Pular para o conteúdo principal

Postagens

SAUDAÇÕES, POBRES MORTAIS

CRIÔNICA: PROCESSO DE PRESERVAÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS DE HUMANOS QUE NÃO PODEM MAIS SER MANTIDOS VIVOS PELA MEDICINA CONTEMPORÂNEA, SUPONDO-SE QUE A REANIMAÇÃO SEJA POSSÍVEL NO FUTURO.


Errou. Essa não é mais uma ficção envolvendo congelamento de cadáveres que a evolução científica consegue trazer de volta à vida num futuro distante. 

Enquanto cadáver congelado eu mantenho-me lúcido e pensante, tenho consciência do que quis que fizessem comigo e da minha condição de hibernante por tempo indefinido. Não respiro, meu coração não pulsa, mas o cérebro funciona e a memória permanece tão intacta quanto todos os órgãos do meu corpo, inerte e imerso em nitrogênio líquido. 

A primeira e desesperadora constatação é ter perdido a noção de quanto tempo se passou do óbito até aqui. Tudo é um breu à minha volta, provavelmente há décadas. Talvez séculos. Não o presumível breu da cápsula fechada, pois minha visão e todos os demais sentidos estão inoperantes. É a escuridão interna, o apagão generalizad…
Postagens recentes

QUEBRA DE SERVIÇO

Com a riqueza e a fama, a gente se acostuma fácil. Duro mesmo é se readaptar ao inferno depois de uma bela temporada no paraíso. Mas agora é assim, e não há nada que se possa fazer a respeito. Material esportivo novo e à vontade? Foi-se o tempo. Enquanto um calção está em jogo, o outro - emprestado - ficou em casa de molho com sabão de ação concentrada para ver se sai uma mancha de saibro, causada por um escorregão feio na última partida. A queda, na quadra e no ranking, abriu um rasgo nos fundilhos, mas nada que uma tia velha que costura pra fora não possa resolver.

Troquei o treinador pelo paredão, e essa miserável alternativa consegue ser pior do que praticar com aquelas máquinas lançadoras de bolas (que, aliás, precisei permutar com 12 tubos de bolas Wilson, já que as três últimas que tinha estavam carecas e rachadas). Os bons tempos das nove raquetes novinhas e embaladas em plástico por partida, de 4 materiais diferentes, agora se resumem a uma filha única, de aro entortado e enco…

NOME AOS MAÇOS

Meninos colecionavam maços (vazios) de cigarros na década de 70. 
Quem tinha "Chesterfield", ainda que esfarelando, tinha uma preciosidade, já que estávamos em 76 e a marca desapareceu do mercado brasileiro em meados dos 60. Enquanto vagava pelas ruas, sarjetas e bocas de bueiros à cata de algum maço que ainda não possuía, ensaiava estúpidas deduções semânticas. No caso do "Chesterfield": "Chester" para mim era a ave das ceias de Natal. Já "field", o escasso inglês dos meus 12 anos conseguia traduzir como "campo". O que resultava em "campo de chesters", algo um tanto surreal para um animal criado em confinamento e anabolizado com hormônio. 

A marca "Kent" tinha esse nome por causa da temperatura da brasa e da fumaça do cigarro, evidentemente. Nunca poderia me passar pela cabeça que aquele fosse o nome de um Condado no sudeste da Inglaterra. Aliás, o predomínio de nomes ingleses nas marcas de cigarro era absoluto: Alba…

NOME AOS CARROS

- Opala. Na pesquisa apareceu que é uma pedra preciosa. O nome tem uma sonoridade espetacular. Uma coisa nobre.
- É, mas fizemos um levantamento mais cuidadoso de informações e vimos que é considerado um mineraloide. Não chega a ser uma pedra preciosa. E é "a" opala, e não "o" opala. Estamos falando de um carro, não de uma perua. E tem mais: as maiores jazidas de opala do mundo estão na Austrália e no... Piauí!!! Estado sem glamour nenhum, vai desmerecer o lançamento. Esquece, aborta. 



********


- Bem, a próxima pauta da reunião de hoje é a escolha do nome do novo modelo Fiat. Selecionamos "Uno". Que tal?
- Eu gosto, passa uma ideia de ser o primeiro, de estar na dianteira. 
- Também achei ótimo, pessoal. 
- É, né? Mas que falta de malícia de vocês... tá reprovado, pensem outra coisa. 
- Por que, chefe?
- Alguma montadora concorrente vai aparecer com o Due, talvez até o Tre. E com o slogan: "Muito mais do que Uno". Entenderam ou querem lançar no mercado …

DIGITE A SENHA DA SENHA DA SENHA

Você precisa de uma senha para o computador. Você precisa de uma senha para o celular. Outra para o(s) e-mail(s). Outra para o Facebook. Outra para o Instagram. Outra para o Twitter. Outra para o seu banco. Outra para a internet do banco. Outra para o aplicativo de celular do banco. Outra para o cartão de débito e crédito do banco. Todas diferentes umas das outras e preferencialmente trocadas a cada três meses. E todas têm de ser improváveis, nem um pouco óbvias. As chamadas "senhas fortes".

Porém, ó santos nerds com óculos de fundo de garrafa, o mundo é inconsequente e não funciona desse jeito. Quase todos têm só uma senha, de segurança duvidosa, para todos os sistemas e não substituída há anos. A chance de um hacker descobri-la e arrombar toda a sua vida com alguns batuques no teclado é tão grande quanto a quantidade de senhas com a sequência 1-2-3-4-5-6.

É consenso no mundo da segurança da informação o fato de que as empresas produtoras de antivírus contratam hackers para c…

CARTA DE PERO VAZ - A RESPOSTA

Meu caro Pero, 

Tua carta, relatando a descoberta de novas e tão ricas terras para a Coroa lusitana, causou grande satisfação ao nosso Rei, Dom Manuel. Fui testemunha bem próxima - muito mais próxima do que podes imaginar - dos pulos de alegria que dava a cada parágrafo lido. Era tanto contentamento que se mijava nas ceroulas, ora pois. 

Deves estar estranhando o fato de eu, tua esposa, estar a responder-te, e não o Rei. Mas explico-te em poucas linhas, que espero suficientes para que jamais voltes a pisar o solo português e nem olhes na minha cara novamente. 

Saibas que escrevo-te estas mal-traçadas no leito imperial, onde o monarca agora está a ressonar profundamente após uma alucinante noite de amor comigo. Peço-te o favor de não sentires ciúmes de mim. Como vês, não valho nada, nunca vali, e não sou digna nem mesmo do teu desprezo. Do mesmo modo, estejas certo de que nunca reclamarei direito algum se vieres a deitar, nas redes aborígenes que encontrares, com as índias nuas que te ape…

GRANDE HOTEL

Chego um pouco antes do horário estipulado para o check-in. Dou um tempo no bar do hotel, que tem um enorme “Hipotálamo’s” em neon azul piscando na porta.

Meia hora e duas taças de vinho depois, adentro o aconchegante salão do cerebelo. Sento-me num sofá de córtex e abro o jornal do dia, ainda intocado sobre a mesinha de centro. Avisto de lá o saguão lotado. Pelo menos umas 70 pessoas, vestindo túnicas verde-água, buscam alojamento na memória. Querem acomodação a todo custo, mas poucas são aceitas pela recepção.

- Temos que ser seletivos, infelizmente não há lugar para todos.
- Mas eu fiz reserva...

Na recepção também ficam as chaves dos acontecimentos, alinhadas para facilitar o acesso quando necessário.

Escadas em caracol fazem a comunicação entre três imensuráveis pavimentos. São dezenas de quartos, cada um deles contendo 365 dias vividos. Pelos corredores há quadros de pessoas e lugares. Uns estão impecavelmente conservados, a tinta ainda parece fresca. Outros têm carunchos nas moldura…