, também pra colocar no anúncio, e ficavam falando sobre trocar de agência, que qualquer coisa era melhor que essa porcaria que vocês fazem. Desculpe a dureza das palavra, mas era desse jeito que eles falavam, e acho bom vocês ficarem sabendo logo da verdade verdadeira pra tomarem cuidado e já irem esperando pelo pior.

Mas, continuando, depois chegou a dona Izildinha do RH com sua meia preta desfiada e começou a dar um pitaco atrás do outro, com aquela vozinha esganiçada, falando que por ela tirava o elefante e punha no lugar uma porta de carro amassada com uns dizeres sobre tráfego seguro de dados, que era legal uma amalogia (é assim que fala?) de trafegar em alta velocidade e trânsito, e aí então falar da fibra ótica, etc etc. O Diretor Comercial disse pra ela fechar o comedor de lavagem e que ela só entendia de recrutamento e seleção e coisa e tal. Aí ela começou a tremer o lábio de nervoso e jogou o copo de suco na cara dele. Depois pegou a bombinha de ar dentro da bolsa e começou a se borrifar pra acalmar a asma, enquanto eu fui buscar um pouco de água com açúcar.

Veja bem minha situação, eu não quero de jeito nenhum meter minha colher nessa cumbuca, mas é que a minha irmã, que me arranjou emprego aqui, é faxineira de vocês, e acho que falando essas coisa eu estou ajudando ela também, pois com certeza a Crô vai pra rua se vocês se ferrarem de verde e amarelo. E a chance de vocês se darem muito mal é grande demais, a não ser que apareçam logo por aqui com anúncios bem chamativos, como por exemplo “A sua melhor opção de compra”, “O gerente ficou louco”, “A gente faz aniversário e quem ganha o presente é você” e outras frases de efeito que façam o sujeito se convencer que os nossos produtos são realmente ótimos. E deixaria o emblema da firma altamente enorme, com os produtos da fábrica em volta dele, parecendo o sol com os planeta girando em torno, sabe, acho que desse jeito funciona pois a pessoa enxerga de cara o que interessa. Mas agora chega de palpite que eu já estou parecendo a dona Izildinha.
Voltando ao Dr. Célido, ontem mesmo ele comentava pelos corredor que todos vocês aí na agência são uns malas sem alça, e que armaria uma embroscada gastromônica, uma intoxicação coletiva com queijo roquefort estragado. Aí o Diretor Comercial teve a ideia de sabotar o jatinho que vai levar o pessoal da agência até a próxima convenção de gerentes da firma, em Monte Mor. Segundo ele, seria uma boa forma de ver vocês todos mortinhos da silva de uma tacada só.

Lá pelas tantas, e na terceira rodada de Tang de uva na sala de reunião, começaram a falar da proposta que a firma recebeu de uma tal de “Tiro Certo Propaganda e Marqueting”. É bom vocês saberem que os caras já mandaram portfólio, meia dúzia de broche em formato de espingarda com o slogan “A gente acerta na mosca” e mais um ramalhete de flor pra recepcionista, a Dorinha.

Pouco tempo depois, pude ver pelo vão da porta o Dr. Célido sapateando em cima do reclame com seu Vulcabrás modelo Antônio Ermírio, juro que o homem parecia um pai de santo no auge da incorporação. É engraçado, quando ouvi pela primeira vez o nome Vulcabrás pensei que fosse uma estatal que cuidasse dos vulcão, mas aí lembrei que no Brasil não tem vulcão, pelo menos ativo. Só aposentado. E vulcão de estatal deve aposentar com salário integral, não é? Mas deixa pra lá, é só um comentário bobo de uma copeira sem estudo nem noção, e nem sei porque estou falando isso agora. O importante mesmo é que vocês precisa tomar cuidado. Quem avisa amiga é.

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19 Setembro, 2009

VIDE BULA


INFORMAÇÃO AO PACIENTE

Estudos atualíssimos, patrocinados por alguns dos maiores nomes da indústria farmacêutica mundial, dão conta de que nada pode ser mais frio e impessoal que bula de remédio. De onde se conclui que sua elaboração, doravante, deve contemplar uma abordagem lúdica e interativa com o usuário, em linguagem simples, objetiva e sobretudo inteligível.Ou seja, a ideia não é que se doure a pílula, mas a bula que a acompanha. Nossa intenção é elevar a temperatura corpórea do paciente, promovendo maior calor humano entre nosso laboratório e o consumidor.


APRESENTAÇÃO

Olá, amigo(a)!! Meu nome é Cilantilopidatreil, e de agora em diante serei seu companheiro inseparável. Estaremos juntos pelo menos 3 vezes ao dia, após as refeições. Tudo bem que você vai ter que me engolir, mas espero que isso não seja motivo para você me partir ao meio.


COMPOSIÇÃO

Letra de Helmut Pfizer. Música de Ed Roche e Sebastian Bayer. Originalmente concebida para execução em Lá Maior, acompanhada ou não pelo Regional do Capsulinha – às segunda, quartas e sextas - e pelo Renato e suas Blue Cápsulas, às terças, quintas e sábados.


INDICAÇÕES

Siga rigorosamente a seguinte orientação médica: na segunda quadra, vire à direita. Ande mais cinco quarteirões e, assim que encontrar a agência do Bradesco, pegue a sua esquerda e vá em frente, até o terceiro semáforo.A farmácia fica bem ao lado da banca de revistas.


AÇÃO FARMACOLÓGICA

Espasmos involuntários nos músculos da face, contrações abdominais de natureza aguda, perda progressiva do fôlego, do senso crítico e do guarda-chuva no cinema, em casos mais graves.


INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

Cilantilopidatreil não deverá ser administrado simultaneamente com moquecas em geral, pastilhas Valda e lança-perfume de fabricação caseira. A administração pela burocracia estatal também poderá trazer sérios danos ao moribundo, por provocar sonolência excessiva.


REAÇÕES ADVERSAS

Variam de discretas erupções cutâneas até o óbito, relatado em 95,7% dos casos. Por provocar diminuição da libido, o coito deve ser interrompido tão logo se inicie. Raciocínio desconexo, amnésia irreversível e descamação atípica no calcanhar direito foram efeitos detectados nos grupos de controle, durante a fase de testes do produto.


PRECAUÇÕES

Sob o efeito de Cilantilopidatreil, manetas que dirigem máquinas operatrizes precisam ser permanentemente monitorados por familiar responsável, devidamente habilitado e com CNH dentro do prazo de validade.


PACIENTES IDOSOS

Pesquisas recentes constataram episódios de disritmia na bateria da Velha Guarda da Portela.


CONDUTA NA SUPERDOSAGEM

Caso ocorra, seja ela intencional ou acidental, raramente acarreta risco de vida – apenas de morte. Quando associada a depressores do Sistema Nervoso Central, como o álcool e seus derivados, induzir o vômito ou realizar lavagem gástrica, ainda que o álcool em questão seja um Johnny Walker Blue Label.

Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance das crianças, inclusive Melhoral Infantil, e dos hipocondríacos. Conservar em local seco e fresco.

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12 Setembro, 2009

AGUARDE NA LINHA OU LIGUE MAIS TARDE


Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.

O Palácio da Alvorada é patrimônio do Brasil, um país de todos. Faça uma doação e ajude a manter seus mármores e vidros em perfeito estado. Para doar R$150.000,00, ligue 0800 80088 150. Para doar R$250.000,00, ligue 0800 80088 250. Para doar R$500.000,00, ligue 0800 80088 500. Para doação de grandes valores, tecle asterisco (*) três vezes e aguarde na linha.

Se você deseja assistir em tempo real a todos os passos do Presidente, acesse
www.presidente.com/webcam. Adquira o pacote completo (Combo Planalto/Alvorada/Granja do Torto), com um total de 98 câmeras transmitindo 24 horas por dia. Há opções também para o pacote meio período, com 42 câmeras transmitindo das 5 da tarde às 5 da manhã, ou o pacote fim de semana, com tudo o que acontece no cafofo presidencial no sábado e no domingo. Fale com nossas atendentes e faça sua compra pelos cartões Visa ou Mastercard.

A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.

Você sabia que só em noz moscada o Palácio da Alvorada consumiu no último mês um total de R$197.532,34, contra apenas cinco libras e noventa centavos gastos no mesmo período em Buckingham? É o Brasil mais uma vez mostrando a grandeza de seus números e sua definitiva inserção no primeiro mundo.

O Palácio da Alvorada foi o primeiro prédio construído em Brasília, possui três pavimentos e o desenho das colunas de sua fachada inspirou o brasão da cidade. O setor do palácio mais visitado pelo Presidente é a adega, e o menos freqüentado é a biblioteca. Dentre os seus mais de 70 empregados constam inclusive médicos, e estudos extra-oficiais apontam que os plantões do corpo clínico guardam estreita relação com a assiduidade do senhor Presidente às dependências da adega.

Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.

A sub-chefia do Cerimonial da Presidência comunica aos interessados que está promovendo visitas guiadas ao interior do Palácio da Alvorada. Organizados em grupos de até 300 pessoas, os turistas terão acesso a todas as dependências, incluindo a suíte presidencial de 120 m2 e o cinema, onde poderão assistir a um documentário que narra a história do Palácio e os detalhes construtivos do monumental projeto de Oscar Niemeyer. As visitas exigem retirada antecipada de senha e estão condicionadas às datas em que o senhor Presidente da República estiver em viagem oficial, ou seja, de segunda a domingo.

O espelho d’água sobre o Lago Paranoá dá a ilusão, ao visitante, de que o Palácio boia em sua a superfície. Trata-se de uma alegoria arquitetônica à população flutuante de Brasília, que abrange a quase totalidade dos habitantes da capital federal – a começar pelo mandatário supremo da nação.

A sua ligação é muito importante para nós. No momento, todos os nossos atendentes estão ocupados. Aguarde na linha ou ligue mais tarde.

Para obter o edital de concorrência para fornecimento de trufas negras de Périgord à Chef de Cuisine do Palácio, tecle 2. Para detalhes sobre a licitação de compra de jogos para playstation, tecle 3. Para informações sobre o processo seletivo de contratação de ghost writer de discursos, tecle 4.

Já ouviu falar da Alvorada Mega Store? Lá você encontra uma linha completa de presentes e souvenirs temáticos do Palácio da Alvorada. São milhares de ítens para toda a família e para você presentear seus parentes e amigos.
Na compra de três ou mais cartões postais de Brasília você concorre a uma sunga para um mergulho na piscina olímpica do Presidente.

Você ligou para o Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República. Em instantes iremos atendê-lo.


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05 Setembro, 2009

PARADA DA INDEPENDÊNCIA


A mãe para o fluxo incessante das memórias dos seus anos de internato, independente do chá de laranjeira a arrastá-la em torvelinho para o pó do giz e o álcool do mimeógrafo. A maçaneta para de levar quem se habilite ao cômodo contíguo, independente de ser ou não este outro cômodo o cenário dos enredos que fascinam. O caqui para de se abrir em seiva doce e reluzente, independente da ressequida goela dos colonos. O instinto de sobrevivência para a imobilidade aleijante, independente de todos os esforços para que nenhum esforço se faça em qualquer sentido que seja. Os segredos maçônicos param de ser segredos e vazam dos iniciados, independente do empenho dos Grão-Mestres em detê-los. Dirce de Oliveira Sales Camarinha para de arquitetar intrigas no seio doméstico, independente da quantia sumida da gaveta apontar como suspeito o arrimo da família, desafeto do cunhado que a nora da sua sogra batizou em Monte Alegre. A chuva para por inadimplência de São Pedro com a Sabesp, independente das inúmeras tentativas de negociação do débito para evitar o corte. O moço que todos juram que é irmão do Wando para de chutar nos testes de múltipla escolha, independente do seu QI recomendar o chute em 100% das ocasiões. A girafa do zoológico de Michael Jackson para de dormir de pé, independente do fato contrariar frontalmente a natureza das girafas. O Rio de Janeiro para na Rocinha de ser lindo, independente da música desde 1969 vir insistindo no contrário. O dono do celular pré-pago para de dar crédito às ofertas da operadora, independente das tarifas imperdíveis e do saldo da promoção “Recarga Premiada”. O santo para de atender os pedidos do dia, independente da urgência do devoto. O carrinho da montanha russa para no meio da descida, independente da força da gravidade funcionar regularmente. O relógio para de marcar os minutos, independente do ponteiro das horas obedecer à trajetória original de fábrica. A megasena para de acumular, independente do último sorteio não ter contemplado ninguém. A vergonha na cara para de ser nenhuma e consegue ser alguma, independente de todas as tentativas, nas três esferas do poder, para que no máximo seja mínima. O Cony para no terceiro parágrafo do texto em busca de uma palavra, independente de não levar mais que oito minutos para concluir suas crônicas. O pastor alemão da polícia militar para no decorrer do desfile e defeca na frente do palanque presidencial, independente do visível constrangimento do capitão e da câmera exclusiva da Globo.

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29 Agosto, 2009

À JANELA


São sortidos e peculiares os flagrantes vistos daqui, deste camuflado e geograficamente estratégico terceiro andar. Quase sete da manhã e nada nem ninguém deterá que a cópula bissemanal no apartamento à frente se dê de forma clínica e burocrática, com a resignação de quem paga uma promessa. A silhueta dos dois denuncia a posição de missionário. Três minutos, quando muito, e resolvido. Ao banheiro para a ducha, à mesa para o café, ao beijo na testa das crianças e pronto – estão ambos devolvidos à faina esmagadora das repartições e a seus amantes fixos e eventuais, com quem exercitam prazerosamente todas as variações do bem-bom.

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O que vem nas sequência é não menos previsível: “Pizzicato Polka” e o prelúdio de “Tristão e Isolda”. Até hoje custa-me entender como um mesmo gosto acolhe peças esteticamente tão inconciliáveis. E a música surge de ponto impreciso, não dá para identificar se o epicentro é na rua ou na cobertura do prédio. Não é impossível que brote espontaneamente dos arredores, composição do asfalto em parceria com os semáforos, trilha sonora por excelência daquele trecho de city.

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Nada de anormal ou suspeito lá embaixo, na lida dos homens-formigas com suas pastas de documentos e protocolos. Ainda assim me ocorreu fazer um instantâneo deste nada para a posteridade, retrato comum de momento neutro, tão desinteressante quanto esta pastilha solta no parapeito da janela - indício seguro que há anos a faxineira não passa um paninho com Veja Multiuso por aqui. Se passasse ela despencaria e talvez caísse no capô do fusca amarelo-gema do Nelson, porteiro do prédio. Mas isso também não traria consequência que alterasse esse arrastão de coisa alguma, nem seria o caso de acionar o condomínio para saldar a conta do Martelinho de Ouro.

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A TV ligada no canal do senado alça o demônio a anjo, arquivando a montanha de processos que pesa sobre sua figura repulsiva e recendendo a putaria. Velhacão experimentado, tão ou mais hipócrita que o casal do prédio em frente na posição de missionário. Violo a sepultura das velhas aulas de Educação Moral e Cívica para exigir reparação e ressarcimento de tempo perdido, ao som de um carro de bombeiros que dobra a esquina com a sirene a toda. Pode ser um trote. Este país é um trote. Porém o sujeito que liga para os bombeiros alardeando fogo falso não é mais criminoso que esses engravatados que ganham por fora para que o meu dinheiro seja usado na compra de mais um naco do Maranhão ou para pagar o salário do Secreta (parte dele, bem entendido).

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Se é possível em tese viajar para o futuro, como comprovou Einstein, em algum ponto do espaço o filho do casal que copulou agorinha já é longínquo e esquecido tataravô de alguém. Este prédio já ruiu, com pastilha solta e tudo, há centenas de anos. O impune senado da república terá sido condenado necessariamente ao pó, com seus cadáveres de esquerda, direita e centro formando camadas fósseis, que hão de jorrar petróleo. Mas, para que jorre caudaloso, já avisam antecipadamente: só com um agradinho de 10%. E em espécie.

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22 Agosto, 2009

CONFLITO DE ENCARNAÇÕES


- Oi, amor.

- Ichi, atrasou um minuto e trinta hoje, heim. Cheguei a alimentar a esperança de que não viesse mais.

- Imagina, quem é morto sempre aparece.

- Dá pra falar sério ou vai continuar com a brincadeira?

- Brincadeira por brincadeira, foi você quem começou com aquela do copo. Não se deve invocar espíritos levianamente. Você perguntava, eu respondia. Foi assim uma semana inteira, toda noite, lembra? Você xavecando, querendo saber da minha vida e da minha morte, cada vez mais interessado. Não tem por que estar reclamando agora. Quem devia reclamar na verdade era eu, pois me comunicava por uma porcaria de um copo de extrato de tomate com uma crosta de sujeira no fundo e trincado na borda. Bem ao seu estilo, diga-se de passagem. Macho, desleixado, com noções precárias de higiene e ainda por cima encarnado. Arghh!

- Pois então não viesse. O que você queria, taças de cristal da Bohemia? Eu diria que o copo utilizado estava à altura da sua elevação espiritual. Aliás, eu já devia ter desconfiado do seu nível quando, ao falar sobre espíritos obsessores naquela tábua com as letras do alfabeto, você escreveu obsessão com c cedilha. O Aurélio está à disposição em algum lugar do céu, você podia tomar umas aulas particulares com ele.

- Ah, só faltava você me jogar essa na cara. Aqui no mundo dos espíritos ninguém precisa se preocupar com ortografia, bastam as boas vibrações. Coisa que você há muito tempo não vem emitindo pra mim. Já cansei de explicar pra você que somos almas gêmeas e que estamos juntos desde que o mundo é mundo. Só nos separamos temporariamente por um desencontro de encarnações...

- Olha, por mim eu deixava esse desencontro desencontrado pela eternidade afora. Quando eu for dessa pra melhor você estará encarnando de novo, e assim sucessivamente. Vai ser melhor pra nós dois. Com tanto fantasminha simpático aí em cima, logo você esquece de mim.

- Ledo engano, meu charmoso boneco de carne. Estarei sempre ao seu lado.

- Tá, e a minha privacidade, onde fica? Heim? Falar em privacidade, nem na privada tenho sossego, até no banheiro você dá o ar da graça querendo discutir a relação. Tenha dó. Quero mais é que comece logo o horário de verão, já que escurece mais tarde e eu ganho uma horinha antes de você baixar pra me encher a paciência.

- Ok, prometo ser mais discreta em minhas aparições daqui pra frente.

- Melhor ainda se limitá-las a umas duas vezes por semana, quando muito. E dê preferência aos dias de faxina, quando eu não estiver em casa.

- Bom, eu não desci aqui pra brigar com você. Mudando de assunto, como estou hoje?

- Com toda certeza, mais pálida que o costume.

- E lhe agrada? Musas geralmente são pálidas.

- Embora a palidez nesse caso seja da natureza cadavérica. E decididamente não sou chegado em necrofilia.

- Que é isso querido, não curte uma alma pelada? Imagina nós dois num caixão de casal, com rendinhas negras e colchão de água...

- Não fala assim que é pecado. Na condição de espírito você devia dar o exemplo.

- Ai, que santinho. Leio seus pensamentos o tempo todo e sei que você é um devasso. E se continuar assim, vai direto pro inferno.

- Deus me livre. Pra encontrar você lá?

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15 Agosto, 2009

NOTÍCIAS FRESCAS DO VENERÁVEL DUÑA


É certo que alguém de sua envergadura moral, investido da autoridade esotérico-telúrica com que foi agraciado pelo Olimpo, jamais deveria ser visto por aí de testa franzida, espinha arriada e olhar embaçado, sem o brilho via-lácteo de outrora. Não obstante, é assim que o Duña vem se apresentando a quem o vê em seu vagar errante por entre hortas e granjas da nossa zona rural, a esmagar rabanetes e pintinhos de um dia.

Decididamente, este guardião das verdades eternas há muito não é mais o mesmo. Eu, que tenho o privilégio de privar de sua intimidade, habitué que sou dos longos serões na sua choupana, afianço-lhes que a situação assim se configura e tende a agravar-se. Tantos são os pedidos de autógrafos e fotos com criancinhas ranhetas, as prescrições de rezas-bravas, os conselhos, unguentos, bençãos, imposições de mãos sobre feridas e aleijões que já não lhe resta tempo nem de remover discretamente uma cera do ouvido, quanto mais de usufruir de reparador banho de imersão nas Thermas ou de deliciar-se com duas ou três bagas de jaca ao molho barbecue, receita de família que o mestre tanto adora preparar e deglutir.

Tenho cá para mim que seu lado humano clama um tanto pelo ócio criativo a que os comuns dos mortais têm direito. Coisas triviais como coçar uma frieira, dar umas baforadas em seu cachimbinho de jacarandá olhando o firmamento ou trocar um dedo de prosa com seu dileto amigo Silas, discípulo desgarrado e hoje carteiro em vias de se aposentar.

O Duña também é gente, é bom que não esqueçamos. De carne e osso se apresenta à pecadora humanidade, que lhe ergue bustos sem cessar, de bronze e mármore de Carrara, nas praças das grandes, pequenas e particularmente das médias cidades. Talvez a causa do desalento seja faltar ao Oráculo um superior, um outro Duña ainda mais onipotente em quem se espelhar para inspirar seu sacerdócio. Imaginem vocês o quanto deve ser solitário amparar a todos e não poder lançar-se ao colo de quem quer que seja para um providencial cafuné. Ou ter de aturar um arrastão de sacripantas, batendo à sua porta às 3 e meia da madrugada, ávidos por um palpite para o próximo sorteio da Mega Sena acumulada.

É hora de retribuir, ao fulgurante ser duñesco, uma centésima parte das bem-aventuranças e dos casos instantâneos de cura de que nos servimos a um simples toque na sua túnica, nos bons tempos em que era moço e com a longa barba ainda ruiva. Não deixemos que a esplendorosa criatura renda-se ao poço da depressão incapacitante, que nos privaria irremediavelmente dos borbotões de enunciados, teoremas e máximas que há gerações jorram de sua boca para influenciar os destinos do planeta. Sugiro que o deixemos em paz nas suas meditações fecundas, para que dessa inércia restauradora ele ressurja em seu viço de líder espiritual. E para que possa, novamente, dirimir as indagações comuns aos gurus de sua estirpe: Qual o sentido da vida? De onde viemos? Para onde vamos? Por que os jalecos dos mecânicos irlandeses apresentam mais manchas nos cotovelos que os de seus colegas hondurenhos?

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08 Agosto, 2009

VOCÊ ERA


Você era uma lacuna. Toneladas de vazio se ergueram nos arredores, demarcando seu lugar. Por essa fenda a alargar-se, um cão vaga até hoje em inanição a farejar seu rasto e a vasculhar arestas.

Você era uma borracha. Das verdinhas e macias, que a gente levava no estojo, quando nem me passava pela cabeça te tirar para dançar. O fato é que um belo dia, sozinha a ouvir Rubber Soul, você apagou o meu rosto no caderno de espiral. E exultou, ainda por cima, rindo-se do meu sumiço.

Você era um exaustor. Sugou o ar carregado de vagabundagem e os restos de festa que haviam. Lançou para fora do apê todas as cinzas e cacos, que devem jazer amorfos em algum bueiro da pólis. O que sobrou, se sobrou, respira com a ajuda de aparelhos.

Você era uma pílula de placebo com validade vencida. E eu a sentir seus efeitos me fiando no seu rótulo. Depois veio a rebordosa, que deixou tudo mais seco que verso de João Cabral.

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01 Agosto, 2009

ALEATORIAMENTE


Ausência de criatividade pode não significar falta de aptidão para a coisa; talvez seja simplesmente desconhecimento de técnica. Às voltas diariamente com o dilema criativo, por questões profissionais, acabei caindo recentemente num site muito interessante sobre estratégias mentais.


Uma das técnicas apresentadas me chamou a atenção: a “Random word”, também conhecida como “Estímulo Aleatório”. Resumindo, a coisa consiste em juntar uma palavra relacionada com o problema a ser solucionado a outra escolhida absolutamente ao acaso. A partir daí, a ideia é anotar as associações produzidas por essa junção, gerando assim paralelos e perspectivas novas. É como eles dizem lá no site: “o segredo é não ficar esperando a maçã cair, mas chacoalhar a macieira”.

Resolvi seguir o conselho. E cruzei “inspiração”, que era a minha angústia no momento, com a primeira palavra tirada a esmo do dicionário. Fechei os olhos, abri o Aurélio numa página qualquer, corri o dedo por ela e parei: “Brotoeja”. Caramba, brotoeja... Tudo bem que a coisa toda é aleatória, mas a aleatoriedade poderia ter sido um tiquinho mais camarada. Tentei de novo. Apareceu a palavra “Empada”. Pra achar alguma liga entre “Empada” e “Inspiração”, seria preciso estar mesmo muito inspirado. E se fosse esse o caso eu não estaria ali, botando em prática a tal da técnica...


Ainda assim, fui em frente. Caí no termo “Tubo”. Relacionando “Inspiração” a “Tubo” fui parar numa Unidade de Terapia Intensiva, com um paciente inspirando pelo tubo de oxigênio. Bom, mas e daí? Juntei isso à combinação anterior e vislumbrei um início de história: um sujeito comeu uma empada estragada, que provocou uma reação alérgica em forma de brotoejas, que o levou ao hospital. Não, não. Sem chance de ir pra frente com esse argumento de tirar o fôlego. E pensei comigo mesmo: se a questão é estímulo aleatório, eu não precisaria necessariamente me prender ao dicionário. Pronto, achei em quem botar a culpa: os escassos estímulos do pai dos burros estavam tolhendo meu incomensurável manancial criativo. Bastava que eu olhasse à minha volta, ligasse a TV, fizesse uma caminhada e deixasse fluir os múltiplos cruzamentos que me passassem pela cabeça. Genial!!


Optei pela caminhada. Coloquei bermuda e tênis e pus-me em marcha acelerada, prestando atenção em tudo o que me aparecesse pela frente. Olhando para o asfalto, vi uma pequena rachadura. Esta me levou, por um paralelo megalômano, às fendas do Grand Canyon, que por remota associação geográfica me trouxeram à mente os famosos letreiros de Hollywood, em Los Angeles. Daí foi um pulo pra me lembrar da marca de cigarros. Que trouxe à lembrança a querida vovó Chiquinha, que nos áureos tempos de fumante inveterada chegava a consumir dois maços de “Hollywood” por dia. Da vovó aos bombons de cereja Prink, que ela adorava e escondia dos netos no fundo do guarda-roupa. Do guarda-roupa ao “Mistério de Irma Vap”, onde o Marco Nanini e o Ney Latorraca trocavam de indumentária dezenas de vezes a cada apresentação. Do teatro à cortina, da cortina ao pano, do pano ao tear. O tear me lembrou “tears”, das lágrimas surgiram o colírio, que me abriu os olhos e me fez parar com a brincadeira. Interrompi a caminhada e o raciocínio. Comparei a última ideia ao ponto de partida e não vi nada que se assemelhasse a um estalo redentor. Decidi voltar pra casa.


O fato é que cheguei a 3556 caracteres, contando espaços - o que está de bom tamanho para o texto semanal. Se vai agradar ou não, é outra história. Mas valeu ter chacoalhado a macieira.


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25 Julho, 2009

BICICLETA ERGOMÉTRICA: GUIA PRÁTICO DE CONVIVÊNCIA PACÍFICA


Trapacear a si mesmo arrumando outra desculpa seria infantil: você jurou que começava na segunda, e segunda é um dia que sempre chega antes do que a gente espera. Olhe só pra ela: novinha, reluzente, a nota fiscal sobre o selim ainda coberto de plástico-bolha. Dizem que vendo TV enquanto pedala o sacrifício fica mais fácil. O problema é que, pra arrumar um lugar pra sua TurboBike Magnetic Flash, você teve que tirar a TV do quarto. E poderia ser pior: um centímetro a mais e a cama também teria que ir parar no corredor.

Uma bicicleta ergométrica é, literalmente, fria e calculista. Fria por ser metálica (no inverno é particularmente repugnante chegar perto); calculista pelo display multifunções que ostenta no guidom, se é que se pode chamar de guidom aquele troço que não vira nem pra esquerda nem pra direita. Enquanto você veste o agasalho esportivo, ela parece dizer: "Vem, amorzinho, monta com vontade. Prova que você é macho de verdade, vamos perder juntinhos aquela pizza 4 queijos que você ganhou ontem".


Você até pensou em comprar uma bicicleta comum, dessas de 18 marchas. Observando a paisagem a coisa ficaria mais lúdica e pitoresca, com a vantagem de mostrar pra vizinhança que você cuida da forma. Mas agora é tarde, e o que resta é lidar da melhor maneira com seu novo algoz. Aí vão algumas dicas:


- Meia hora parece meio mês quando se está em cima de uma ergométrica. Melhor não ficar olhando a cada dois minutos para o indicador de tempo de exercício. Experimente a nova técnica denominada “bike meditation”: aprumando a coluna no banco, feche os olhos, respire compassadamente e imagine-se a pedalar no Caminho de Santiago. Faça da tortura algo sagrado e redentor, um instrumento de purificação da alma.


- Não tente ler jornal enquanto pedala. Além de trepidar com o movimento - o que é péssimo para a vista, em minutos seu exemplar estará empapado de suor - o que será repulsivo para quem folheá-lo depois de você.


- Evite pensar no esforço a ser feito - concentre-se nos conseqüentes resultados. Imagine-se com os pneus devidamente esvaziados, a região glútea fortalecida e os bíceps schwarzenegicamente anabolizados.


- Disfarce a aversão: seja amigável com ela. Cumprimente-a pela manhã, alise-a, pergunte como estão suas catracas. Faça dela sua aliada. Afinal de contas, ela estava muito bem lá na loja. Foi você quem inventou de trazê-la pra casa. E, como dizia o Pequeno Príncipe, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.


- Com o passar dos meses, o mecanismo começa a ranger. Isso é mortalmente irritante. Para contornar o problema, assovie sua música predileta. Ou mantenha à mão um óleo lubrificante de boa qualidade, para não acordar os vizinhos de cima e de baixo do seu apartamento.


- Conforme-se com uma série de sacrifícios heroicamente praticados mundo afora, sem benefício algum para a saúde. O faquirismo, a auto-flagelação, as caminhadas sobre brasas, as filas nas repartições públicas. Você verá que, mesmo montado numa ergométrica, é feliz e não sabia.

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18 Julho, 2009

AUXÍLIO-JAQUETÃO E OUTRAS PROVIDÊNCIAS


Bendita a hora em que tomei a deliberação de alocar o Jervoilson, Assessor D.A.S. 6 e apaniguado há sucessivas legislaturas do Bergoncildes Canastra, para organizar minha biblioteca da fazenda. O pobre andava mesmo enfastiado da chupação de lápis na sub-comissão de transcrição para braile dos discursos parlamentares, e com esse afazer pode ocupar melhor os seus dias e amealhar de lambuja umas horinhas extras. No total são 1.587.313 exemplares do “Marimbondos d’Água” entulhados no paiol, em edições patrocinadas pela Prefeitura de Santa Luz, pelo Governo do Estado do Maralhão e pela gráfica do Senado, que honrou-me com 38 edições anuais e consecutivas para distribuição a ONGs e escolas públicas brasileiras e do Mercosul.

No mais, devo admitir que foi bastante puxada a semana que passou, com variadas emendas apresentadas e favas contadas para aprovação. A primeira delas dispõe sobre a dispensa dos senhores senadores e suplentes de suas atividades legislativas no dia de seus respectivos aniversários. Permanecendo em suas bases eleitorais, os mesmos poderão receber, no recesso de seus lares, os merecidos parabéns dos correligionários.

A segunda emenda diz respeito à inclusão do Arroz de Cuxá, iguaria da qual não consigo me privar, no cardápio do restaurante do Senado. Já agendei uma degustação no plenário ao som de Alcione, glória maralhense, acompanhada da Banda de Pífaros de Coroatá.

Já a terceira emenda só passa em primeira votação à força de conchavo e de marcação homem a homem, com os aliados da base governista caçando apoiadores na unha: a criação do “Auxílio-Jaquetão”, com verba inicial de R$ 2.600,00 inclusa no contracheque e isenta dos descontos de praxe. Modéstia à parte, considerei memorável o meu discurso, onde defendi a indumentária como sendo alternativa salutar ao calorão do cerrado, facultando o seu uso em substituição ao terno e gravata protocolares. Foi deferido ainda o encaminhamento, sem necessidade de licitação, de estudo de figurino feminino do referido jaquetão, para que as senadoras também sejam contempladas pelo benefício. O ilustre senador Filinto Mangol fez um aparte muito a propósito, sugerindo que a versão feminina contivesse estampas de florzinhas nativas das regiões de onde as legisladoras são oriundas.

Por tratar-se de assunto correlato, fiz constar nas discussões do mesmo dia outro projeto de minha autoria: a “Licença-Abotoadura”, que torna não-obrigatório o uso do adorno nas sessões plenárias, pelos mesmos motivos expostos para adoção do jaquetão, quer seja, a tórrida temperatura brasiliense. Adicionalmente, nossa Casa de Leis ganharia um fortalecimento da sua imagem perante a opinião pública, já que sem as abotoaduras se tornará mais prático o procedimento de arregaçar as mangas no batente.

Concluindo, o projeto denominado “Seguro-Jeton”, que estabelece o recebimento do adicional por assiduidade ainda que o Senador ou suplente não seja propriamente assíduo às sessões. Ninguém desconhece que a existência do Jeton é expediente criado para reforçar a remuneração básica, e o seu não recebimento seria motivo de dissabor e desconforto, tanto na Câmara quanto no Senado. A apreciação da matéria se dará em caráter de urgência urgentíssima, havendo ou não o quórum regulamentar.

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11 Julho, 2009

BATATA QUENTE


A felicidade apareceu sem avisar que vinha, e aparentava ser daquelas que quase ninguém merece, mornas e duradouras. Assim que me assegurei ser ela mesma, fiquei na encolha só olhando as boas-vindas à hóspede.

De tão esperada, quando enfim presente estacaram no embaraço. Eduardo pensou em ciceroneá-la, apresentando à felicidade o que era o seu oposto: a lástima em que se debatiam. Lídia conseguiu demovê-lo a tempo, argumentando que a visitante se horrorizaria e jamais voltaria para visitá-los. Talvez nem tirasse as bagagens do carro, ela que veio com destino certo, mala e cuia para ficar boa temporada. E era o olhar de um a outro, a se perguntarem mudos em estalares de dedos e tremores de mãos: e agora?

Depois não vi mais nada: abandonei meu posto de observação no auge do impasse, enquanto a criada perguntava da janela se era para colocar ou não mais um lugar à mesa.

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04 Julho, 2009

EXÍLIO DE ZOÓLOGO



Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.

Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.

Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.


Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.

Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

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27 Junho, 2009

PEDRÃO SOLTA O VERBO


Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.

Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!

Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!

Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra...

Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.

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20 Junho, 2009

CINE LUXOR


Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.


Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.


Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.


Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.


Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.


A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.


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13 Junho, 2009

MAIS NÃO PEÇO


Eu olho para o seu retrato na carteira, em meio a esse Vietnam particular, e sinto o quanto tem valido a pena voltar para casa tendo morto e debaixo do braço o leão do dia, o troféu que lhe entrego em permuta de um sorriso, o costumeiro, não mais do que aquele protocolarmente aberto junto com as venezianas às sete da matina, sua hora predileta.

Não importa que no decorrer do período me falte o eixo pela pressão baixa e o discernimento para o que quer que esteja a um palmo do meu nariz: o que posso lhe assegurar é que sempre prevalecerá a devoção incondicional e espontânea, oferecida de bom grado para que as coisas continuem simplesmente assim, sendo o que até agora foram, pois mais não peço por não ter direito nem merecimento. Eu me contento com a janta escassa e racionada, uma beirinha que me caiba é o bastante, dá de sobra.

Que eu lhe seja provisoriamente útil como um calço de mesa é ideia a que já me acostumei, não tenho em mim qualquer pretensão além de compor a série B do seu time de soldados descartáveis. Escolhi assim quando lhe vi me vendo, com olhos mais curiosos que propriamente interessados, apenas acolhendo meu espanto e deixando governar sua vontade sobre a minha, sentenciando a sina que desde então vai se perpetuando. Suas esporas e botas de cano alto fazem verter o sangue, mas não machucam mais.

Mesmo que a você não diga muita coisa o fato de estarmos juntos, do marco zero espero que possa estar lembrada, com uma mínima ponta de nostalgia. Era então naqueles dias do começo, o reconhecimento tátil que permitia quando muito a mão na mão e uma ou outra palavra dita só no intento de dizer alguma coisa, não que houvesse precisão. No mais das vezes o silêncio era servido e se bastava, em tons de um cinza azulado. Quanto às urgências do sexo e outras do amor sabia por ouvir falar, ou das lições da rua ou das besteiras escritas e ditas em caráter de segredo nos banheiros de escola - repertório nulo quando dei pelo seu corpo, meses depois do reconhecimento inicial, pois nada do que fantasiei como sendo de proveito se encaixava no campo de pelos e carnes de verdade, o que para mim foi outro e envergonhado susto. E de que forma estranha você ria de mim e de minha imperícia, nem um pouco complacente com este aprendiz nos seus braços.

Em seguida vimos nós dois, se impondo no sítio da cama, um desajeito cerimonioso seguido por um modo todo seu de olhar o desenho da serra como se houvesse um outro e oculto contorno por trás dele. Coisas que ia percebendo e ruminando quieto após o seu cansaço, pressentimentos que não lhe contava para que nesse homem das trincheiras você não enxergasse um covarde cheio de dedos. O que seria uma injustiça – logo eu que saio à luta a despeito de inimigos tão mais fortes, ansiando uma comenda de bravura.

De espanto em espanto não restou para mim um palmo de conforto, o suficiente para que pudesse me sentir, um dia que fosse, num lar e na intimidade da mulher da minha vida – ainda que não seja nem de longe o homem que você imaginou para a sua.

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07 Junho, 2009

A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI


Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.

Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.

Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar dando amparo à vila de colonos que dependia dela.

Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa, lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.

Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr. Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do casarão.

No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros, que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos, zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das crianças no salão de jogos.



30 Maio, 2009

MANÉ, SAUDOSO MANÉ


Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

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23 Maio, 2009

DROPS PATERNOS



Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabisbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.

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Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir desta iguaria, tão rica em complexo B. Meu garoto, não tente achar tanto sentido nas coisas que te disse ontem, quando conversamos a sós no picadeiro. É só a minha visão pessoal, que pode ou não ser considerada, dependendo do conceito que você tenha de mim enquanto pai. Ser pai é fácil, basta um momento de inconsequência ou de esquecimento na hora do bem-bom. Quero que a minha autoridade sobre você seja aceita pelo que digo e faço, não pelo que represento na hierarquia familiar. O fato de ser mais velho não significa que seja mais sábio que você ou que tenha me tornado menos louco com o passar do tempo. É mais do que notória a minha fama de zureta, e é impossível que tanta gente esteja errada ao meu respeito. Portanto, siga meus conselhos, mas com uma certa reserva.

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Esfrie a cabeça, literalmente: caia n’água, pegue uma piscina. Já tive lampejos mirabolantes entre uma braçada e outra, vale tentar. Estar desorientado em questões vocacionais é normal em sua idade, comigo não foi diferente. Antes de optar de vez pelo trapézio, fui corretor de ações da malfadada Fazendas Reunidas Boi Gordo, me embrenhei alucinadamente na venda de jazigos para cães e até uma fabriqueta de troféus e medalhas já passou por minhas mãos. Em todas estas investidas admito ter quebrado a cara – o que, contrariando todas as óbvias expectativas, jamais aconteceu comigo sob a lona de um circo. É, meu filho, a vida tem dessas coisas. O que parece seguro esconde grandes ciladas, e vice-versa.

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Pelo menos nos quinze ou vinte primeiros encontros, uma mulher só se sentirá segura em seus braços se seus braços não forem além do que ela julgue razoável. Entende o que quero dizer? Seja tolerante, extravase os hormônios solitariamente por enquanto. Uma garota que aceita carícias naquelas partes logo de cara não serve para ser mãe dos meus netos. Ainda mais em se tratando da filha da engolidora de fogo, aquelazinha de índole duvidosa. Vou lhe fazer uma confissão: só desembrulhei completamente a senhora sua mãe na noite de núpcias, e ainda assim depois de certificar-me que seus instrumentos de trabalho não estavam ao alcance da mão. Você sabe, ela era atiradora de facas no Stankowich, onde trabalhávamos na época. Bem, chega por hoje. Nos vemos amanhã, após o espetáculo.

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16 Maio, 2009

VESTIBULANDO


Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia.
Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral.

Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o poder insuspeito do arbítrio mais livre, que me permitiria, se quisesse, fechar os olhos e abri-los um segundo depois na ponte do Brooklin ou em Jacarta. Tão inédita quanto mágica, essa nova faculdade não me seduz como seria de se supor. Prefiro estar aqui em cima e assistir ao que farão de mim e do espólio quase nulo a ser em breve repartido.

A estranha rédea sobre a consciência reforça a desconfiança de que esteja ligado debilmente à minha carcaça, e viva agora um impreciso devaneio de que me livrarei em poucas horas, reassumindo o sujeito com CPF, RG e obrigações a cumprir. Ninguém me assegura que não seja isso, e essa ausência de governo e coordenadas me perturba. Mexem agora num tubo ligado ao meu braço, mas não vejo nenhuma tentativa de ressuscitação. A enfermeira anota alguma coisa na prancheta que nem tento decifrar, os óculos que usava parecem continuar fazendo falta.

Previsíveis providências a serem tomadas nos próximos minutos: avisar a família, preencher os prontuários de rotina, acionar o pessoal da remoção, retirar toda a tripa – inclusa aí a meia portuguesa/meia aliche devorada antes do acidente, completar o vazio das vísceras com algodão embebido em formol, costurar, vestir e meter o infortunado que vos fala (ou vos falava) num modelito clássico de mogno maciço. Cubro o rosto daqui de cima para não ver o rosto de baixo escondido até a testa com o lençol azul. “Near death experience”, uma vez entrei num site que falava sobre isso. Se retornar posso dar meu testemunho, já engrossando as estatísticas dos que quase foram. Mas pelo jeito fui mesmo, embora sem garantias de ter ido ao certo, estando assim até segunda ordem nesse lodo movediço.

A televisão do quarto fala sobre mim, mostrando uma foto antiga em que ainda tinha barba. Ou foi muito feia a causa mortis ou era famoso e não me recordo. A enfermeira cruza minhas mãos sobre o peito e aumenta o volume do aparelho para ouvir a reportagem, ao mesmo tempo em que a imprensa vai invadindo o quarto e disparando flashes.

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09 Maio, 2009

DELIBERAÇÃO


Tendo em vista que:

De acordo com os pressupostos da numerologia, John Lennon e Paul McCartney jamais teriam se cruzado nas ruas de Liverpool caso se chamassem John McCartney e Paul Lennon;

A leitura incessante de listas telefônicas, na forma como é comumente praticada pelos tocadores de zabumba, é considerada procedimento enfadonho pela maioria absoluta da humanidade;

A grosso modo, não se deve julgar quem quer que seja pela aparência, salvo em se tratando de concurso de beleza;

É perfeitamente plausível haver, entre o si e o dó, um intervalo musical não captado pela audição humana, mas sim pela dos gafanhotos;

Mestre Duña há de voltar para a redenção do empirismo em sua plenitude, consolidando o método da tentativa e erro como sustentáculo da ciência em seus variados ramos;

A falta de quórum para aprovação da lei que estabelece mudanças na concessão do auxílio-paletó acarretará em nova sessão plenária, em data ainda a ser determinada por instrução normativa;

Desde os tempos de Leogivildo, o visigodo mais enaltecido pela história, não se vê tanta incompreensão e intolerância permeando as relações humanas, incluindo entre as ditas relações o coito interrompido;

Há em geral nos retratos antigos a evocação de ocorrência que não volta, e que portanto é de escassa serventia a sua guarda e eventual contemplação;

Não deixa de haver certo risco no intervalo compreendido entre os movimentos de inspiração e de expiração dos seres vivos, notadamente os mamíferos;

A interceptação de corpos celestes em rota de colisão com a Terra vem sendo realizada desde os tempos da guerra fria, à revelia da alta cúpula do governo cubano;

Fica decidido, à luz dos fatos acima expostos, que não há mais nada a fazer a não ser solicitar o serviço de informações para saber aonde se dirigir ou que providência tomar.


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02 Maio, 2009


Uma piscada mais lenta que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.

Estou indo para o abrigo tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo avançado da idade.

Acelero para o oco do tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em descuido a pedir arrego, reza de proteção e cuidados redobrados. Lá ainda lembram de mim como o caçula de meu pai, no corpo novo que fui, e não serei eu a roubar-lhes a ilusão. Se não me reconhecerem, que vejam em mim um sujeito outro e distinto da imagem, agora sépia, de alguém com o cabelo em desalinho e o olhar tolo de quem não tinha noção do que teria de enfrentar.

Lá é um sempre que cismou de sempre ser, os incomodados que se mudassem, corressem para outras freguesias, despencassem dos penhascos e ganhassem rugas por esse mundo além-montanha, de onde nada de proveito haveriam de trazer. Quando muito esses zumbis, dos quais provavelmente eu sou o chefe, retornam trazendo o desespero dos anos idos longe dali e muito mal aproveitados, pois foram anos em lugares outros espelhando nesses lugares outros o casulo de nascença, a cidade das paredes que descascam mas permanecem paredes em seu vigor vitalício.

Limite de município. Falta pouco para o triunfal retorno dos vencidos e mutilados de guerra, aqueles que voltam sem medalha de bravura no pescoço. De soslaio os olhos passam pelo retrovisor, e por um instante os vejo sem papadas e livres da catarata que embaça a vista e o entendimento.

No lugar que não me aguarda com faixas de boas-vindas, vilarejo das coisas que são como se acostumaram, haverá decerto um povo arraigado em seu sossego a rotular-me forasteiro ou desertor, que ficará indiferente ao choro que não segurarei quando de novo embaixo da velha árvore.

Das últimas vezes, nesse trecho, não haviam lombadas no caminho, a bem dizer quase nem caminho havia, nem tantos carros, nem placas que falam de loções cremosas e hambúrgueres. Os velhos de então se foram e o neo-velho que chega encontrará, passado este sinal vermelho, o enigma das gerações que se sucederam sem que pudesse acompanhar. É o preço a ser pago, assistir ao sumiço das quitandas e alfaiates ao mesmo tempo em que se sente a perda de massa dos músculos e o fim como perspectiva próxima.

Engasga o carro. Veja se isso é hora de acabar a gasolina.


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25 Abril, 2009

UM PARA O OUTRO


Tá certo que ele não era nenhum conhecedor profundo do moderno cinema iugoslavo. Mas ela também não era nenhuma marchand francesa especializada na fase azul de Picasso ou nas esculturas de Rodin. Tá certo que ele não era nenhum master-franqueado do Instituto Kumon, com 25 unidades só no Centro-Oeste e ótimas perspectivas de expansão. Mas ela também não tinha propriamente onde cair morta, e se tinha não sabia o número da sepultura nem o cemitério.

Tá certo que ele não era nenhum prodígio musical, capaz de assobiar as 32 sonatas de Beethoven de trás para a frente e em ordem cronológica de composição. Mas ela também não arriscava nem o “Atirei o Pau no Gato” debaixo do chuveiro e sem ninguém em casa.

Tá certo que ele não era nenhum Tom Cruise, ainda que seu convênio médico cobrisse cirurgia para correção de astigmatismo congênito em grau severo. Mas ela também era um estrago natural à prova de photoshop, e estava a léguas de distância da última colocada no Miss Birigui 1978, edição do evento especialmente pródiga em mulheres corcundas e fora do peso.

Tá certo que ele não era nenhum espertalhão pronto a dar o bote, sendo notória sua semelhança fisionômica com Mister Bean – com a diferença que este último amealhou uma montanha de dinheiro com sua cara de idiota. Mas ela também não era nenhuma megera movida a terceiras intenções, e não consta na delegacia boletim de ocorrência envolvendo seu nome.

Tá certo que ele não era nenhum iogue indiano, evoluído espiritualmente a ponto de ingerir um basculante de estrume com um sorriso nos lábios, em piedoso sacrifício pelo bem da humanidade. Mas ela também não nascera Madre Teresa de Calcutá, e trocaria sem pestanejar sua alma por um naco de quebra-queixo, desde que com bastante gengibre.

Tá certo que ele não era nenhum exemplo de autoestima, se considerarmos as três ou quatro vezes em que foi encontrado com o gás ligado e a cabeça dentro do forno, além de outras tantas em que o flagraram ouvindo a Perla no volume máximo (e no banheiro, onde o perigo é maior devido ao eco). Mas ela também não tinha motivos para nutrir por si mesma a mais remota simpatia, tanto que uma não olhava para a cara da outra quando se cruzavam no espelho.

Tá certo que eles não eram nenhum casal modelo. Ainda assim apaixonaram-se, casaram-se e previsivelmente não foram nem um pouco felizes. Mas também, antes mal acompanhados do que sós.


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18 Abril, 2009

PRIMEIRO CONGRESSO INTERESTADUAL DOS PROFISSIONAIS DE TELEMARKETING


DESAFIOS E PERSPECTIVAS DE UM SETOR EM VIGOROSO CRESCIMENTO E EM VIAS DE EXTINÇÃO. DE 23 A 27 DE JULHO DE 2009, EM BARRA DO PIRAÍ - RJ.


Programação – 23/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Regulamentação e valorização profissional do operador de telemarketing versus lei que cria o Cadastro Estadual para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Call Centers. Como contornar esta contradição?

PALESTRA DO DIA
O best-seller “O Segredo” e a Lei da Atração aplicados aos Call Centers e afins. O verbo vender dando sentido à vida e fundamento ao universo.

Coffe-break

MESA REDONDA
A lei que estabelece em 60 segundos o tempo máximo de espera para atendimento telefônico nos SACs.
“Um minuto de tolerância não é atendimento. É gincana, meu rei” – Depoimento de Carlinhos Girafanti, atendente em Salvador – BA.


Programação – 24/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Gerundismo: promovendo o controle eficaz do vício. Estaremos discutindo, debatendo, analisando e propondo alternativas para os compulsivos. Workshop com demonstração prática de casos crônicos com animadoras perspectivas de regeneração.

PALESTRA DO DIA
Crise econômica mundial: vamos fazer uma limonada com este limão. O desemprego crescente significa mais gente em casa para atender o telefone, e é preciso que o profissional do setor saiba tirar proveito desta preciosa oportunidade.

Break sem coffee (efeito da crise)

MESA REDONDA
O “tu-tu-tu” x a revolucionária tática “sim-sim-sim”: saiba porque concordando três vezes consecutivas com seus argumentos as chances de fechamento de negócio são 96% maiores.


Programação – 25/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
O método “Vendendo pelo Cansaço” e seus 8 passos: abordagem, apresentação, explanação, argumentação, chateação, apelação, insistência e rendição.

PALESTRA DO DIA
Novas tecnologias: 72 músicas de espera inéditas para o seu negócio, incluindo “Bilu Teteia”, “A velha debaixo da cama” e aquela uma do Gonzaguinha.

Coffee-break:
Para café puro, tecle 1
Para suspirinho de padoca, tecle 2
Para bolacha com goiabinha no meio, tecle 3
Para suco aguado com sanduíche de metro de anteontem, tecle 4
Para voltar ao menu principal, tecle 5

MESA REDONDA
Profissional de telemarketing também é gente: como reclamar ao PROCON se o sujeito que atende o telefone desrespeita o seu direito de insistir.


Programação – 26/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Exibição de documentário sobre o call-center da Golden Selecta Minnesota Trading, que instituiu a jornada ininterrupta de 72 horas com administração intravenosa de nutrientes substituindo as pausas para refeições e, consequentemente, as posteriores necessidades fisiológicas.

PALESTRA DO DIA
Vendendo Fanta Uva como quem vende Coca-Cola: ao contrário do que se pensa, esquimós compram geladeiras. E estão ávidos por novos modelos.

Coffee-break

MESA REDONDA
Tele-assédio sexual: lidando profissionalmente com as inevitáveis “cantadas”.
Situações adversas: procedimentos a serem adotados quando o dono da linha diz que o dono da linha está pescando em Mato Grosso e só volta daqui a 3 meses.


Programação – 27/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Televendas com ligação tarifada: quando deixar o cliente esperando é mais negócio para a empresa.

PALESTRA DO DIA
Ocorrências extremas: mantendo a serenidade e a polidez quando o interlocutor sugere tomar bem no meio do olho de determinada parte anatômica. Descrição de um case de sucesso que terminou em casamento, com a presença e o testemunho dos nubentes.

MESA REDONDA DE ENCERRAMENTO, COM ENTREGA DOS CERTIFICADOS DE PARTICIPAÇÃO.
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11 Abril, 2009

ENCOUNTRY O SUCESSO


Valdivino & Laudislano são um estouro nas paradas. Um sucesso talvez maior que mil estouros de boiada, coisa que nenhum dos dois viu de perto na vida, embora se proclamem cantores sertanejos como Januário & Vespertino, com seus cinturões dourados comprados numa excursão ao Mississippi. Dupla que por sua vez, a exemplo de Furacão & Hurricane, está com a agenda de shows lotada até julho de 2010 em feiras agropecuárias onde não há agricultura e muito menos pecuária. Talentos que não ficam nada a dever a Christóvão & Christino, que quase largaram a estrada com ameaça de gangrena nas pernas, fato idêntico ocorrido a Juanito & Ranulfo, por causa da compressão das calças excessivamente agarradas.

Essa maciça e inconteste consagração popular faz lembrar os trinados rouxinolescos de Joracy & Jurabel, guardiões da nossa legítima música de raiz, ainda que a única raiz que conheçam seja a raiz forte servida no restaurante japonês caríssimo que frequentam nos Jardins. Os mesmos Jardins que abrigam os empresários artísticos de Tiago & Risério, Suzano & Bebeto e Wilson José & José Wilson, reis absolutos do cancioneiro arranca-toco, sem que jamais suas caminhonetes 4x4 cabine sêxtupla tenham passado perto de um caminhão de bóias-frias. Frutos consagrados da roça como Alexandrino & Dito da Tulha, com suas taperas e ranchinhos fincados em Alphaville, suas aparições compradas nos programas de auditório e suas cotas de 48 páginas/ano de fotos no Castelo de Caras.

Nenhum outro duo, todavia, tem levado tão a sério o trabalho de preservação das tradições caipiras quanto Caio Morotti & Feliciano, cujas reboladinhas country e solinhos de banjo resgatam às novas gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts. Ídolos que sofreram forte influência dos inimitáveis Osmar & Arsênio, dupla com apresentações-surpresa e merchandising garantidos até a edição 15 do Big Brother Brasil, aquele reality show roteirizado pela equipe de redatores da Rede Globo.

O fato é que o Olimpo da autêntica moda de viola é pródigo de estrelas. Só mesmo alguém com estrume na cabeça poderia deixar de reconhecer a contribuição decisiva de Bruna & Torrone, Aladin & Lâmpada Maravilhosa e Andrezinho & Rodrigão para o sucesso dos leilões de gado empreendidos por esse Brasil sem porteira. O caviar russo e as doses cavalares de Blue Label ali servidos de nada adiantariam sem os megashows dessa turminha rural – que verdadeiramente embala e alavanca os lances mínimos de 500 mil reais por uma colher de sopa de sêmen de zebu premiado.

Meu amigo, eu diria que esse é o lado maravilhoso da chamada globalização: o Texas fica em Pindamonhangaba e vice-versa. Dá orgulho ver os nossos jecas e matutos tornando-se tão idênticos a um farmer anglo-saxônico, ainda que só na roupitcha. Cabe a nós valorizar e levar adiante essa bandeira multicultural. Às vezes ouço falar, meio por alto, de outros nomes menos conhecidos: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Nhana, Pena Branca & Xavantinho. Confesso minha ignorância. Seriam novas duplinhas country? Se tiverem mesmo talento, logo logo estarão na TV. É esperar para ver.

04 Abril, 2009

NOTURNO EM DÓ


Ai meu Deus, o sono que carecia, nenhuma sombra de gente dando sinal de chegar. Virou-se para o outro lado. O toque fresco do lençol grosso de linho, o bafo dessa noite quase dia. A franja do cobertor, as cócegas no queixo, a pena de gastar a vida assim nesse sei lá.

- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roía tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.


- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?


Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
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28 Março, 2009

PROPRIEDADE


- Tem namoradinho rondando Lídia Isadora, moço bem apessoado.
- Quê?
- É o que lhe digo, não queria trazer preocupação para o senhor meu marido, mas...

Franzindo o cenho, o coronel tranca o ferrolho. Fecha questão em definitivo. É o sinal de que não pode, a filha envolta em vestidinho branco é imaculada até disposição em contrário e expressa ordem do dono, e essa ordem não virá. Filha da Igreja antes de ser sua filha. Essa não tem jeito, é prometida pra Jesus. Quase natimorta, escapou Deus sabe como. Fez promessa se vivesse, era dever cumprir. Nunca um desejo de carne havia de tirar o sossego desse corpo magro de menina. Não da minha menina, que essa é pra convento de clausura. Vai comer moela às vezes e jejuar quase sempre por amor de Nosso Senhor, assim seja e há de ser, ou não me chamo Juvenal.

De domingo, a imbuia dura onde ajoelha, veludo roçando a maçã lisa do rosto. A paz da capela, o padre escuta e não encara.

- Não que eu tenha pecado, padre, mas no descuido deixei entrar no juízo uns pensamentos descarados. Um moço vem querendo coisas, olha fundo no olho, se achega sem convite.
- Menina, você tão nova. Que mais?
- Não sei se conto ou não conto, não virou acontecência, ficou no quase. De todo modo...

Pai vem vindo, barulho de molho de muitas chaves. Coronel de porte e pose de dono de capitania. Pisa mais forte que o costume, sinal de que a vara de marmelo vai cantar.

Demorou nadica. Uma vergastada, duas, três. Acolhe calada o castigo, os olhos revirando sem chance de revide ou de explicação.

- E você, mulher, vigie de perto e me avise de abuso, que boto jagunço no rasto do desaforado.

Tem duas mães, a menina. A de verdade, zanzando desnorteada, sem ação de serventia. E tem a Dita, ama de leite cheia de simpatias e rezas, mãe postiça que não deixa ao deus-dará.

- Passa um bife, Dita, ela tem fome.
Trincheira providencial, a Dita, na hora de evitar surra de rabo de tatu. Se acontecia de não conseguir, vinha com a salmoura, junto com afago e colo.

Tirava o avental molhado e chegava acudindo de toalha felpuda numa mão e bacia de lenitivo na outra, e era bom ser filho de criação da Dita e estar inteiro sob a tulha de seus braços. Assim, nesses bocados, a sova ia caindo mais fácil no esquecimento. Lenta mágoa desmanchando pela noite na fazenda, também lenta, onde só grilo se escutava no adiantado da hora.

A toda purinha, atrás dos óculos de fundo de garrafa, pedia a Deus o perdão ao pai, defensor do feudo e da honra da família. Que dessa porteira pra dentro não passe nem a miséria, nem a desgraça, nem a tentação. Se a ira divina se abater sobre essa roça, que seja eu a levada para purgar o pecado que quase nem cometi.

Na varanda, o coronel não se ressente, fez o que pai que se preza tem de fazer nesses casos. Pica o fumo e balança na cadeira, pensando no preço da arroba do boi.

Assim acontecia de ser sempre, naquela lonjura que não se chega, margeando o cafundó.


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21 Março, 2009

MUAMBEIROS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS!


Da Reportagem Local

A greve dos vendedores ambulantes prossegue em seu décimo sexto dia, sem perspectiva de consenso entre os representantes da categoria e as autoridades constituídas.

O sindicato dos muambeiros, camelôs, sacoleiras e similares reivindica a licença para a venda de produtos da chamada linha branca (assim denominados por não possuírem nome ou marca fantasia em suas etiquetas de identificação), a poda imediata de um abacateiro no meio do camelódromo, o aumento do número de banheiros químicos de 3 para 27 e a reintegração da “Banca do Lorpa” ao circuito alternativo de compras – banida recentemente pela Guarda Municipal por comercializar Viagra genérico e cartilagem de lambari como sendo de tubarão.

Jorginho Bicicreta, há doze anos estabelecido ao lado da referida banca, falou à reportagem. “O Lorpa é gente boa que só vendo, tem um filho com problema, uma mulher que costura pra fora e uma sogra que nem o tinhoso merecia. Se a situação continuar desse jeito, ele disse assim que volta lá pra Três Corações. O camelódromo sem a Banca do Lorpa não é mais o mesmo, é uma loja âncora, chama gente pacarai (sic)”.

A Guarda Municipal, por sua vez, argumenta que a idéia era lacrar a barraca até que se concluísse o processo investigatório, que comprovaria ou não as irregularidades. De acordo com o Capitão Xexéu Vieira, a lacração não foi possível pelo fato do estabelecimento não possuir portas, paredes, tapumes ou qualquer outra estrutura física que lograsse o intento. Então a alternativa foi o recolhimento das instalações desmontáveis e a apreensão dos lotes do Viagra meia-bomba e das cartilagens de tilápia. Questionado pelo nosso repórter Paranhos se as cartilagens não seriam de lambari, conforme noticiado extra-oficialmente, o Capitão esclareceu que o exame microscópico revelou serem as mesmas de Tilapia Galilaea, até porque os lambaris não são dotados de cartilagens em sua constituição.

Caso não tenham atendidas as suas reivindicações, os autônomos não-estabelecidos ameaçam com a legalização plena de suas atividades e mercadorias comercializadas, emitindo as respectivas notas fiscais em três vias e procedendo ao recolhimento de todos os tributos em vigor nas esferas municipal, estadual e federal. Jorginho Bicicreta argumenta: “Aí é que eu quero ver a porca torcer o rabo. Que pai de família hoje consegue comprar DVD, pen-drive, notebook, carregador de pilha e boneca que faz xixi com o preço incluindo tudo quanto é imposto? Heim, me fala??? Nós cumprimos uma função social. Veja bem, o muambeiro e a sacoleira hoje precisam os dois serem ambos igualmente valorizados”.

Ao tomarem conhecimento da greve, ambulantes de várias cidades da região desembarcaram em massa na estação rodoviária e começaram a ocupar os espaços deixados pelos camelôs grevistas. Um deles, que não quis ser identificado, pronunciou-se: “Precisamos aproveitar rapidamente esse nicho de mercado. A população pode ficar tranquila que continuará tendo o que tinha antes, com maior variedade e preço ainda mais baixo. Essa greve dos camelôs locais mostra a força do cartel da muamba, que só quer defender seus privilégios e impedir a livre concorrência”.


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14 Março, 2009

AD ETERNUM


Eis que de novo me deparo com a nada consoladora ideia de que o sistema solar é espantosamente semelhante a uma estrutura atômica, e que a diferença não passa de uma questão de proporção e de velocidade. E se a Terra for um dos elétrons de um dos milhões de átomos de uma ponta de lápis sobre a mesa de um escritório, numa outra e gigantesca Terra?


Largo Newtons, Galileus e Sócrates deitando postulados pelos cotovelos e me agarro ao manto de Abraão e ao cajado de Moisés, no pasto verde das verdades simples. Ovelha, deixo que me conduzam por dogmas que se bastam, convertido ao fato de que existem mesmo as moradas celestes, onde nem traça ou ferrugem, epidemias ou bandidos roubariam o sossego dos descendentes de Adão. Onde, indefinidamente vivos, habitaremos gratos. Cada família em sua casa de grossas paredes fincadas no éter. Mansões onde, após banquetes generosos, tem-se o sagrado direito à sobremesa predileta, que por também ser eterna se reconstituiria a cada mordida, para a glória das gulas.


Pais e mães tomando perpetuamente conta de seus rebentos, com muitas rugas a menos por saberem que suas crianças serão poupadas no juízo final, mesmo porque o juízo final não será tão final assim. A vida se espreguiçando infinito afora, o beijo mais sorvido se alongando até a exaustão, se exaustão houvesse no mundo lá de cima. Todos volitando com trechos de salmos impressos nas túnicas, Beethoven escorregando num tobogã clave de fá, nenhum passarinho preso, sinos aos montes dobrando e marcando a hora de lembrar que nunca é tarde.


Tempo e espaço se liquefazendo, Van Gogh de velocípede a ziguezaguear por latifúndios de girassóis. Cada um se lambuzando de sua Pasárgada privativa, desobedecendo zombeteiramente as recomendações médicas, sem noção de comedimento e sensatez, metendo os pés pelas mãos, fazendo tudo o que faltou ser feito quando envolto pela carne. Se convencer de que a Terra é plana, de que aconteceu o dilúvio, de que tudo foi criado em exatos 6 dias, sem nenhuma hora extra ou percalço que desanimasse o Maioral. Ter a confiança dos que se sabem amparados, e saltam sem se preocupar se o paraquedas vai abrir.


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07 Março, 2009

CACA - CENTRAL DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR ALVORADA


Ficamos gratos pelo contato estabelecido através do “Fale com a gente” do site alvoradaonline.com.br. É graças a manifestações sinceras e isentas como a sua que podemos aperfeiçoar os nossos produtos e corresponder às expectativas de uma extensa e cada dia mais diversificada legião de consumidores.

O senhor queixa-se da aspereza e consequente desconforto ocasionado pela nossa versão standard, comercializada exclusivamente em fardos de 32 unidades e à venda nos atacadões Kiprecinho e Valemax, nossos distribuidores autorizados na Serra da Bocaina, região em que o senhor reside.

Quanto à aludida fricção entre o produto supracitado e a parte anatômica tão reiteradamente mencionada em sua reclamação, lembramos que um nível de abrasividade mínimo é indispensável para que as suas necessidades sejam atendidas sem perda de performance – entendendo-se, no caso, o termo “necessidades” em ambos os sentidos.

Em nosso setor de pesquisa e desenvolvimento, nos balizamos por um coeficiente de atrito adotado mundialmente pelos melhores fabricantes e homologado como parâmetro pela Organização Mundial de Saúde.

Lembramos que também disponibilizamos em nossa linha as versões de folhas duplas, extra macias, absorventes e com essência de lavanda, nos modelos “Light Pétala”, “Veludão” e “Carícia”, todas com o selo AA (Anti-Assadura) da Sociedade Brasileira de Estudos Avançados em Dermatologia.

Passemos à sua próxima queixa, esta um pouco mais técnica mas igualmente infundada. É preciso esclarecer que a perda resultante da porção de produto que permanece aderida ao cilindro de papelão está dentro da margem tolerada pelo Inmetro, como estabelecido na norma 186.450/78B. Sugiro que compare os nossos índices (20 a 22,5 cm) aos da concorrência e tire suas conclusões. De antemão, podemos afiançar que a nossa marca é a que oferece a mais vantajosa relação custo-benefício.

Lembrando suas próprias palavras, de que a porção de produto entre um picote e outro “não dá nem para o começo”, vale ressaltar que tal medida atende aos requisitos do cidadão médio, em condições normais de uso e sem alterações significativas em seu metabolismo. Nada impede que se lance mão de duas, três ou mais porções a cada utilização, sem que tal fato fira as normas do Código de Defesa do Consumidor ou represente abuso de poder econômico.

No campo “Críticas e Sugestões” o senhor lança a ideia de colocarmos no mercado uma categoria de produto com histórias em quadrinhos, segmentadas por assunto, público e faixa etária, tendo em consideração o arraigado hábito da leitura no banheiro. Sua sugestão é válida e aparentemente inédita em âmbito mundial, merecendo cuidadoso estudo de viabilidade pela área competente. Contudo, a estratégia de “continua no próximo rolo” seria melhor aplicada a contos e romances, já que uma história em quadrinhos com mais de 30 metros, e ainda mais com continuidade, seria demasiadamente enfadonha para o usuário, ainda que este sofra de constipação intestinal crônica.
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28 Fevereiro, 2009

MANGIARE


A mesa posta é cama feita. Lombos e salames vão sugerindo indecências, o sol de mezzogiorno deflora as fogazzas. O ventre e a vitela ao mesmo tempo, um mesmo pasto. Carnes em lanhos atiçam o quase incesto, a desonra. Não tarda o ataque, por baixo da toalha, às coxas esguias. Ele a belisca, é a senha de que a aguarda no caramanchão.


- Que a nonna não nos veja.

- Ela ora sua novena, se abana e reza, reza que só ela... terminou mais cedo o almoço, daqui a pouco começa a tarantela e ninguém mais escuta niente.

- Perdido, immondo. Somos primos.


Um peito mínimo na palma da mão, o outro dá-se al sugo. Più perfetta Sofia. Pingo de vinho na blusinha branca, sorve-se ali, de pé e na pressa, o cálice da tentação.

- Sporcaccione maledeto.

- Cala que te arranco a língua, tão feita pra se enroscar na minha, un vero desperdício.

- Animal, svergognato. Madonna mia.


Primo e prima, due al dente. Pronto, é manchado o brasão virtuoso dos Tartini. Além do falatório ao longe, o único sinal da famiglia é a fumaça do cachimbo do nonno, entre um bocado e outro das carnes se comendo no caramanchão.


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21 Fevereiro, 2009

CIENTISTA DE ABADÁ


Digerido o mingau de maizena das dezoito e trinta, reparti o cabelo ao meio, calcei minhas botinas e rumei em desabalada carreira à grande festa de Momo.



Em meio à balbúrdia generalizada, ouvi algumas pessoas ao meu lado proferirem reiteradamente o termo “cheirar lança”. De imediato meu sistema cognitivo associou a expressão a um aborígene aspirando sofregamente seu instrumento de caça, e tal quadro afigurou-se-me exageradamente surreal. Não dei maior importância, ainda que considerasse estranho aqueles rapazes rindo sem motivo aparente, e prossegui embalado nos folguedos, circundado por um manancial de regiões glúteas bem proporcionadas.


Foi quando percebi assomar em minha direção, a uma velocidade média que pelos meus cálculos girava em torno de 4,6 metros por segundo, uma engenhoca denominada Trio Elétrico. Tentei vislumbrar onde exatamente se achavam instalados a trava, o vidro e o alarme, mas não avistei senão um amontoado de tocadores de tambor sem camisa e uma cantora com as pernas de fora posicionados acima do veículo, que se assemelhava a um palco ambulante e arrebanhava multidão crescente conforme ia transitando. Por Galileu, qual seria o sentido daquele rito profano?


Cismava nessas conjecturas quando um alto-falante próximo anunciou que dentro de meia hora teria início o desfile das escolas. Ora, pensei, o 7 de Setembro já se fora há mais de 5 meses; além do que não via naquele cenário de perversão e sodomia o ambiente propício a uma parada cívica, com alunos de escolas estaduais e municipais saudando o dia da Pátria.


Importante frisar que, ainda que empreendesse todos os esforços para permanecer imóvel e em atitude meramente contemplativa, aquela procissão de excomungados me empurrava a contragosto. Era por assim dizer arrastado, em efeito análogo ao refluxo do mar quando estamos com as marolas batendo na altura das canelas, em Praia Grande ou São Vicente.


Artefatos circulares de papel colorido e rala espessura, denominados confetes, eram arremessados sem mãos a medir na direção dos meus olhos, como se os foliões quisessem deliberadamente levar-me à cegueira a todo custo. É bem verdade que nem todos os acima designados confetes atingiam o sistema ocular – 16% se alojavam entre a mucosa da boca e a laringe e outros 7,8% pousavam inertes sobre o copo de leite batido que empunhava ao som do “Alalaô”. Considere-se nesta estatística uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, estabelecendo como desprezível a resistência do ar entre a posição de arremesso e o alvo.


Questões outras também eram por mim analisadas, como a fadiga e a dilatação de corpos e materiais, o poder de abrasão das fantasias de califa quando roçadas com as de odalisca e a ação mensurável das forças centrífuga e centrípeta nos chamados cordões carnavalescos. Por volta das três e meia da madrugada, uma mulher de aparência polaca e olheiras fundas – provavelmente causadas por falta de sono reparador – agarrou-me à força e beijou-me demoradamente, passando em seguida às minhas mãos um lenço umedecido e um cilindro de vidro translúcido com líquido não identificado em seu interior, trazendo um rótulo onde se lia “Universitário”.


Sem entender bem o porquê do presente, pressionei a válvula, muito semelhante à de um extintor de incêndio. Imediatamente rondaram-me dezoito elementos vindos não sei de onde, todos com lenços nas mãos e olhando ávidos para meu pequeno tubo transparente. Estupefato, perguntei ao grupo em que poderia ser útil. Uma fração de segundo depois, um dos indivíduos me socava a cara enquanto outro me furtava o cobiçado “Universitário”, como se o apetrecho fosse a chave do paraíso. Acordei na delegacia, onde me encontro agora em companhia de nativos, cujas peculiaridades comportamentais merecem um detalhado estudo antropológico.


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14 Fevereiro, 2009

DEMASIADO HUMANO

Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico - inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.


Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.


A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.


Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim - alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.


Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.


Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.


Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.



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07 Fevereiro, 2009

A HORA H

Homero na mesa 8. Helena na mesa 12.
Homero enfim está de volta. Helena não está à espera.
Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé.
Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora.
Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada.
Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde.
Homero olha para ela. Helena finge que não vê.
Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça.
Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem.
Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido.
Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem.
Homero é reticente: Peixes. Helena é incisiva: Áries.
Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga.
Homero chama outro whisky. Helena mexe o Dry Martini.
Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou.
Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele.
Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias.
Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha.
Homero tem seu telefone. Helena não vai atender.
Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar.
Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis.
Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto.
Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater.
Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear.
Homero insinua. Helena deixa claro.
Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca.
Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata.
Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz.
Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido.
Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação.
Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista.
Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer.
Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra.
Homero recorda seus seios. Helena anseia vingança.
Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém.
Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.


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31 Janeiro, 2009

A SÓS


Olhares que se cruzam, dela e do cão. Do ponto de vista do cão, o olhar somente - o literal pousar de olhos sobre alguém ou alguma coisa. Para ela uma zona de conforto na arrumação de si, como se fosse possível um cessar-fogo entre os neurônios. Poderia não ser um bicho, mas uma xícara, um poste, o que via não era absolutamente o que enxergava. Não havia a consciência de olhar o cão, nem no cão a de saber-se observado. Cara a focinho, aquele era o tempo presente dos dois. A indolência que sentia lembrava talvez o fastio que se tem em casa de mãe após a janta generosa. Isso era nostálgico e reconfortante, a sensação do território conhecido, o nada além da posse precária daquele momento de pálpebras arcando. Vovó morta, envolta em seda, o coro de filhas de Maria na trilha sonora, entregando junto ao padre o corpo à terra. Vovó se foi, é fato, ficou o cão e a urgência do que fazer dele. Chove a fina e mesma chuva sobre finados e vivos, um bolero gira na vitrola arcaica. Delírios, xô que já é tarde. Deixem-na a sós com seu cão.

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24 Janeiro, 2009

TREMA DESEMPREGADO, MATA-BORRÃO INVÁLIDO, DEDAL DESALOJADO


- Eu caí.

- Caiu onde, de que jeito? E nem tá machucado, do que tá reclamando?

- Não ouviu falar que acabou o emprego do trema? Então, estou na rua.

- Fica tranquilo, trema. Pra tudo tem solução nessa vida.

- Dedal, amigo velho, como é que eu posso ficar tranquilo se tranquilo não tem mais trema? Estou liquidado – e liquidado sem trema.

- Tem certeza?

- Tá na regra, pode conferir.

- Conforme-se, veja você o que fizeram comigo. Eu era encontrado em vários modelos nas boas lojas do ramo. Vivia nas mãos das moças mais lindas, que passavam o dia bordando e tocando piano. E hoje, olha minha situação. Se nem costurar mais se costura, quanto mais usar dedal. Meu caso é mais grave que o seu, porque minha obsolescência é em escala mundial. Você ainda pode se mudar pra Alemanha, por exemplo. O que tem de trema por lá não está escrito, todos muito bem empregados. Concorda comigo, Mata-Borrão?

- Eu acho que nesse caso tem que usar a criatividade. Se ao invés de deitado você ficar de pé, vira dois pontos. E até onde eu saiba, os dois pontos continuam em pleno vigor, certo? É o tal do jeitinho brasileiro, meu camarada. Eu mesmo, pra te falar a verdade, também não sei como fica minha situação, se fico ou não com o hífen. Também tanto faz, até porque ninguém mais escreve “Mata-Borrão”. Pior: não há quem escreva mais a mão, muito menos com caneta-tinteiro. Maldito computador, matou de vez todos os borrões! Agora, mudando de assunto, Dedal: eu nunca entendi o fato de você ter esse monte de furinhos se foi inventado justamente pra evitar os furos.

- É, acho que temos aí um paradoxo, Mata-Borrão.

- Chega de conversa mole, gente. Podemos, os três juntos, botar a cabeça pra funcionar e achar uma utilidade digna pra nós.

- O setor de brinquedos me parece um filão interessante. Brinquedo se compra por impulso, a meninada inferniza os pais até que eles entreguem os pontos. Como Mata-Borrão posso me transformar em gangorra para soldadinhos e índios de Forte Apache. E você, Dedal, pode virar copinho na mesas das casas de bonecas. O que acham?

- Péssimo, Mata-Borrão. Péssimo. Vai ver se a molecada de hoje brinca de Forte Apache, de gangorra e de casinha de boneca. Ficam direto na frente do computador, véio, se liga.

- Exatamente. Ficam batucando o dia inteiro no teclado, e o Dedal pode se arrumar aí. Poderemos lançá-lo com o pomposo nome de Protetor Articular para Digitação, prevenindo LER e tendinites diversas. Quanto a mim, saibam que minha despedida do mercado editorial será nos manuais que andam imprimindo agora, com a grafia antiga e a atual, depois da reforma. Tá certo que vou aparecer só na coluna da grafia velha, mas já é alguma coisa. A saideira, né...

- Você disse saideira, e me veio um insight redentor para o seu caso. É que saideira me lembrou bebida, que me lembrou Caninha 51, que me lembrou...

- Lembrou o quê, criatura?

- O trema permanece em Müller e em outros nomes próprios. O fabricante da Caninha 51 chama-se Companhia Müller de Bebidas. Pronto. Você será impresso nos rótulos de milhões de garrafas de pinga, e ainda vão te mandar pro mundo inteiro. Tá empregado, é só enviar seu currículo com foto recente pra verem que você é o trema mesmo.

- É... boa ideia (sem acento agudo).


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17 Janeiro, 2009

EM BRANCO


Só sei dizer que a carta veio parar na minha mão sem remetente nem destinatário. Mas estava, que diabos, na minha caixa de correspondência. Abri e encontrei três folhas sem nada escrito. Dei de ombros: não sabia de quem vinha, também não era para mim, que importava? Poderia ser um código de alguém para outro alguém, uma senha que significasse alguma coisa que só a ambos faria sentido. Mas por que na minha porta, se não era eu nem uma nem a outra parte interessada? Outra hipótese seria uma espécie de intervenção urbana, obra de teor filosófico e performático de algum artista underground, querendo dizer que nem tudo tem de ser de alguém para alguém e com algum propósito específico. Um manifesto pelo resgate do nada às nossas vidas, nesse mundo over de informação. Passei cola novamente no envelope e coloquei a carta na primeira caixa de correio que vi na rua.

Ao trabalho, ao trabalho. Três reuniões naquele dia, duas delas sem previsão de término nem de conclusão prática. Quando Daniel explicava os dezesseis gráficos de pizza no flip-chart, Letícia adentrou à sala e me entregou um envelope, branco como a maior parte dos envelopes, mas de uma alvura já minha conhecida. Não havia dúvida: era a mesma carta. De novo. Reconheci pelos sinais da recolagem e pela re-absurda falta de remetente e destinatário. Como, de volta para mim? Eu lá tenho cara de posta restante dos Correios e Telégrafos?

Roí as unhas e parte dos dedos, ansioso para o fim da reunião. Parti como um raio à sala de Letícia, para saber quem tinha entregue a carta a ela. Foi embora mais cedo. Indisposição. Joguei a carta no lixo, mas antes marquei com a caneta um x no canto inferior direito do envelope, na parte do remetente. Assim poderia identificá-la irrefutavelmente, caso o milagre voltasse a ocorrer.


E ocorreu. Findo o expediente, no caminho para o estacionamento algo me chamou a atenção. Na vitrine da loja de departamentos, a TV transmitia ao vivo o sorteio de uma promoção qualquer. Uma loira de pernas de fora retirou uma carta da montanha. Lá estava ela. A câmera deu um zoom no pequeno x do canto do envelope, como se quisesse mostrar a mim, e só a mim, que a coisa era mesmo indestrutível. Vi a mulher lendo e os lábios se mexendo, anunciando o nome do contemplado ao lado do auditor do concurso. O ruído do trânsito não me deixou ouvir o nome que só eu desconhecia, o mistério que só a mim parecia ser mistério.


Um drink para arrumar as ideias e adivinhar uma lógica para aquilo. O garçom me trouxe, junto com o segundo uísque, um envelope que a pessoa da mesa oito pediu para me entregar. Olho para a mesa oito. Ninguém. Só a carta, a mesmíssima, de novo no meu colo. Ok, eu a levaria para casa. Não dava mais para fugir um do outro. Guardei-a com cuidado dentro da Bíblia, no hall de entrada do apartamento. A página com o Salmo 91 estava em branco, assim como as outras. Na estante, os demais livros todos em branco. A agenda, ao lado do telefone, em branco. Os álbuns de retrato em branco. A certidão de nascimento e a identidade em branco. Então olhei pela janela e vi o néon com o nome da companhia de seguros ficando ininteligível. Percebi que as coisas escritas se extinguiam, sem função. Até mesmo os nomes nas folhas de cheques e as marcas nas portas dos refrigeradores. Me ocorreu que Letícia poderia estar morta e eu não ficaria sabendo, pois no dia seguinte os jornais provavelmente não trariam obituários. Nem qualquer outra notícia.


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10 Janeiro, 2009

VOYEUR


De novo a música recorrente, a de costume em ziguezague na cachola.

Você e seu rosto de quem só acalenta bons presságios, não deixa margem pra que se enxergue um primeiro anúncio de ruga, sua carne de pêssego se decompondo um dia é coisa sem cabimento. Afago uma outra chance de te ver no desaviso, sem que saiba que te espio entre lençóis, tão você mesma. É assim que gosto, devassar você no quarto. Você zapeia a TV e eu te zapeio aos centímentros, sem controle. Dias de vinho e rosas como os que tivemos e guardamos escondidos da razão, como se guarda borboleta ou selo raro, quando outra vez?


Detida para averiguações, algemada por mim. Vamos à reconstituição do crime que cometemos ao deixar que houvesse entre a gente distância e compostura em demasia, o trato cerimonioso que se impôs a contragosto. Retomemos o que foi, vestidos de nudez. Andiamo via, na asa dessa aragem que vem agora da janela.


E nesse assédio à intimidade alheia, que é impróprio chamar de alheia em se tratando de você, quero ficar até render-me pasmo e adormecer, pele na pele, mãos nas mãos. Discreto e insuspeito como um voyeur que faz bem feito o seu serviço, mas zeloso e sentinela, atento aos cães rondando a madrugada. Durma. E saiba que não quero para você só os sonhos que pediu a Deus, mas os que Deus pediria a Deus se houvesse um Deus acima dele.


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03 Janeiro, 2009

DO PAU OCO


Já não foi a primeira vez que a câmera de segurança da fábrica de santos e anjos de gesso flagrou o inspetor de controle de qualidade e uma loiraça gesseira, toda coberta de pó branco, fazendo o que estava no Gênesis em posição ainda não catalogada pelo Kama Sutra. Espionando diariamente os dois excomungados, em serões que se estendiam das seis e quinze da tarde às nove e tanto da noite, Genaro, do serviço terceirizado de circuito de TV, junta mais um flagrante ao gordo dossiê e aguarda o momento certo: a nomeação do inspetor a gerente, “pela conduta irrepreensível no exercício de suas funções”.

Mas Genaro estava longe de ser a única testemunha da sacrílega safadeza. Das estátuas, todas viram. Exceto 16 São Judas que ainda estavam sem os olhos.


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- Eu quero entrar pro ramo, Pai Zóim. Diz aí com quanto é que eu tenho que morrer pra abrir uma tenda com tudo nos conformes, daquelas de cair o queixo.

- Aí já começa mal, fio precisa entender que dinheiro vem sozinho, por merecimento. Não tem que correr atrás dele. Sejamos simples de coração...

- Que é, meu pai, tá com medo da concorrência? Sou pequeno, não nasci pra Pai Zóim...


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Temos em estoque e para pronta entrega ampla gama de bolas de cristal nos diâmetros de 9 a 25 polegadas, com ou sem efeitos luminosos, estrelas e luas holográficas, 100% transparentes e com mecanismo giratório discretamente acoplado debaixo da mesa do vidente. Funcionam com quatro pilhas, não inclusas. Mas tome cuidado para que os clientes não vejam o “Nadir Figueiredo” na base da bola, fatal indicativo de que a mesma não é exatamente de cristal.


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Cortamos um zero na mensalidade dos cursos por correspondência de numerologia: de 99,90 por 9,90, em 3 vezes de 3,30. É sua chance de começar o ano com o pé direito e muito dinheiro no bolso. Faça de 2009 o seu número de sorte.


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O que se observa é o que podemos chamar literalmente de círculo vicioso. O fabricante do baralho dissemina, querendo ou não, a maldição do jogo. Perdendo o que tinham e o que não tinham nas mesas de pano verde, os desesperados procuraram uma saída com as videntes do tarô, cujas cartas são fabricadas pelo mesma empresa do baralho. É ganho na diversão e no arrependimento. A coisa toma outro rumo nos tempos de bonança econômica. É quando pouca gente joga e consequentemente quase ninguém corre depois atrás do tarô. Aí o jeito é alocar o parque fabril à produção de baralhos de mico preto, para as raríssimas crianças que se dispõem a trocar o Playstation 3 por esse passatempo idiota.


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Se existe alguém que mereça respeito e medo nesse mundo, esse alguém é o dono da fábrica de patuás. Por maiores que sejam seus calotes, desvarios administrativos, apropriação indevida de verbas trabalhistas, ninguém quer correr o risco de uma maldição ou “coisa feita” em represália. E assim, entre falcatruas mil e respeito nenhum a quem quer que seja - funcionários, fornecedores, leis e poderes constituídos - , ele amplia mês a mês o volume produzido e diversifica o seu mix, que já inclui figas de madeira de reflorestamento e galhinhos de arruda cultivados em hortas hidropônicas.


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Novas seitas pululam descontroladamente, fora do alcance da razão e sobretudo do fisco em suas instâncias diversas. Com elas surgem inovações tecnológicas que jamais passaram pela cabeça de Matuzalém, Barnabé, Zebedeu e seus contemporâneos, como a maquininha coletora de donativos por transferência de titularidade, ou seja, basta que o fiel insira o cartão de crédito ou débito para assegurar em suaves parcelinhas o seu pedaço de céu.


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20 Dezembro, 2008

BOM PRINCÍPIO


Sou o seu leiturista de água. Você não me vê nunca eu nem bato na porta nem nada, mas eu leio direitinho o seu relójo uma vez por mês e sou amigão dos cachorro, trato tudo eles que nem gente. A caixinha de natal é o momento cristão e bem-vinda de coração e alem do mais ajuda na leitura certa o resto do ano. Data da próxima leitura e entrega do ano bom: dezessete do corrente, tenho o crachá pessa que eu mostro. Agradecido Zezão em ritimo de gingobel

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Não se confunda com outros que fazem passar-se por nós, os seus lixeiros de todos os dias inclusive feriado e finado. Por isso pedimos e meressemos o bom princípio. Somos os lejítimos Janelson, Totonho, Rudisson e Rixacleiderman (o popular Rixa). Se outros baterem, faça que não escuta e espere nós passar (lembramos que passaremos dia 23 de manhã como costume).

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Desejamos um feliz natal
E um ano novo muito agradável
São estes os sinceros votos

dos seus coletores de lixo reciclável


Não se esqueça do nosso bom princípio. Faremos a coleta amanhã.


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O senhor ja parou pra pensar, bem como sua(s) dignissima(s) família(s), como seria sua vida sem ver as oferta do supermercado e do varejão, pois é muito sem graça que seria sem os folheto que eu deixo na caixa de correspondença. Fico feliz com o presente vosso pode ser moeda.


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A boa notícia pra mim vai ser receber uma caixinha bem gorda. Conto com você do mesmo jeito que você conta comigo pra receber o seu jornal de todos dia.

Ari, o entregador

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Fui eu que cubri as féria do Ari, no mês 6 do corrente. Espero ganhar pelo menos o valor de um doze avo do tanto que você vai dar pra ele.
Esse é o desejo do Jonas, o entregador que vem no lugar do Ari nas féria e tamem quando ele bebe muito e não concegue levantar cedo.

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Sou o dono da gráfica rápida que fez os cartões. Espero que o ano que se inicia comece magnífico e termine espetacular e aproveitamos o ensejo para divulgar que o milheiro de cartão de visita está em promoção especial de 49,90 obrigado.

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13 Dezembro, 2008

"FELIZES PARA SEMPRE" UMA OVA!


O sujeito dá vida à gente, cria aquela história maravilhosa, diz que todos viveram felizes para sempre, põe um ponto final e se arranca. Nunca mais volta para ver o que aconteceu depois às suas indefesas criaturas, no mundo do faz-de-conta. Ora, quem põe filho no mundo tem responsabilidades a honrar. Como é que pode um autor se comprometer com a posteridade e colocar sua credibilidade em jogo, fadando seus personagens a um destino cor-de-rosa sem dar a eles meios para isso? Felizes para sempre, essa é boa...


Vejamos o drama do Prático, o porquinho precavido que construiu a casa de tijolos. Como o conto de fadas tinha que terminar logo, o suíno se viu forçado a correr com a obra e uma semana depois a casinha tinha infiltração, três grandes rachaduras que iam do chão ao teto e um fiscal da prefeitura todo dia batendo na porta, atormentando o proprietário por causa do Habite-se. Tão logo tomou conhecimento do infortúnio, o lobo voltou à casa e nem precisou soprar para que viesse abaixo. Em dois minutos já estava com os três leitões debaixo do braço. Pôs Cícero para engordar no chiqueiro, Heitor foi alocado nos afazeres domésticos da casa avarandada do malvado e Prático foi obrigado a travestir-se de veado e ganhar a vida com ofícios pouco familiares, entregando ao lobo todo o michê do dia. O curioso é que perante a opinião publica o lobo ainda posa de benfeitor, por ter tirado os porquinhos da indigência e dado a eles um abrigo digno. Dizem inclusive que fundou uma ONG, chamada “Lobo Bom”, que se dedica a difundir pelos reinos mais distantes os ideais da filantropia e da solidariedade.


Mas é preciso admitir que sorte pior teve a Cinderela. Antes que a tinta do original da história secasse sobre o pergaminho, começou o calvário da heroína. Horas após o suntuoso casório, quando o príncipe foi dar um cata na moça pra fazer neném, o salto do sapatinho de cristal esquerdo espatifou-se a caminho da cama, depois de patinar num resto de brigadeiro jogado ao chão por um convidado mais porco que Heitor, Prático e Cícero juntos. Além do cristal do sapato, quebrou-se também o fêmur da delicada Cinderela.


A forçada quarentena da moça, devido à cirurgia para colocação de 16 pinos na perna, obrigou o fogoso príncipe a aplacar os hormônios junto a um sem número de donzelas do reino. Sem sex-appeal aos olhos do marido, Cinderela passou a ajudar as faxineiras reais na varrição e no enceramento do salão de baile. Hoje faz doces para fora, com a abóbora que sobrou da carruagem. Tenta com seu advogado tornar sem efeito a autuação da vigilância sanitária, que após análise bacteriológica julgou a referida abóbora imprópria para consumo. Enquanto aguarda decisão judicial, diversifica sua produção com outras qualidades de doces. Só não aceita encomendas para brigadeiros, por motivos óbvios.


Estes são apenas dois exemplos, dentre muitos que poderia citar, da orfandade a que nós, personagens, estamos submetidos. Abrace, leitor amigo, a nossa causa. Não caia no conto de fadas!


Assinado,

O Patinho Feio, que voltou a ser feio após 14 gloriosos dias com jeitão de cisne.


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06 Dezembro, 2008

O MELHOR DA FESTA


É esperar por ela. Assim o velho ditado, assim Priscila deitada. Olha pela janela grande do quarto e vê um cinza chumbo empurrando no céu o carneiro de nuvens. Não demora e a chuva vai regar as bostas das vacas lá no morro, que gratas pelo frescor retribuirão com cogumelos a quem quiser colher, chapéus de sol que dariam cores e sons insuspeitos à festa de logo mais. Isso se Priscila fosse de se alucinar. Qualquer uma menos ela, aluna de internato, sem chance, nem vinho de missa conhecia. A uma mulher dessas bastaria uma taça de espumante leve para destravar um vagão de cismas e magoas. No caso dela a lucidez já era, a seco, a perda do juízo e o delírio extremo. Estava há meses a 220, trêmula. Mas a festa daria jeito nisso. A festa prometia e ela acreditava.


Busca Priscila a si mesma na cama. Não acha. Já tentou o Google? O que o Google não acha, não existe. Se o Google não achou Deus, Deus inexiste. Google talvez seja Deus, sendo Deus uma busca como muitos dizem. Se julga Priscila um mosaico de desenho incerto, definido a esmo, sem traçado prévio. Ao resto do mundo o merecido estrago, todas as maldições juntas do Antigo Testamento. Que a ira divina varresse tudo, poupando apenas deleites pequenos mas insubstituíveis, como tentar adivinhar o que teria de almoço ou espreguiçar em fronhas frescas pra espantar o mormaço.


Cadê os headphones? Ouvir música até perder-se em meditação profunda, talvez aquele movimento mais lento da Pastoral, iria bem hoje como nunca enquanto a hora não chega.


O que passou não volta por nada e será sempre muito melhor do que o que é. Sua mecha de cabelo adolescente, guardado no porta-jóias, será infinitamente mais sedosa e interessante que esse grisalho que chega dizendo que veio de vez, para o resto da vida. Mas deixa ele vir, nunca será um susto tão grande quanto o daquele dia em que teu pai, Priscila, te pegou fumando no quintal, lembra? Fumando pela curiosidade, não pelo vício ou por achar charmoso. Um cigarro é um corpo estranho no canto da tua boca sem malícia.


Ela ouve a água passar pelo latão da calha, misturada com a música do Roberto Carlos tocando no vizinho. Ele também vai à festa. Todos vão à festa. No quarto o cheiro de pastilha de eucalipto insiste. Gripe mal curada, quer estar inteira para logo mais.


O que sente agora, partindo do estômago até a lua mais próxima, é como um cordão de prata e néon azul, que Ludmila chamaria de perispírito. Agora é o exato instante em que o mormaço é vencido pela aragem do morro, que sem querer acabou trazendo o cardápio do almoço, agora não mais surpresa: omelete acebolado. Mas comerá só um pouco. À noite tem a festa.



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29 Novembro, 2008

CABINES DE NATAL


Naudisléia, cobradora de cabine de pedágio. Vandercleyson, porteiro de prédio. Namorados, falam pelo celular na noite de 24 de dezembro.


- Né mole não, amor. Todo mundo enchendo a cara, se entupindo de uva passa e eu aqui, plantado nessa cadeira com meu radinho. Luzinha de Natal pra mim é esse painel piscando com os número dos apartamento, compreende? E ainda tem que prestar atenção em tudo pra nada estragar a festa dos bacana.


- E eu não sei, Vandercleyson? Cê ainda tem o rádio pra escutar, aqui nem isso eles deixa. Nós rala e o povo se mandando pra praia, com os porta-mala cheio de malancia e peru.


- Daqui a pouco, que nem igualzinho todo ano, um ou outro desce com um panetone na mão, aquele seco e sem gosto que ninguém quis, que sobrou da cesta da firma, pra me entregar com um vinho bem sem-vergonha. A Dona Letícia do 67 até uns ano pra trás mandava um pratinho com umas fatia de tender, coberto com papel toalha. Das vez vinha também pudim de noz, empada de massa podre. Mas agora faleceu-se, a coitada. Nesses dia aqui no prédio fica tudo eles bonzinho, rindo e desejando boas festa. Daqui um tempo começa a chegar os carnê do IPTU e vira tudo bicho de novo. Ninguém olha mais na cara, até vim o Natal outra vez.


- Ah meu nego, liga não. Mudando de assunto, eu acho memo é que a gente anda muito precisado de um diazinho de xamego e vadiação. Só nós dois, pensou? Aí depois eu ainda fazia um macarrão caprichento... Seu recibo, moço. Boa viagem.


- Sabe, amor, aqui tá tocando aquela música que fala “Pobrezinho, nasceu em Belém”, ói só que mundo pequeno, Naudisléia, o Menino Jesus também é lá de Belém do Pará... vai ver a minha mãe até conhece a família.


- Peraí que eu não tô te escutando, caminhão barulhento demais, sô. Fala mais alto, mor... É sete e quarenta, moço... tem quarenta centavos, pra facilitar o troco?


- O quê?


- Não, tô falando com o motorista pra vê se tem moeda. Pronto, continua, bem.


- Tava falando do Cristo, conterrâneo nosso...


- Não tô entendendo patavina.


- Quer que fala mais alto, é?


- Não, essa história de conterrâneo eu não entendi nadica.


- Deixa pra lá. Até que hora vai o serviço aí no pedágio?


- O ônibus vem pegar nóis às duas e meia da manhã, aí já vem a moça do outro turno. Daí só pego de novo dia 26 às dezoito e trinta.


- Naudisléia, espera um pouco, güenta aí que eu tô falando com o doutor do 43 aqui no interfone. Então, doutor, tem um pacote embrulhado pra presente que deixaram aqui na portaria pro senhor. Ahn... ah, não sei o que é, não senhor. Chegou faz uns par de hora viu, um crioulinho de motocicleta que veio trazer. Sei... tá certo, depois o senhor pega aqui comigo.


- Mas esse interfone não pára, heim?


- Então, Léia, eu fico pensando na vida injusta que a gente veve. Como é que você, vendo tanto carro passar o dia inteiro na tua frente, tem que andar de ônibus, eu queria entender essas coisa que o homem lá de cima deixa acontecer, mesmo em noite de Natal, que é aniversário dele. Podia dar um refresco só hoje, que era bem merecido, né não?


(Campainha)


- Ô meu Deus, outra entrega... um instantinho, Naudisléia. Alô, Seu Afrânio? Tem encomenda aqui de leitão, dois cupim e mais uns saquinho de farofa com miúdo, pode mandar subir? Ah, e veio junto uma pet daquelas de 2 litro e meio de guaraná. O quê? O pisca? Ah, então, deixa eu explicar pro senhor. É que o síndico falou assim que é pra eu desligar os pisca tudinho depois da meia-noite, pra não gastar muita força, compreende? Qualquer coisa o senhor fala com ele. Ô Léia, tá me escutando? O que eu ia te dizer é que eu acho que cê tá trabalhando demais, moreco. Doze hora e meia sem descanso, cheirando esse óleo dísio... eles abusa demais docê. Tá certo que o sirviço aqui no prédio não é nenhuma maravilha, mas pelo menos não estrago com a saúde, compreende? Ih, olha só, tem um Papai Noel dos gordo aqui na frente da guarita falando hohoho e dizendo que vai distribuir bala. Cada figura... não, quê isso Papai Noel, vira esse negócio pra lá, calma... ai... ai... Naudisléia, me vinga... Naudisléia, dá o troco!


- Seu troco, moço.


- Fica pra você, querida, caixinha de Natal.


- Ô, coisa boa. Brigado. Vai com Deus e boas festa.


- Então, Vandercleyson... Vandercleyson... fala comigo...



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22 Novembro, 2008

RECANTO DA PAZ


Antes de mais nada, é nosso dever informar que vocês não estão num Hotel Fazenda, como o nome pode supor aos distraídos ou àqueles mais apegados às fraquezas da carne. Apurem os sentidos e perceberão que não há boi algum mugindo, nem sabiá cantando, nem cheiro de torresmo pururuca frito no fogão de lenha. Saibam os senhores e senhoras que se encontram no paraíso, passaram de onde estavam para melhor e é bom que aceitem logo isso para que seu processo de adaptação seja menos traumático. Nossos enfermeiros e assistentes sociais não agüentam mais repetir a mesma história para cada um que chega aqui. Portanto, queimemos etapas: vocês bateram as botas, isso é um fato.


Embora a população na crosta terrestre cresça exponencialmente e já esteja na casa dos 6 bilhões, no cômputo geral há muito mais mortos que vivos. E é um reconfortante consolo lembrar que os seres humanos mais interessantes são aqueles que já estão por estas bandas – os grandes gênios, os maiores heróis nacionais, ídolos de bandeiras ideológicas variadas, entes queridos, amigos e colegas que deixaram saudades. E quem ficou lá embaixo, não demora muito e vem para cá também. É só uma questão de tempo. Eternamente falando, de pouquíssimo tempo.


Aos suicidas, lamentamos o inconveniente de decepcioná-los. Existe vida após seu ato extremo, e não há nada que vocês possam fazer para reverter essa situação. O inconformismo diante de sua nova realidade não levará a nada, não adianta se jogar pela janela de seus aposentos celestiais. O máximo que pode acontecer é vocês voltarem para cá e recomeçarem a leitura deste quadro de avisos.


Tentativas de amotinamento e de retorno ao vale de lágrimas de onde vieram serão imediatamente sufocadas pelos superiores de sua ala. Amantes de sexo, drogas e rock and roll serão gentilmente forçados a se adaptarem à castidade, à abstinência e às harpas e corais de querubins, que só lhes farão bem ao espírito – lembrando que o espírito é a única coisa que lhes resta.


A enorme legião de beatlemaníacos poderá deliciar-se com shows diários de George Harrison e John Lennon em nossa praça principal. Solicitamos aos mesmos um pouquinho de paciência até que a banda se complete. O que ocorrerá em breve, pois Paul Mc Cartney está com 66 e Ringo Starr fez 68. Considerando que os dois vivam até os 100, dentro de pouco mais de 30 anos o slogan “Beatles Forever” deixará de ser uma utopia. O mesmo se aplica aos fanáticos pelos Rolling Stones, que a despeito de sua língua de fora e sua simpatia pelo coisa-ruim, farão turnê por aqui logo logo, reintegrando finalmente o Brian Jones ao conjunto – nosso hóspede desde 1969.


Orações por intenção de suas respectivas almas serão detectadas por nossas estações de captação vibratória e enviadas em tempo real para seus fones de ouvido, cujo controle de volume, graves e agudos encontra-se na parte interna da asa esquerda dos senhores. Já as orações-spam (aquelas genéricas, formuladas indistintamente para o bem de todas as almas) não serão enviadas, por serem muitas e perturbarem o descanso eterno de que são merecedores.


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15 Novembro, 2008

SIX O'CLOCK


Eu poderia começar dizendo que o sol do horário de verão britânico entrava coado pelos vitrais da Abadia para pousar solene na tumba da Rainha Mary II. E assim o faço, por mais romanticamente descritivo que seja. O spalla da Orquestra Filarmônica Real repete outra vez a passagem mais difícil do concerto, aquilo definitivamente não fora escrito para amadores.


Na seiscentista monarquia, quantas vezes a Mary infante teria atravessado a nave do templo, para mais tarde casar-se, coroar-se e entrar pela derradeira vez no monumento gótico, aos 32, num suntuoso ataúde. Em outra ala, no Poet’s Corner, Dickens vara o tempo em sono eterno, possivelmente escoltado pelo avarento Ebenezer Scrooge e seus fantasmas. O eco do andar de um Beefeather vem trazê-lo de volta ao violino. Então empenha toda a alma num vibrato, pensando no tio-avô que definha não muito longe dali. Talvez fosse seu último Natal. Apesar do rosto pouco vincado, da mão forte de veias saltadas, da voz rouca ao pedir para passar o pão à mesa envolta em aromas de velas e sopas, tudo indicava que não tornaria a ver os fogos de artifício anunciarem o Ano Novo sobre o Tâmisa.


“Mantenha o violino afastado do sol, pois o calor faz a madeira rachar ou descolar”. O conselho do velho mestre dos tempos de conservatório ia e voltava em sua mente como o hipnótico tema do Adagio. Soa a última nota, em uníssono com o violoncelo de Edwin. Westminster é muda, pode-se ouvir o pousar da mosca entre duas teclas do órgão de tubos. É muda e assustadoramente triste a Abadia àquela hora, que os católicos chamam de Ave Maria.


Suas orelhas eram grandes, demasiado grandes para não serem notadas e odiadas por Anne Elisabeth. Ela jamais se interessaria por um orelhudo de dentes tortos. Turistas e mais turistas, às levas. Estrangeiros que já viram tudo na cidade e aparecem por ali nessa tarde quase noite, para roubar a concentração do ensaio disparando seus flashes, mesmo sendo proibido. Façam o sightseeing bem longe, comam fish and chips, corram afoitos com seus mapas para a roda gigante ou o Palácio de Buckingham, longe da real e absoluta treva que vem vindo, a treva só plenamente compreendida pelos súditos nativos da rainha. Eles são de Massachusetts, Iowa e Connecticut, seguem deixando cascas de amendoim sobre os restos mortais de quem ergueu a Londres mais sublime, posando no sarcófago de Newton como quem tira fotos com o Pateta e o Pato Donald. Dobrem o valor do ingresso, please, quem sabe assim cai pela metade o número dos abutres.


Em pizzicato dançam seus dedos e seus medos, na forma de mínimos elfos. Ele vê nas quatro cordas os quatro inconfessáveis sonhos desfeitos, os quatro planos futuros forçosamente adiados e as quatro vezes, só na última meia hora, em que bendisse mentalmente a névoa, os tijolos à vista, a hipoteca paga em dia e a velha e boa xícara de chá a lhe esperar de madrugada em Notting Hill.


Apesar do adiantado da hora, voltou à pé para o apartamento, repassando mentalmente o trecho massacrante da partitura e imaginando o interior do chalé que alugou em Greenwich para ocupar sozinho no fim de semana. Com uma plástica nas orelhas, quem sabe da próxima vez conseguisse levar Anne Elisabeth consigo.


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08 Novembro, 2008

EM DEFESA DE UM ADMINISTRADOR INJURIADO


Creiam-me: José Denárdio da Figueira Paranhos é inocente. A acusação maldosa de que tem sido vítima explica-se pela indisfarçável inveja de seus adversários, em face do que fez e ainda fará por nossa terra.

Imputam-lhe como crime a compra de 2,5 toneladas de canjica sem licitação. Ora, senhores, não estamos falando de concorrência pública para aquisição de mísseis, turbinas para hidrelétricas, cápsulas espaciais e outros itens de pouca importância e custo unitário irrisório, tão irrisório que a própria sociedade se envergonharia em investigar os meandros de compra. Falamos de canjica e seus essenciais derivados, e do caos que poderia advir com sua escassez. Daí ser plenamente justificada, neste caso, a dispensa de licitação, até porque um único fornecedor demonstrou suficiente competência técnica no manejo e distribuição do insumo precioso aos entrepostos públicos.

E como é precioso. Dentre miríades de aplicações cotidianas, podemos citar a farinha de canjica enriquecida com ferro, vitaminas e ácidos graxos, comprovadamente mais eficaz que o óleo de fígado de bacalhau no combate às hipovitaminoses A e D. A canjica em flocos, processada, embalada e distribuída simultaneamente pela Canjesp, Canjerj, Canjemg, Canjesc e Canjenorte às escolas de suas respectivas redes de ensino, com ação clinicamente demonstrada no incremento da memorização de números de telefone, incluindo DDD e independente do prefixo da operadora. (E aqui abro um parêntese para louvar a canjica como instrumento de integração nacional e de desenvolvimento de nossas telecomunicações).

Continuando, citemos a canjica em pasta, que utilizada em conjunto com a fécula de mandioca gera poderoso grude para colagem de pipas, papagaios, pandorgas, maranhões e outras incontáveis denominações popularmente atribuídas a esse artefato tão estimado pela gurizada. Temos ainda a canjica moída e desmembrada em suas moléculas e átomos, recentemente aprovada pelo Ministério dos Esportes para utilização como antiderrapante em barras assimétricas. E, logicamente, a canjica in natura, largamente empregada como substituta do feijão para marcar os números sorteados nas cartelas dos bingos devidamente regularizados.

Tão rica é em possibilidades esta nossa glória verde e amarela que nada menos de 14 laboratórios farmacêuticos multinacionais pelejam junto à OMS a quebra de sua patente, argüindo como justificativa os bilhões de potenciais beneficiados ao redor do globo com seu manancial de utilizações farmacológicas – incluindo-se aí um revolucionário tônico para calvície e um regularizador de disfunção erétil capaz de deixar o azulzinho Viagra vermelho de vergonha.

Tecidas estas considerações, destaco também em defesa de José Denárdio seus inequívocos sinais exteriores de pobreza, ou de empobrecimento lícito, como a posse de um tupperware rachado e colado com durex e a constatação de um taco solto em sua sala de estar, com um volante da loteria esportiva de 1973 servindo de rejunte provisório – ou permanente, pela longa data da gambiarra. A única, aliás, que o incorruptível caráter do acusado poderia conceber. Coragem, José Denárdio, mantenha a cabeça erguida. A história lhe fará justiça.


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01 Novembro, 2008

ENQUANTO ISSO


Secos & Molhados, utensílios domésticos, gêneros de primeira necessidade: bacalhau salgado com alhos em réstia, cereja ao licor na tina a granel, queijo curado de casca suja e muito grossa, fumo de corda e querosene. George Bush, no fim do mandato e há 3 dias sem dormir, quer reunir os líderes mundiais para criar nova ordem econômica. As dezoito luas de Saturno seguem em silente e imperturbável órbita, nem aí para a irmã menorzinha do sistema solar. O dono da venda faz com o dedo garranchos no nada, farto da lida, da vida e da Cida, a patroa. O cão malhado e sem raça, na porta do armazém, gira em círculos tentando pegar o rabo. No autódromo, o escudo da Ferrari está pelando ao sol do meio dia e meia. Na mansão da Galícia o casal fogoso parte para a segunda, após vinte e cinco minutos de descanso do embate inicial. Nada azucrina a paz do pombal na Quinta das Sequóias, em Sintra. O cão dá trégua ao próprio rabo com o ploft da viúva Ângela ao pisar na poça. O relógio de Bush pára, ser insone no salão oval. Pensa que o antecessor, ali, se divertia muito mais. Sem atentados, sem Osama e sem Obama. “Vende-se esta venda”, vou pregar cartaz na porta, não há viva alma a precisar de nada. Saturno e suas luas prosseguem, sem noção da sua parte no equilíbrio do universo. Alguém da criadagem abre o trinco do pombal. Alguém da escuderia dá partida ao F1 para a volta de qualificação. Alguém será gestado na cópula da Galícia. Alguém alisará o pêlo castigado do cãozinho. Alguém tirará Bush de seu sinistro devaneio, com más novas. Alguém pedirá uma pinga no balcão, fiando como de hábito. Ninguém poderá fazer nada para que as luas de Saturno ensaiem um bailado novo.


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Foto: Nasa



25 Outubro, 2008

SALVEM OS ÍMÃS DE GELADEIRA!


A atual crise econômica em que todos nós terráqueos estamos metidos não vem deixando pedra sobre pedra. Até mesmo setores historicamente imunes às oscilações monetárias e blindados contra o vacilante humor de Wall Street andam combalidos, à cata de uma solução messiânica que os façam sair do buraco. É o caso do pujante comércio de rapé, commodity cujo preço mínimo internacional caiu a níveis aviltantes, forçando os produtores da região de Barra do Garça, considerado o Vale do Rapé, a trocarem seu cultivo pelo do alpiste.


A indústria de conta-gotas é outra duramente atingida pelo tsunami econômico. Fábricas de renome, algumas com mais de 122 anos e meio no mercado, vêm adaptando seu maquinário e utilizando sua capacidade ociosa para a produção de carimbos de bichinhos e capas de banco de bicicleta com estampas de times de futebol.


E que dizer do nosso parque industrial de benjamins, também conhecidos como “Tês”, dependendo da região em que são comercializados? O desalento beira o caos. No último dia 23, a cotação do produto nas bolsas de São Paulo e do Rio variava entre R$ 1,94 e R$ 2,26, fechando a R$ 2,15 e perdendo definitivamente a paridade com o dólar, mantida intacta há décadas. A mercadoria era tão firme na bolsa que os operadores do pregão apelidavam sua cotação de “dólar-Tê”, servindo inclusive como indexador de contratos.


As lojas de armarinhos também aos poucos vão se adaptando ao novo quadro, acrescentando ao seu já extenso mix de quinquilharias os próprios armarinhos, que sempre deram nome às lojas desse gênero mas que estranhamente nunca foram comercializados por elas. Juarez Afrânio Ling, dirigente lojista, explica: “Estamos focando no nosso negócio principal, a nossa vocação verdadeira: o armarinho. Com puxadores de metal, de madeira, com gavetas e divisões internas, mas sempre armarinho. É um nicho de mercado altamente promissor, a que estávamos desatentos em face da diversificação crescente em nosso segmento. Eu diria que é uma volta às origens”.


Na esteira da desgraça, os fast-foods reclamam de barriga vazia. Uma das maiores redes do país teve que cortar na carne e eliminou o hambúrguer do cheese-salada, mantendo apenas o cheese e a salada. Uma saída criativa e honesta para a crise, já que o produto, ainda que diminuído, oferece ao consumidor exatamente o que promete.


Ruim para produtos, pior para serviços. Desde o estopim da turbulência, os pontos de charrete estão às moscas, e nada parece reverter essa tendência a médio prazo. A majoração do feno e da alfafa no mercado internacional ainda não chegou ao consumidor, que por sua vez vem migrando para a carroça e o metrô como alternativas de transporte.


O serviço de carpideiras vem sendo particularmente muito penalizado. Quase todas choram dolorosas perdas. Laurentina Benite Lemos, presidente do sindicato da categoria, desabafa: “É um paradoxo. Nunca choramos tanto, contudo não estamos ganhando mais com isso. Alguém pode me explicar essa situação?”


Num catastrófico efeito dominó, a quebradeira ameaça os mordedores pediátricos, a macaúba em coco e em gosma, as lixas de unha, os dadinhos de amendoim, as tampas de pia, os alfinetes de cabecinha, as cantoneiras de fotografia, as lousas verdes e negras e mais uma infinidade de gêneros vitais ao dia-a-dia do brasileiro. Oremos para que ao menos os ímãs de geladeira escapem ilesos desse furacão. Oremos!



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18 Outubro, 2008

LA GRAN MANSIÓN DE LOS ASOMBROS


- Baita sustos, brasileños, entrem cá. Garantizo baita sustos e también leio sus manos... dos servicios en una sola casa... la gran mansión de los asombros, entrem cá! Grupos ganham empanadas al final de la sesión, aproveitem.

Valha-me Dios, como está fraco o movimiento hoy.
Es triste ninguém querer ser assustado ou tener las manos lidas, antes las personas deixavam-se seducir fácil por atraciones así. E mira que cobro um pesito de nada, valha-me Dios. Mas pensando bien, Gersina, se estivesse aqui a passeo ia gastar su plata nesse programa estúpido? Dicem que en Brasil são más comuns os trens fantasmas e La Monga, um juego de espelhos que cambia mulher em gorila. Se um desses brasileños me levasse embora, ia vivir virando Monga de quermesse em quermesse, en la provincia de San Pablo, Minas Generales, quien sabe Marañon. Dá para entrar trinta de una vez para testemunhar la espectacular transformación. A cinqüenta centavos por persona, quanto dinero iria juntar no fim do mês?

Ih, lá vem a vagabunda dançarina del tango a encojar otro hombre acompanhado e tirar foto de recuerdo de Caminito. Está é deseosa de levar unos tabefes da esposa del bofe, com essas piernas e más alguna cosa de fora. A encoxada é certa, incerto es la plata pela dançadinha con el turista e pelo retrato. Entre não ganar nada lá e aqui, prefiro ficar aqui mismo. Mira, que tonto esse hombre agora. Parece borracho. Dejó cair metade do alfajor com o encontrón que o Rey de los Cueros deu nele, já empurrando o coitadito adentro da loja. Cuero, ainda vá lá. Mas salir carregado de traquitanas de Gardel y postales del Obelisco, ora por favor. Tonterias...

Que venga um hombre rico, em terno verde de dólares, querer um susto caprichado o um destino encantado en las cartas dessa vieja decadente. Venga, brasileño abonado, com sus niños, sentir o frio en la espinha com los objetos que se movem misteriosamente, os ojos de los retratos que acompanham los visitantes. Es la última mansión de los asombros que se preza, em toda a Capital Federal. Temos aqui la exclusiva Evita que se levanta del ataúd e faz um playback bonito de “Don’t cry for me, Argentina”. Está frío e o aluguel es caro, el gobierno manipula a inflación, há desvalidos de Mendoza dormindo debajo das colunas do Banco de la Nación, vivendo de vino barato e pão amanhecido. Donde está la gloriosa Argentina? Solamente en los antiquários de Santelmo? No, no, soy contra esse estado de cosas.

Precisam de balconista em una libreria na Corrientes, vi num clasificado del Clarin de ontem. Em meio a libros, mejor que manos lidas e sustos que no atemorizam nem perros desmamados. Bastam los sustos reales de la vida, quem há de querer más, sustos forjados no tienen efecto.

Si, puedo vê-la agora, Evita, não chorando por la pátria, mas por mi miséria, compadecida. Evita de verdad, musa del pueblo. No la falsa Evita, essa do ataúd de la mansión de los asombros, pero la redentora, la verdadera. E te levaria à Recoleta de hoy, donde dormes há décadas. E después te entregaria a Perón, defunto ressurgido, en la catedral metropolitana, para nuevas e eternas núpcias. Perdona mi portuñol casi incompreensível, é de tanto hablar con brasileños, são casi tantos quantos los argentinos por Montserrat y Palermo, batendo piernas por Cale Florida, os más espertos e os que são ludibriados, comprando casacos y carnes do Rio Grande del Sur pensando serem de cá. Valha-me Dios! Entonces la gran mansión de los asombros resistirá, como resistem las madres de mayo. Como resiste tu e tus encantos, na gloriosa Argentina, que chora até hoy por ti.

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11 Outubro, 2008

ARQUIVO MORTO


Provavelmente as imagens eram de um feriado prolongado, mas não estava bem certo. A impressão que dava é que tinham passado uma borracha ou um ferro de roupa em cima das cenas. Corpos e vozes distorcidos ao irreconhecível. Minha mãe com voz do meu pai e vice-versa. Minha filha, com seus quatro anos e morrendo de medo de bicho-papão, falava como um deles enquanto brincava com um Lango-Lango verde e outro abóbora. A reunião de família estava mais para um parque de diversões com aqueles espelhos que deformam gente. Tinha feito a gravação e guardado, nunca mais reproduzi. Vai ver a falta de uso fez tudo aquilo.

Do not touch this tape inside. Desobedeci a recomendação e abri o compartimento, pra ver se salvava o estrago. Rebobinei, depois dei avanço rápido, coloquei na parte do meio da gravação, talvez mais pra frente houvesse algum registro preservado. Mensagem de ajuste de tracking. As cores sumidas, faixas de chuvisco no meio da tela. Mal dava pra ler no rodapé a data: Maio, 14, 1992.

Arrumei emprestado um outro videocassete, quem sabe as cabeças do meu estivessem sujas. Nada que atenuasse o irreparável. Resolvi transferir a ruína remanescente, no estado em que se encontrava, para DVD. Algo assistível tinha de restar. O gravador de DVD não aceitava, com a mensagem “Vídeo instável. Gravação pausada”.

Se passado, presente e futuro são dimensões que existem simultaneamente, aquela fita estava ao mesmo tempo na loja esperando ser comprada, sendo desvirginada pela filmadora e já em forma de sucata num lixão de 2030. Eu também, enquanto pensava nisso, estava nascendo e morto há séculos. Deixei quieto. Não há leite derramado.


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04 Outubro, 2008

A QUEM INTERESSAR POSSA


O plano de saúde Uniduni faz saber a todos os seus associados que suspendeu a cobertura a transtornos digestivos de usuários que praticam regularmente a caça ao pato de pena rajadinha, e que porventura venham a digeri-la como refeição – seja o seu preparo frito, cozido ou assado, ao molho pardo e a passarinho. É por demais sabido que a carne do referido animal, arroxeada e de odor próximo ao da lontra nórdica, costuma atacar enzimas pancreáticas vitais ao processo de síntese proteica, acarretando cólicas incontroláveis. Além disso, a assessoria de imprensa da empresa argumenta que os adeptos dessa prática incorrem em ato ambientalmente condenável, portanto passível de julgamento e punição pelas esferas competentes, salvo nos meses em que a caça ao pato de pena rajadinha é permitida e regulamentada pelas normas dos nossos bosques e parques florestais. Na ocasião, o plano Uniduni comunicou oficialmente o lançamento do produto Salamê Mingüê, modalidade de assistência médica criada especialmente para a faixa etária de 0 a 4,8 anos.

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A fábrica de encordoamentos de nylon para bandolim “Irmão & Irmão” esclarece que o recall a que procedeu recentemente teve sua validade estendida até junho do próximo ano, devido ao fato de apenas 37,6% dos compradores dos lotes danificados terem procurado o Serviço de Atendimento ao Cliente para efetuar a troca do produto. O recall se deu após os laboratórios da empresa detectarem, em testes de resistência e fadiga de matéria-prima, um defeito de fabricação na corda Mi, que poderia provocar calejamento precoce nos dedos indicadores esquerdos dos bandolinistas. Em sendo o bandolinista também médico urologista, o defeito apontado causaria ainda perda de sensibilidade do dedo na execução de exames de toque, gerando falsos resultados positivos e negativos nas investigações de anomalias malignas na próstata de seus respectivos pacientes.

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“Não há motivo para pânico”. Assim reagiu o diretor para assuntos comunitários da Prefeitura ao ser indagado sobre as manifestações populares decorrentes da súbita mudança do fornecedor de saquinhos de balas da bombonière do nosso glorioso Teatro Municipal. O alvoroço se deu após um grupo de freqüentadores daquela casa de cultura se dirigir até a redação do nosso jornal para um protesto, onde em uníssono alegavam que a troca de fornecedor – ocorrida sem concorrência pública – ocasionou um nível de decibéis acima do costumeiro, quando da manipulação dos saquinhos de guloseimas pelos espectadores, o que prejudicaria seriamente o entendimento dos diálogos travados pelos atores no palco. Um dos cidadãos presentes acrescentou que o problema não se restringia aos diálogos, mas também – e sobretudo – aos monólogos. Após a denúncia à imprensa, o grupo, munido de faixas, partiu para um amassamento coletivo de saquinhos à frente da residência do secretário municipal de cultura, que com o barulho ensurdecedor não conseguiu mais conciliar sono. “A um bom administrador não pode faltar a coragem de admitir o erro e voltar atrás”, concluiu a insone autoridade, prometendo à reportagem d’A Notícia firmar novo contrato de fornecimento com o antigo fornecedor, denominado Papelucho Artigos de Papel e Papelão ME.

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27 Setembro, 2008

NÃO SE PERCA DE MIM, NÃO DESAPAREÇA


Naqueles idos, diziam que a cerveja subia mais rápido se tomada no gargalo. Coisa estranha, de que jeito se a cerveja era a mesma, no copo ou na garrafa? Gargalo não era vara de condão. Via o baile lá de cima, no último lance da arquibancada do ginásio. Preferia assistir, só ia pro meio da bagunça quando Momo fazia o cerco, brandia o cetro e exigia rendição.

Te quero às pressas, mas com luz forte e quente iluminando o espetáculo. Ver é bom, a dança a dois e às claras é bem melhor que o baile e suas máscaras, suas mesas reservadas, seus pais zelosos com as filhas em flor. Nada de joguinhos de sedução mal resolvidos, a vida é curta pra ficar dando a entender. Insinuação tem hora, e a hora é de saciedade. Reparar e curtir os defeitinhos do corpo revelados de manso, isso sim pode ser, mulher gosta dessas coisas. Mas só se for depois do crescei e multiplicai-vos. Saiamos do clube assim, jogando a roupa fora, afoitos para a luta corporal. Não temos retoque, somos tais e quais e isso é benção, a única maquiagem é um discreto contorno de lápis deixando seus olhos mais lindos pro mundo. Como se precisasse.

E tudo seria se você houvesse, mas você não havia. Não havia você nem baile a dois, só aquela horda de suados se acotovelando lá embaixo. Tão longe do ilusório onde você mandava e desmandava, tomada de empréstimo dos seres imaginários. Eu não só te dava forma mas compunha teu futuro. Acontecia de te fazer mãe de um monte de crianças minhas, como se a vida conjugal fosse o destino inescapável, sepultando a carne na rotina dos carnês. Casal de meia idade na matinê da província, levando os meninos de pirata e colombina, você trocando receita com a comadre Rose. Que tacanho.

O bloco dos monges sacanas, cordão berrando as marchinhas, em punho os lenços de lança. Você entra no banheiro das damas com uma amiga, quem sabe a futura comadre Rose. Então me enxerguei compadre do marido dela, que nem tenho idéia de quem poderá ser. Esgano com a serpentina essa possibilidade. Mais um trago de cerveja no gargalo.
Pode ser que você volte do banheiro, a maquiagem retocada e resolvida a me sufocar com um beijo e me oxigenar de vida, dando corda a esse improvável filme B de nós dois na minha cabeça. Como também pode ser que no caminho aqui pra arquibancada já tenha flertado com outro, e nesse outro projetado seus melhores e próximos anos, me deixando aqui até que surja uma odalisca que ninguém quis, implorando o calor que era pra você.
Há de sentar-se ao meu lado, o tule da fantasia roçando meu braço esquerdo. E perguntará por que eu tomo cerveja no gargalo, se existe copo pra isso.

Um frevo emendou na marchinha e me trouxe de volta, um pouco mais convicto de que tem mesmo alguém na supervisão lá em cima, ainda que manipulando a esmo as cordas dos marionetes, encontrando e desencontrando gente do jeito que der na telha.
Não digo que seja um deus, mas alguém acima da raça dos suados que se acotovelam. E que a uma hora dessas pode muito bem estar tomando cerveja no gargalo e dando nós nos fios que nos governam.



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20 Setembro, 2008

AA - ANÔNIMOS ANÔNIMOS


- Central de atendimento do AA – Anônimos Anônimos, boa tarde. Com quem eu falo?
- Pergunta besta. É lógico que não vou dizer.
- Ah, é um dos nossos. Qual o problema, alguma recaída?
- Claro. Por que acha que estou ligando? Pra ficar falando de mim, que eu sou o máximo, que eu faço e aconteço? Se telefonasse pra isso seria um indício de cura, e conseqüentemente não precisaria ligar para o plantão. Na verdade, não é bem uma recaída. É uma reclamação.
- Ok, senhor. Pode falar.
- Vou falar, mas o mínimo necessário. O suficiente pra que você me entenda e aconselhe. Na última reunião do AA vocês vieram com uma conversa que eu tinha de passar por uma prova de fogo: tirar minha carteira de identidade. Bom, num esforço sobre-humano, saí pra providenciar. Aí o sujeito lá do Poupatempo apareceu com um formulário que era um verdadeiro inquérito pra cima de mim. Queria saber meu nome, endereço, local de nascimento, disse que precisava tirar foto... imagina o absurdo, tirar fotografia! Depois de 54 anos incógnito.
- Mas o senhor tem 54 anos e até hoje não tem identidade?
- Meu anonimatismo é severo, grau 5 – quase 6, minha filha.
- Sim... prossiga, estou anotando.
- Anotando? Anotando o quê? Exijo que rasgue imediatamente seus apontamentos. Se alguém lê pode identificar o problema relatado com a minha pessoa, e aí eu me torno conhecido. Respeite meu direito ao anonimato. Não se esqueça que essa regra consta no código de ética dos Anônimos Anônimos.
- De fato, senhor. Desculpe a indiscrição.
- É bom que me respeite mesmo. Meu avô foi um Sicrano inveterado, meu pai foi um Beltrano de marca maior e eu sou um Fulano com F maiúsculo. Três gerações de gente que graças a Deus passou despercebida por este mundo de pessoas que só querem aparecer. Uma célebre dinastia de desconhecidos, da qual nunca ninguém há de ouvir falar.
- Tudo bem, Sr. Fulano. Pode continuar contando o seu problema.
- Alto lá. Um anônimo que se preza não conta coisa nenhuma a quem quer que seja, ainda que a senhorita seja também uma anônima para mim. Sabe como é, as paredes têm ouvidos, os telefones têm grampos e há poucos lugares no planeta não esquadrinhados por uma câmera de segurança. Talvez estejamos ambos, no momento, sendo vigiados por um terceiro. Quem sabe um quarto, quiçá um quinto... só de falar já me apavoro.
- Mas senhor, é preciso convir que anonimato tem limite.
- Limite? Só se for pra você. O anonimato é a liberdade extrema, é justamente a ausência de limite. Ninguém me cobra nada – nem deveres, nem favores, nem prazos, nem satisfação de coisa nenhuma.
- Mas o senhor não tem amigos, não trabalha?
- Trabalho numa Sociedade Anônima. Não tenho a menor idéia de quais são os meus sócios e tudo vai muito bem assim, do jeito que está. Até pouco tempo atrás só aparecia lá na empresa pra assinar o pró-labore. Ia disfarçado de mulher, mas desconfiei que estavam me reconhecendo. Agora arrumei um testa-de-ferro que cuida de tudo, se passando por mim para que eu continue passando em brancas nuvens. Igualzinho o cara que assina este texto. Pra quem não sabe, ele não existe. É pseudônimo.


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13 Setembro, 2008

DA SÉRIE "REENCONTROS"


Adolescente come tudo o que vê pela frente. E entenda-se no caso o verbo “comer” em acepções variadas, como se pode supor em sendo o adolescente macho e naquele cafundó onde nada faltava, menos o que fazer. Não tendo o que degustar em carne e osso de imediato, ele ligou o aparelho com o bico do bamba branco. Aliás, bamba só tinha branco, pelo menos nas melhores casas do ramo por ali, num ano perdido que é preferível nem mencionar por estar perdido mesmo.

“Vamos passar a noite juntos”, convida Mr. Michael Philip Jagger a quem interessar possa na fita cassete Basf 60 minutos. Aquilo era o rock no cio. Entre uma faixa e outra, o ruído gravado da agulha sulcando o long-play high fidelity parecia um campo de batalha, Vietnam fonográfico a detonar a paz doméstica que ainda restasse. Pra contrabalançar o ”Let’s spend the night together” ia muitíssimo bem o “As tears go by” que vinha na seqüência - presença obrigatória nos bate-coxas à média luz, que os cinco rebeldes gravaram em resposta a “Yesterday” no interminável toma-lá-dá-cá Beatles/Stones. Havia ali um quê angelical que traía a simpatia pelo demônio, coisa que os autores não faziam questão nenhuma de esconder. O arranjo de cordas era quase um anti-Stones, a negação da língua de fora, a versão “música de casamento” dos ícones da irreverência mais contraventora que o mundo já conheceu.

Numa pilha de discos ao lado do Sharp com sistema belt-drive, o “Cores, Nomes” do Caetano fala da franja da encosta cor de laranja, do capim rosa-chá, do mel de olhos luz e de átomos que dançam. Linda, mais que demais, porém a taxa hormonal no pico pedia pedras rolando, de preferência com a presa da vez na cama de solteiro e já nuinha pra não se perder tempo desembrulhando. Ela diz que ouviu falar que cinza de cigarro na cerveja dá barato. Fiapo de casca de banana torrado no forno também. O melhor pra se fazer na vida acontecia no quarto quando não havia ninguém em casa, com incenso aceso pra disfarçar outros cheiros, ou no maverick emprestado, sempre com gasolina na reserva e o tape com o ajuste de graves defeituoso. Não se cogitava o boato de que o Keith havia trocado todo o sangue do corpo, na tentativa de se purificar das drogas. Charlie Watts, o mais velho, devia andar por volta dos quarenta, se tanto, e sem sinal de câncer na garganta. As aulas eram matadas impiedosamente porque não havia mesmo recuperação que evitasse a repetência, nem nada que fizesse o Zé Vicente tomar jeito.

Na sala ampla de pé direito alto, José Vicente Lagoa Altenfelder, CEO de poderosa multinacional coreana do ramo químico, lê que o desenho original da lendária língua vermelha e branca foi vendido por 51 mil libras para o Victoria and Albert Museum, de Londres. Dobra o jornal, se espreguiça na long chaise e aciona o home theater para o “Shine a light”, do Scorsese. Aqueles senhores sexagenários mandando ver “As tears go by”, mais de 40 anos depois do raro surto de inspiração, canalizaram nele as lágrimas do título. Talvez mais que todas as vertidas desde os tempos da rainha Lady Jane.


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06 Setembro, 2008

MÍNIMO MENINO COMUM


No desajeito próprio dos pequenos, sem que tivesse a exata noção de si – coisa que nem os adultos do lugar pareciam possuir, o menino era um espanto em andamento, e em sua mente muito intacta o que fosse dito ou visto se incrustava.

Baixem-se a guarda, as armas, o tom de voz. Minimize-se o menino, seja dos mínimos o menor, um prodígio fabricante de sorrisos nos crescidos. Deixe-se envolver no bem-estar de vê-lo, já que não se pode sê-lo. Note que entre ele e o cachorrinho de pelúcia deu-se a química, um afeto de centelha.

Não que careça ver nexo nesse afeto que reporto, apenas digo que as notas da quarta balada, em suspensão há décadas nas auroras de tais sítios, pousaram lisas agora nas felpas da sua manta. Caiba o menino nas meninas de outros olhos, para que vocês também, libertos de suas túnicas de arame, possam vê-lo nos pompons de sua inteireza.

Mínimo, como convém, seja o sultão dos tapetes fofos e o campeão olímpico das piscinas de bolinhas. Fucem à vontade em seus dispositivos de armazenamento de zil gigas, dêem no Google todas as buscas possíveis, mas de antemão não contem com a ventura de encontrá-lo, pois é inconcluso e rarefeito como os mínimos meninos.



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30 Agosto, 2008

VOU-ME EMBORA PRA MIM MESMO


Ou é agora ou nunca mais, pensei.
Rumei decidido à cata das tardes de esteio firme, aquelas que eram substancialmente tardes de rachar o liso das calçadas, em horas e horas de ócio pra muito além do boulevard. Fui chegando e pus-me à vista das cercas mesmas das casas todas. Cercas feitas de igualdade, talhadas no esquadro do artesão, cercando as sinas semelhantes de homens parecidos no vagar e na fisionomia, no jeito de olhar a serra e de ir tocando a vida em meio a assovios e nomes-do-pai.

Eu voltando, voltava no ventre do retorno eterno, o volver infante, espesso de leite e cheiroso de talco. Entrei de fininho naqueles dias findos, sabendo do risco do reboco desprendendo, das heras há muito não aparadas e das calhas entupidas. O uísque com gelo era um guizo nas mãos trêmulas com as dez vistas que assomaram com cantoneiras nas bordas. Via em cores e confrontava ao branco e preto que ficou e que me impulsionava a cavar naqueles sítios a parte faltante de mim. E dizia, pra encorajar-me, que vinha pra cumprir o que tinha de ser e ficou no intento, por teimosia de seguir caminho outro e não o adjacente, o já disposto em espólio antepassado, o que era a fortuna ou o infortúnio de todos os outros filhos das casas de cercas baixas. Quis-me assim, fora dos médios.

A porta da frente rangeu alto quando ela entrou. Tão pouco mudada, tão secularmente ela, musa do feudo revisitado.

- Eu te disse que ninguém sai impune daqui.
- Isso eu sabia e paguei o preço, essa certeza era o peso que vergava a mala na estação, o andar indeciso renegando a ida, a vontade um milhão de vezes frouxa. Por que veio até aqui, me diga? Mórbida. Parece nome de gente, Mórbida lhe cai tão bem. Trago nas solas o barro do mundo, caríssima, de terra estranha que teimei pisar e amaldiçoei chorando muito, fique ciente.
- Por aqui ficou o que sempre esteve, mais ou menos do jeito que Deus dispôs nos seis dias de trabalho. Não te digo que seja o mesmo o sineiro na matriz, nem o bedel, muito menos as meninas que a medo te ofereceram a carne antes de mim. Mas você também não é o você que esse lugar pariu.
- Hoje sei. Mas eu nunca saberia, se ficasse.
- Ali estão as ferramentas descansadas na bancada do seu velho. Com o olhar de agora talvez veja serventia nelas. Não há mais tua mãe varrendo, nem quem quer que seja cuidando do que foi. Tudo meio triste, aquarela muito aguada. Sabe que não imaginei revê-lo assim, com esse copo na mão, cedendo como as vigas do terraço?
- Desaponta ver essas paredes pelo meio, eu que vi cada fiada de tijolo se erguendo, os beirais se levantando... devia era não voltar e não ter que ver essa escada, que já não leva a parte alguma.
- Me lembro dela com corrimão de bronze e feltro vermelho nos degraus largos. Lá em cima, o tempo bom da gente olhando da janela do seu quarto.
- A gente só não podia com o vento batendo forte.
- O vento leva e traz as coisas. O vento ensina.

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23 Agosto, 2008

BREVÍSSIMAS OLÍMPICAS


Notas do nosso correspondente enviado a Pequim


Meu leal e benevolente leitor, posso até vê-lo daqui, do outro lado do mundo, à frente da sua TV adquirida em suaves parcelas nas Casas Bahia, acompanhando os certames de Pequim e detonando sua porção de pipoca de microondas com a voracidade de um leão a destroçar o alce. Adivinho também que o amigo deva estar no momento com ambas as mãos ocupadas, uma pilotando o controle remoto e outra segurando o copão de coca ou cerveja, o que me faz supor que se encontre com a cara enfiada nos piruás que ficaram lá no fundinho da tigela, tal qual ruminante no cocho.


Pois não seja eu a perturbar o seu televisivo espírito olímpico com minhas dispensáveis notas, tão sem encanto e interesse. Contudo, aí vão algumas delas, que sou forçado a parir por estar sendo (mal) pago para isso.


No cálculo em altura, deu a lógica: dona Oberici Guedes da Costa, angolana naturalizada portuguesa, que o Guiness Book of Records aponta como o ser humano do sexo feminino com maior quantidade de sardas por centímetro de pele, ficou com a medalha de ouro em conta de dividir com três casas decimais depois da vírgula – a sua especialidade, juntamente com a recitação de cor e salteada dos números primos até 859.663.002.984.351.935. Tal feito deixou boquiaberta toda a platéia do Ninho de Pássaro, naquela altura do campeonato já totalmente salpicado por cacas de pombas de variadas nacionalidades.


Grande expectativa marcava a final dos bocejos de praia, masculino e feminino. O público que lotava as arquibancadas ia ao delírio frente ao hipopotâmico esgarçar de mandíbulas dos moços e moças de Gana, que em espetaculares jogadas ensaiadas deixava os adversários desconcertados. Causou consternação geral o momento em que os medalhistas de prata deixaram a quadra de bocejos aos soluços, enxugando as lágrimas com a bandeira de seu país (que a bem da verdade não me lembro exatamente qual era).


Seria este repórter um relapso se deixasse de registrar a zebra por excelência destes jogos, no revezamento 4 x 400 sem barreiras. Como é do conhecimento de todos, essa prova consiste na participação de 400 atletas a percorrerem uma distância de 4 metros cada um, passando o bastão para o próximo, que corre seus 4 metros e assim sucessivamente. Os fundistas do Cazaquistão, favoritos pelo exímio preparo físico, foram vencidos pela equipe da Guiné Bissau, que no entanto teve que devolver as medalhas duas horas depois por dopping. Resultado: a China sagrou-se vencedora, sendo esta a única láurea conquistada pelo país anfitrião.


Last but not least, o nada sincronizado foi a modalidade de maior audiência do evento, calculada na fase eliminatória em 6,5 bilhões de pessoas ao redor do globo. Tivemos uma final arrebatadora, onde, em impecável sincronismo, 87 atletas nada faziam durante as cinco horas e trinta e cinco minutos de duração da prova. Um acontecimento que ficará gravado para sempre nos anais da história e que honrou sobejamente o ideal olímpico do Barão de Coubertin. Agora, é aguardar Londres 2012, onde juntos estaremos mais uma vez – se a sua paciência suportar e se de novo cometerem a imprudência de me enviar para a cobertura.



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16 Agosto, 2008

AULA DE RELAXAMENTO


VAMOS LÁ, PESSOAL. INSPIRANDO... EXPIRANDO... SENTINDO CADA MÚSCULO DO CORPO TOTALMENTE RELAXADO, MOLE COMO MACARRÃO COZIDO...


É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.


VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...


Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.


CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...


Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época. Cale-se, vai. Vê se presta atenção na aula, Denise.


A IDÉIA É APAZIGUAR O CÉREBRO, AFASTAR IDÉIAS FIXAS E OBSESSIVAS...


De novo aqueles montinhos pretos e malcheirosos na minha grama. O cachorro é dela, caramba, ela é que tem que dar um jeito nessa situação.


SINTA-SE LEVE, IMAGINE-SE PAIRANDO ACIMA DO CORPO...


Leve, é? Sei, sei. É dieta, caminhada 4 vezes por semana, e vai ver... Fora as pelancas. Agorinha, quando baixei a cabeça, senti a pele do rosto se desprendendo dos ossos, cedendo à lei da gravidade. Ai, meu Deus, comigo não. Não está acontecendo, livrai-me.


NESSE ESTÁGIO EM QUE ESTAMOS, AS ONDAS CEREBRAIS ENTRAM EM OUTRA FREQÜÊNCIA...


Terça que vem é aniversário do Jonas. Afilhado não é filho, vai uma lembrancinha de 1,99 mesmo. Melhor já comprar no caminho de volta.


LEMBREM-SE QUE 12 MINUTOS DESSE EXERCÍCIO EQUIVALEM A 4 HORAS DE SONO PROFUNDO...


Espera aí, tinha mais uma coisa pra fazer. Café e mussarela na padaria, a pilha do portão eletrônico, água oxigenada pra clarear esses pêlos pretos do antebraço... Malditos pêlos, devia ter nascido homem. Tudo muito mais prático. Que mais que tinha que fazer mesmo?


O STRESS, AS PREOCUPAÇÕES, A ANSIEDADE, NADA DISSO EXISTE AQUI. JUNTOS ESTAMOS TRANSCENDENDO O COTIDIANO ASFIXIANTE E MESQUINHO. ENTRANDO NUMA NOVA DIMENSÃO PLENA DE PAZ, TRANQÜILIDADE E HARMONIA...


Lembrei: o Lexotan! Ah, não... esqueci a receita lá em casa.






09 Agosto, 2008

MUNDO CÃO


I

Foi uma alegria quando o Seu Totó apareceu com o humaninho em casa. Uma graça - de terninho, gravata e sapato preto de bico fino.

- Qual a raça dele, pai?

- Não sei direito, Lassie, mas parece que é lavrador. Estava abandonado num caminhão de bóia-fria. Que judiação, deu uma pena. Não resisti e resolvi adotar. Não era você que ficava me infernizando, pedindo uma humaninho? Pois então.



II


- Vamos ter que passar no human-shop pra comprar arroz e feijão pra ele, disse Dona Lulu.

- Não precisa ser no human-shop, querida. Hoje em dia tem seção de produtos pra ser humano em tudo que é supermercado. Podemos dar uma olhada no Cãorrefour, no Rextra ou no Cão de Açúcar.

- Nada disso, papito, melhor uma loja especializada. Aí a gente já aproveita e compra escova de dente, desodorante, talco de chulé, uns maços de cigarro e uma garrafa de pinga.

- É, e também não pode demorar muito pra vacinar, disse o Tobi. Paralisia infantil, sarampo, catapora, tétano...

- Pera aí, cachorrada, assim não é possível. Se for comprar tudo o que inventam pra criação de gente o meu salário na Purina não vai dar. Tem até psicólogo e academia de ginástica pra esses bípedes sem rabo. Não há dinheiro que chegue.



III


- Mami, olha só, o humaninho não pára de falar. O que será que ele quer latir com isso?

- Eu sei lá, o que eu sei mesmo é que não quero saber de bagunça aqui dentro de casa.

- E alguém pode me dizer se os humaninhos mordem?

- Ouvi falar que não, mas ficam mordidos quando estão sem dinheiro. Grana pra eles é a mesma coisa que osso pra nós, Lassie.

- Ah, isso é verdade, ô se é. Outro dia lá na escola o Pedro Pintcher apareceu com um saquinho de dinheiro. Aí a gente ficava jogando notas e moedas pro humano de estimação do Diretor. Ele saía correndo que nem louco atrás, precisava ver! E nem era adestrado, o danadinho.



IV


- Humanos também adoram televisão.

- Igual a que a gente tem aqui, com os franguinhos girando?

- Claro que não, eles não raciocinam. Gostam de novela, grupos de pagode, programas idiotas de auditório e outras atrações onde as fêmeas humanas abanam os rabos e os machos ficam arfando, com as línguas de fora. Isso é o máximo que o QI deles alcança.

- Tobi, meu filhote, já colocou o jornal lá fora pra ele fazer xixi?

- Já coloquei agorinha, mas ele pegou o jornal e começou a ler. Vê se pode.

- Ué, tá negando a raça? Menos mal, enfim um humano se instruindo. Só espero que a leitura não se reduza ao horóscopo.

- E que nome vamos dar pra ele, heim? João, José, Antonio, Daniel, Orozimbo...

- Que tal Praxedes?

- Lindo.

- É, Praxedes tá legal.



V


Exausto com o alvoroço do primeiro dia, Praxedes se espreguiçou na casinha e tentou dormir, mas o sono não vinha. Ligou a TV que instalaram pra ele, no cercadinho. Como sempre, só havia pastor em todos os canais. Pastor alemão, pastor belga, pastor capa preta, pastor com pedigree, sem pedigree, filhotes, adultos. Zapeando pela programação, pôs-se a imaginar um mundo menos cão e mais humano, onde os animais domésticos fossem os cães e não as pessoas. E viu-se dono de uma próspera rede de pet-shops, morando numa casa de três andares e cheia de cachorros no quintal.



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02 Agosto, 2008

737



Sabia que não escaparia ninguém, pelo ruído incomum e pela fissura logo abaixo de uma das turbinas. Nem por isso sua mão tremeu mais ao servir vinho para o grisalho panamenho que dela não tirava os olhos desde o check-in em Los Angeles. A echarpe com centenas de loguinhos da companhia aérea disfarçava o suor frio. Seu olhar ia da taça de vinho à turbina condenada, da consciência do dever à certeza da tragédia, não havia clima nem vontade de corresponder à insinuação daquele homem.

Se tivesse idéia das cinzas a que nos reduziremos, não perderia os últimos momentos nesse joguinho infrutífero. Pense em sua mulher, senhor. Nos filhos, no cachorro, nos negócios, não em mim. Faça um ato de contrição, um nome do Pai, por favor, desmonte esse ar patético de cobiça carnal. Torça para que haja algo acima desses 14 mil pés.

Nenhuma movimentação estranha na cabine, ninguém além dela tinha percebido. Muitos dormiam e passariam do calor das mantas de bordo para o sono eterno sem darem pelo ocorrido. Para o não-ser sem escala e sem stress. Envolveu a taça de vinho do panamenho com o guardanapo.

- Thank you so much (com uma piscadela desavergonhada).

Adeus aos procedimentos protocolares e gestos contidos. Pegou a garrafa de vinho do carrinho de bebidas e começou a sorvê-la no gargalo, olhando de soslaio a turbina com defeito. Afrouxou o nó da echarpe e sorriu cúmplice para os próprios pensamentos. Viu-se a si mesma entre as nuvens, lendo “O apanhador no campo de centeio”.

O panamenho foi buscá-la com mais uma investida.
- Um milhão pelos seus pensamentos.
- Não valem isso. E tenho pra mim que poderiam assustá-lo.
- Isso são modos de uma aeromoça que se preze, beber no gargalo na frente dos passageiros?

Há de ser o primeiro a espatifar-se, pensou. Bem na janelinha da falha mecânica e se fazendo de gostoso. Que seja agora, no pileque, a inconsciência. Explodamos de uma vez.

(Mais um gole, bem sorvido. Trança as pernas)

Caiu sobre uma poltrona vazia e espiou pela janela. Sobre o Saara, agora.

Não cesse essa anestesia boa, quero inexistir feliz. Serão semanas de busca.

Riu.
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26 Julho, 2008

TESTEMUNHA CAPILAR DA HISTÓRIA


Eram confissões inconfessáveis, sobre os maridos e sobre si mesmas. Aquilo, vindo a público, seria Hiroshima e Nagasaki à enésima potência sobre o sossego respeitável do distrito de Azinhão. Podres de filhos drogados, performances vacilantes de amantes na cama, abortos de bastardinhos, desvios de verbas municipais, além, é claro, de miríades de comentários e maledicências menores sobre a vida alheia, sem força de escândalo.

Tinha deixado o gravadorzinho escondido, preso com superbonder embaixo da bancada repleta de tesouras, escovas, esmaltes e cremes. Acionou o Rec em Extended Play, o que significava no mínimo doze horas e meia de gravação digital ininterrupta. Todas as maxiperuas da city se aprontando para o casório do ano, fazendo unhas e pés, aparando as cabeleiras e disfarçando os buços. E doze horas dava bem pra várias levas de peruas, tendo-se em conta que ficavam quando muito umas três horas ali, tempo suficiente pra se botarem apresentáveis e darem lugar à leva seguinte de falastronas.

Havia detalhes, nomes e sobrenomes de praticantes de pecados a escolher, de todo porte e gravidade - veniais, capitais e mortais. A coisa era séria, material que usado em chantagem renderia bom pé de meia, daqueles de garantir o futuro dos netinhos.

Assim arquitetava enquanto varria o salão, juntando num só balaio capilar as variadas mechas do dia. Estava feita. Sairia do serviço e, hoje à noite mesmo, faria os telefonemas necessários para estragar a festa de todo mundo. Não tinha discussão: era botar o trecho comprometedor pra madame escutar e estabelecer preço pra manter a coisa inédita.

Sim, Deuzilleide enfim embarcaria na primeira classe para todos aqueles lugares que conhecia só dos calendários de quitanda ou de tanto ouvir as peruas falarem. Era direito, era justo. Pegou todas no contrapé, azar, fazer o quê. A dona Jade, por exemplo. Custava ser mais discreta, não passava pela cabeça que alguém podia espalhar a difamação que ia destilando, entre uma e outra pincelada de esmalte? Danou-se, tarde demais.

E o melhor é que a entrada de dinheiro seria vitalícia, um esparrame sem fim de dinheiro entrando na conta. Isso porque não reuniria todo o madamório pra mostrar as gravações de uma vez só, destruindo o aparelhinho mediante o pagamento. Afinal, quem garantiria que já não tinha outras cento e cinqüenta e oito cópias do conteúdo comprometedor guardadas a sete chaves em cento e cinqüenta e oito esconderijos diferentes? O plano era perfeito. Já se via ligando: “Dona Mafalda, meu sigilo pelos próximos seis meses tá vencendo hoje. É tanto. Pode fazer o depósito”. Gravadorzinho redentor, salvação da lavourinha de Deuzileide. Bastava agora descolá-lo da bancada.

- Ai que duro, acho que exagerei na cola... força, força, força... mais um pouco... agora vai...

Ploft. Deuzileide do céu, de um golpe o precioso submergiu no balde da faxina. Valha-me, Nossa Senhora. Ficou passando pano seco, mas nada do bichinho dar acesso às suas entranhas. O Power nem acendia. Quem sabe colocando debaixo do secador. Com mil penugens eriçadas, olha a cena... Deuzileide passando secador de cabelo no gravador carequinha. Se alguém entra e vê isso, é rua.

- Seca, seca, meu benzinho... seja um bom menino pra mãezinha Deuzileide, seja.

E ele foi. Virou a mais madame de todas, tem oito franquias do Bob’s, duas lojas de conveniência, Jaguar com motorista, cobertura novinha no melhor bairro da cidade e um salão de beleza. Aquele em que trabalhava.

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19 Julho, 2008

BÁRBARA TARDIA


Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos - aflições, alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um dia.

Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento e organização a tudo. Tentou ler. Via as palavras sem captar direito seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles. O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar genealogias.


Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.


Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.


Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.


Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês.

Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva.Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas. As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados.Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância.

Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.


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