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Mostrando postagens de Fevereiro, 2007

DE REPENTE

Excertos do inesquecível desafio acontecido na Freguesia de Livramento, tendo de um lado Diógenes, o Iluminado, e de outro Miguezinho, o obscuro.

A noite cai sem luar sobre aqueles sítios, tornando Miguezinho ainda mais obscuro e Diógenes ainda mais iluminado.


DIÓGENES, O ILUMINADO:

Fique sabendo, meu caro
Que a miséria que o assola
É uma praga que extrapola
Sua tacanha visão

A história bem demonstra
Que a escravidão subsiste
Se a ignorância resiste
Às luzes da evolução

A questão é dialética
E esbarra na problemática
Da conjuntura caótica
Do tecido social

O contexto sociológico
E quiçá o antropológico
Tem raízes que transcendem
A explicação racional


MIGUEZINHO, O OBSCURO:

Não entendo patavina
Dessa sua língua enrolada
O amigo faz piada
Ou tá a fim de me humilhar?

Eu posso não ter diproma
Não domino seus assunto
Mas me basta o meu bestunto
Pra na lida me virar

Depois tem outra, seu moço
Quem lhe chamou por aqui?
Já chega cagando regra
Pra quem não pediu conselho?

Meta-se com sua vida
E guarda as fala difícil
Pra gastar…

GRANDE HOTEL

Chego um pouco antes do horário estipulado para o check-in. Dou um tempo no bar do hotel, que tem um enorme “Hipotálamo’s” em neon azul piscando na porta.

Meia hora e duas taças de vinho depois, adentro o aconchegante salão do cerebelo. Sento-me num sofá de córtex e abro o jornal do dia, ainda intocado sobre a mesinha de centro. Avisto de lá o saguão lotado. Pelo menos umas 70 pessoas, vestindo túnicas verde-água, buscam alojamento na memória. Querem acomodação a todo custo, mas poucas são aceitas pela recepção.

- Temos que ser seletivos, infelizmente não há lugar para todos.
- Mas eu fiz reserva...

Na recepção também ficam as chaves dos acontecimentos, alinhadas para facilitar o acesso quando necessário.

Escadas em caracol fazem a comunicação entre três imensuráveis pavimentos. São dezenas de quartos, cada um deles contendo 365 dias vividos. Pelos corredores há quadros de pessoas e lugares. Uns estão impecavelmente conservados, a tinta ainda parece fresca. Outros têm carunchos nas moldura…

OBITUÁRIO CARNAVALESCO

Postagem extraída do meu antigo blog. Texto publicado em 2006 no jornal "O Município" e em alguns sites.



DIÓGENES CAPISTRANO MATOS
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.


JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).


ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.


CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e de…

TEMPUS FUGIT

Eu recebi um e-mail do tempo. Não era spam, não tinha cópia pra ninguém, sem undisclosed recipient, era pra mim e só pra mim. O tempo pessoalmente digitou o destinatário. Posso até vê-lo lá na casa dos minutos incontáveis, sisudo e misterioso, a batucar no laptop com sua túnica branca e a longa barba tocando o chão.

Cliquei no anexo e abri a mensagem que dizia:

Eu sou o tempo desde que me conheço por tempo, nem sei bem do meu começo, amigo velho, muito menos aonde é que vou parar. Ninguém morre inteiramente, deixo a princípio bem claro, fique tranqüilo você e sua raça de esquisitos. Tudo a bem dizer vira outra coisa e assiste ao tempo e seu governo de outras formas: musgo, pedra, graveto, cachorro, molusco ou ser humano. Tudo se rende a mim, o tempo-rei que o Gil cantou com propriedade e reverência.

Sou eu quem amarela as páginas - as impressas, manuscritas, mal-traçadas. As que são e as que faltam virar texto. Digo ao sol quando nascer e se pôr, à maré quando subir, à nuvem quando chov…

O DIA EM QUE O RUBÃO EXPLODIU

Eram onze e meia da manhã quando o Rubão foi pelos ares.
O chefe o chamou em sua sala e começou a esculhambação. Metas, metas e mais metas não atingidas. Relatórios, gráficos de vendas, queda nos lucros. Cobrança de resultados, avanço dos concorrentes, vermelho inevitável no balanço do fim do mês.

- Então, seu Rubens, como é que fica?

O Rubão, do alto de um metro e noventa e quatro revestidos por largo invólucro adiposo, ia escutando calado, os braços cruzados e os olhos no chão. Foi quando começou a inchar. Os globos oculares querendo saltar do rosto. As mãos tremendo incontrolavelmente, os lábios arroxeando e dobrando de tamanho. No início ainda teve a consciência de afrouxar o nó da gravata e desapertar o cinto. Depois foi perdendo os sentidos e entregando-se resignado ao estouro iminente. O coração pulsava na altura do pescoço, veias e artérias iam rebentando como pipocas no microondas.

O chefe, agora acuado diante do quadro calamitoso, tentava uma remissão.
- Calma, Rubão, calma, esqu…