Pular para o conteúdo principal

OBITUÁRIO CARNAVALESCO


Postagem extraída do meu antigo blog. Texto publicado em 2006 no jornal "O Município" e em alguns sites.



DIÓGENES CAPISTRANO MATOS
Aos 41, assassinado. Enquanto a orquestra tocava o trecho “Vou beijar-te agora e não me leve a mal, hoje é carnaval”, o folião agarrou no meio do salão uma mulher casada. A mulher até que não levou a mal. Quem levou a mal mesmo foi o marido, que o transformou em cinzas antes da quarta-feira.


JOSÉ DIAS P. RIBEIRO (ZEZÉ)
Aos 24, de mal súbito, quando ia cortar o cabelo. Conhecidos alegam que a causa mortis foi desgosto, devido a insinuações sobre sua suposta homossexualidade, que vem de outros carnavais (não a homossexualidade, mas as insinuações).


ARNESTO RUBINATO
Aos 59, de suicídio. Antes de matar-se escreveu um bilhete para a mulher, que dizia “Não posso ficar nem mais um minuto com você”. Foi enterrado às onze, no cemitério do Jaçanã. Deixou saudosa a maloca.


CAMÉLIA DA CRUZ
Aos 78, de fraturas múltiplas. A vítima caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Deixa marido, filhos, sobrinhos, netos e uma amiga inconsolável, a jardineira.


GENERAL ANTONIO FELISBINO DE ANDRADE
Aos 67, a serviço da pátria. Após combater heroicamente numa batalha de confete, foi encontrado na sarjeta com a boca cheia do produto. Sepultado com honras militares, teve seu caixão envolto por uma bandeira branca.


PEDRO SILVESTRE RONQUIN
Aos 60, mordido por uma serpentina venenosa. Enfermeiros tentaram reanimá-lo com a inalação de um aromatizador de ambientes, sem sucesso.


JOVALDO ROSSETTO (VULGO DUM-DUM)
Aos 28, atropelado por um carro alegórico na dispersão do desfile das escolas do grupo especial. O indivíduo veio a óbito após confusão causada por uma briga feia entre o Rei Momo e a Terça-Feira Gorda.


CHIQUITA BACANA
Aos 66, de tombo. Testemunhas afirmam tê-la visto escorregando numa casca de banana nanica.


ANDRÉ FERREIRA VASQUEZ
Aos 97, queimado. Seu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo! O corpo de bombeiros foi acionado, porém o moribundo não teve tempo de ver a Mangueira entrar.


RUBIÃO VICENTE DE RAMOS VEIGA
Aos 70, vítima de assalto. Ao ouvir o bandido dizer: “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!”, ele teria respondido que não ia dar, não ia dar não. Deu no que deu.


GEORGE BUSH
Aos 61, enforcado em um cordão de foliões. Para decepção dos populares que cercavam o corpo, constatou-se que se tratava de um desconhecido com uma máscara do Bush, comprada na rodoviária. Foi enterrado como indigente.


TATIANA NEVSKY
Aos 4, de inanição, na matinê infantil. A garotinha gritava “Mamãe, eu quero mamar”, mas a genitora, empolgada com o ziriguidum, não conseguia ouvir seus berros.


DENIVALDO GALVÃO DE MORAES ANTIBES
Aos 35, de hemorragia. Foi atingido por um bloco, enquanto sambava próximo a uma obra. Entre os componentes do bloco foram encontrados areia, cimento, pedra e ferro. Detidos para averiguações, todos negaram veementemente qualquer envolvimento com o caso.


JOÃOZINHO
Aos 30, bicado por um beija-flor.

Comentários

  1. LAURO AUGUSTO B. BORGES
    Aos 36. Enquanto trabalhava fora, ele se controlava. Trabalhando em Sanja, ele sucumbiu ao coquinho gosmento. Se entregou. Noite após noite, no sorvete, no mingau, pura, com gelo, doses e mais doses até a over fatal. Muita macaúba.

    ResponderExcluir
  2. Adriano Neves3:23 AM

    Se a Camélia caiu do galho ou não, fica difícil comprovar, mas que eu caí na risada, pode ter certeza que sim!!!!

    Um abraço!!!

    ResponderExcluir
  3. Núbia3:52 AM

    Hahahaha, muito bom messsssmo. Pra variar...
    bj

    ResponderExcluir
  4. Maria Amélia6:31 AM

    Marcelo, vc não vai pro céu com tanta maldade assim... hehehehe

    bjos

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…