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QUEM VAI AVISAR A VERINHA?

- Verinha, a vó morreu. Tinha tido uma melhora ontem de madrugada, mas umas horas depois deu outra falência renal e dessa vez não resistiu. 
- O que é isso, trote? Com identificador de chamada, precisa muita coragem pra fazer isso, ainda mais num horário desse. Vou te pegar, deixa ver aqui no visor... 
- Alô, tá me ouvindo?
- Caramba, o pior é que não aparece número nenhum na tela do celular! Mas a voz é igualzinha à do Camilo... Teve infância não, maninho?
- Verinha, é sério. Vai cair a última ficha, e já tem gente bufando atrás de mim, esperando na fila pra usar o orelhão.
- Camilo, para de brincadeira mórbida, a vó morreu em 85 mas pode muito bem voltar pra te puxar a perna! Ou no caso a orelha, porque isso é coisa de moleque, né?
- Então, sua débil mental, a gente por acaso tá em que ano? Parece até que viajou pra 2020, sei lá. Bebeu, fumou maconha mofada, o que acontece??? Meu Deus, eu saio da aula do cursinho pra te avisar e você fica que nem uma retardada aí do outro lado!
- Ah, belez…
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GRANDE MURALHA

Os chineses fazem qualquer negócio. Sabem comprar e sabem vender. Arrematam na bacia das almas, passam pra frente a peso de ouro. Têm a manha de copiar o que o mundo faz de melhor, aperfeiçoar e exportar para a Via Láctea inteira por uma décima parte do preço de mercado.  

Um dos desafios atuais do gigante vermelho é como fazer dinheiro do seu maior e mais valioso patrimônio - a Grande Muralha da China. Construída ao longo de vinte séculos, estende-se ao longo de inacreditáveis 21.196 km e tinha como finalidade original defender as divisas do país contra as invasões de outros povos, especialmente os mongóis. 

Com os mongóis deixando de ser ameaça, essa maravilha da humanidade passou a não ter utilidade alguma além de servir de cenário para fotos turísticas. A lenda arquitetada em torno dela, de que seria a única obra feita pelo homem visível da lua a olho nu, caiu por terra em 2004, quando um astronauta chinês afirmou que do espaço não se enxergava muralha nenhuma. Aliás, é de se supor …

COCA-COLA EM PESSOA

Pouca gente sabe, mas o grande Fernando Pessoa já fez free-lance para a Coca-Cola nos anos 20, quando da entrada da bebida no mercado português. 


- E então, senhor Fernando? Já temos o nosso slogan?
- Aqui está. “Coca-Cola. Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se”. Que me diz?
- Bem... eu entendi o jogo de palavras, muito engenhoso, diga-se. Mas...
- Mas?
- Eu não gostei da primeira parte da mensagem, a impressão que se tem é que o nosso produto causa uma reação negativa. Senhor Fernando Pessoa, se estivesse em meu lugar, precisando de resultados e vendas, sendo cobrado pela matriz e necessitando consolidar a Coca-Cola no mercado lusitano, iria aprovar uma barbaridade dessas?
- Ora pois, que há de errado com o reclame?
- Ao usar o termo "estranhar", o nobre escritor já levanta a lebre que a bebida pode parecer a princípio repulsiva.
- Mas só a princípio. A segunda parte do slogan já rebate essa estranheza.
- Eu entendi o seu raciocínio. Na sequência, temos o "depois entranha-…

AFFAIR VIRTUOSO

Cada um na sua webcam. No começo, uma gracinha aqui e outra ali. Não demorou muito, amantes remotos.



- Bota o cachecol... bota o cachecol que eu enlouqueço logo de uma vez!

- Só se você colocar antes um gorro de lã. Mas tem que ser tipo capuz de bandido, daqueles que só ficam os olhos descobertos. 

- Tá, mas depois você promete que veste um casaco? Sobretudo é meu fetiche, sabia? Já te falei isso? Então. Quero três casacões bem grossos e felpudos, um em cima do outro, até você ficar curvado de tanto peso, sem poder mexer os braços e sem nenhum poro do corpo descoberto! Ui, só de pensar eu fico doidinha, doidinha. Megaexcitante!!!

- Mas como você é safada, heim?

- Então, aí você faz uma dança sensual em frente à câmera e aos poucos, bem devagarinho, vai abotoando os casacos no ritmo da música, até ficar tudo bem fechadinho até o pescoço.

- Ai, mas e se alguém resolve entrar aqui no quarto e me pega assim, vestidão - do jeito que não vim ao mundo? O que que eu vou dizer? Imagina a situação, v…

CACHORRO ENGARRAFADO

"O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado"
Vinícius de Moraes

Ele chegou filhotinho, uma coisinha de nada, só 200ml de suave fofura e inocência. No rótulo se lia "12 years old", mas, para um exemplar daquele pedigree, doze anos era só o começo de uma longa e proveitosa vida. 

E como foi saboreada a vida que me deu, enquanto durou. Não exigia nada em troca e não dava trabalho nenhum. Não pegava pulga, nem carrapato, banho não carecia, nem latir ele latia. Manso como só ele, deixava-se ficar ali na estante, entre livros e porta-retratos. 

A intimidade e o zelo foram se achegando aos poucos, em goles discretos. Sabia o momento do seu reinado a cada fim de tarde, à hora certa e boa. Era quando trocávamos colos. Eu lhe dava o meu e ele me dava o dele. Sem gelo, reconfortante e amigo. Cicatrizante de mágoas e refazedor de ânimos, punha-me a alma pulando doida feito um cãozinho dançante de circo. Em sua irracionalidade, parecia conhecer a magia do seu cara…

NATAL CELULAR

"Bando de DNA amarga mais um Natal na cadeia", estampava a manchete dos principais jornais no dia 25 de dezembro. 
O menor, de alta periculosidade e conhecido no submundo do tráfico pelas iniciais DNA, comemorou as festas com uma palavra de ânimo aos seus comparsas: "Não é porque o DNA está na cadeia que o nosso Natal vai ser triste. Vamos lá, sorriam, sorriam, mesmo que seja atrás das grades. Pensem em visita íntima, broa de fubá com serrinha dentro, golpe do sequestro falso, crédito de celular aos montes. Pensem alguma coisa assim, bem bacana, e abram aquela risada gostosa para a nossa foto natalina anual".

Prosseguiu o famoso meliante, depois de umas três ou quatro taças de espumante de discutível qualidade:

"Mas espera aí, está todo mundo muito alinhadinho, assim fica falso e sem graça. Talvez umas serpentinas em cima e outras embaixo, envolvendo o pessoal, uma coisa mais festiva! Quero os grupos bem animados, como se fossem uns blocos de carnaval. Aliás, o c…

O ROBÔ VAI ROUBAR

Pasme, porque a coisa é séria e assustadora. Um pedreiro, daqueles de mão cheia, que trabalha rápido e bem, consegue assentar até 600 tijolos ao longo de oito horas de serviço. Isso em condições ideais de temperatura e pressão, contando que o sujeito irá pular da cama disposto e louco pra botar a mão na argamassa. O robô, já concebido e no aquecimento para roubar seu lugar, assenta POR HORA cerca de 1500 tijolos - milimetricamente aprumados, sem desperdício de material, sem cantoria de pagode, sem parar para começar outro serviço enquanto não termina o que está fazendo ou para chavecar a mulherada que passa em frente à obra, com o manjado "ô, lá em casa!". Mais: sem salário, sem nunca ficar doente, sem FGTS, sem INSS, sem décimo-terceiro, sem greve, sem panetone e sidra de fim de ano. O máximo que vai exigir é uma ou outra borrifada de WD40 de vez em quando. Esse é um exemplo, para ficar só na construção civil. Juro que não quero estragar o seu Natal, nem o espírito de harmo…