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O DIA EM QUE O RUBÃO EXPLODIU




Eram onze e meia da manhã quando o Rubão foi pelos ares.
O chefe o chamou em sua sala e começou a esculhambação. Metas, metas e mais metas não atingidas. Relatórios, gráficos de vendas, queda nos lucros. Cobrança de resultados, avanço dos concorrentes, vermelho inevitável no balanço do fim do mês.

- Então, seu Rubens, como é que fica?

O Rubão, do alto de um metro e noventa e quatro revestidos por largo invólucro adiposo, ia escutando calado, os braços cruzados e os olhos no chão. Foi quando começou a inchar. Os globos oculares querendo saltar do rosto. As mãos tremendo incontrolavelmente, os lábios arroxeando e dobrando de tamanho. No início ainda teve a consciência de afrouxar o nó da gravata e desapertar o cinto. Depois foi perdendo os sentidos e entregando-se resignado ao estouro iminente. O coração pulsava na altura do pescoço, veias e artérias iam rebentando como pipocas no microondas.

O chefe, agora acuado diante do quadro calamitoso, tentava uma remissão.
- Calma, Rubão, calma, esquece o que eu disse. Mês que vem a gente recupera essa situação, agora volta ao normal...

Três segundos depois, Rubão era carne moída. Explodira silenciosamente, low-profile, bem ao seu estilo. Talvez a banha abundante tivesse abafado o estrondo. O fato é que não havia centímetro de mármore, vidro temperado e madeira nobre da sala do diretor que não estivesse coberto com as vísceras do dedicado supervisor de vendas. Embora quase inaudível, a força daquele big-bang humano foi avassaladora. Alguns ossos encravaram-se, como que fossilizados, nas paredes do escritório, formando um curioso mosaico.

O diretor, tirando um fiapo de pâncreas preso aos seus óculos junto com o “R.J.T.” da camisa do Rubão (chamava-se Rubens José Tavares), tinha que pensar rápido. A situação era insólita, poderia ser acusado de assassinato.

Interfonou para a secretária e pediu que providenciasse um cão faminto, em pele e osso, imediatamente. Antes de tudo, limpar a área.

Refestelado do presunto e sua gordura, o cão começou a agonizar. O diretor decidiu levá-lo a um veterinário para uma injeção letal. Sacrificado o bicho, não haveria indício do ocorrido.

Não foi preciso. O cachorro chegou morto ao consultório. Sem a permissão do diretor, o doutor foi logo abrindo sua barrigada.

Após autopsiar o bicho, o veterinário foi categórico:
- Macacos me mordam, isso é carne de Rubão!
- Como assim? , disfarçou o diretor.
- Como assim digo eu, quem tem que se explicar é o senhor. Conheço carne de Rubão a léguas de distância. Além do mais...
Não chegou a concluir o raciocínio. Três tiros nos miolos o calaram para sempre. Sabia de tudo, era preciso eliminá-lo, pensou o diretor ao sacar a arma e mandar pro inferno o segundo num dia só.

Fugiu em disparada com o Rubão moído num saco de lixo, e se deu conta de que as placas dos carros todos tinham prefixo RJT. Pelas ruas em que passava via a Borracharia do Rubão, rubancas de jornal, a agência do Rubanco do Brasil, outdoors de Vick Vaporubão, concessionárias Mercedes-Rubenz.

Corria. E quanto mais corria, mais o espectro do Rubão ganhava fôlego para alcançá-lo. Ele com o pacote de carne já marrom, sem ter como livrar-se do finado a decompor. Entrou num beco, olhou para o céu e viu uma nuvem com o perfil exato do defunto. Exausto, cambaleou até chocar-se com a vitrine de uma loja de perfumes. O alarme soou: ru-bão, ru-bão, ru-bão, ru-bão...

Antes que a polícia viesse, chegou sua vez de explodir. Ruidosamente, gloriosamente, solenemente, como convinha a um executivo do seu porte.
No dia seguinte, os jornais noticiaram terem sido finalmente encontrados os restos mortais de Rubão, junto aos destroços de um desconhecido, enterrado como indigente.

Comentários

  1. Marcelo, inauguro com muito prazer os comentários neste weblog que abrigará o fino da pena sguassabiana. Como o Rubão, também explodi. Em gargalhadas.

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  2. marcela10:46 AM

    hahahahhahahh

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  3. Anônimo3:57 AM

    (núbia)vou ficar sem comer carne por um bom tempo... éca!!! =)
    *bom poder comentar aqui.

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  4. Silvana11:55 AM

    Marcelo... você, como sempre visceral!!! rs
    Sua história me remeteu, a princípio, aos tempos em que novelas eram grandes obras como Saramandaia... mas em tempos modernos fica cada vez mais difícil explodir por um vício ou puro prazer. Salvo quando temos a honra de te ler. Adorei!

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  5. Anônimo3:49 PM

    Nego, v. é muito louco!!!! Muito bom o texto, dei muita risada.Grande abraço, Sgrilipe.

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  6. Marcelo, bota no seu outro blog um link direcionando pra este novo. Neguinho que ainda entra no outro, tá perdidinho. abraço

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  7. Caramba!!!

    Adorei o Rubão!

    Explodindo executivamente, como todo grande executivo, coberto de economia, stress e cansaço.

    No dia em que um país inteiro explodir como o Rubão, vamos começar a dar mais atenção ao mundo.

    Adorei! Parabéns!

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