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INVISÍVEL, MA NON TROPPO


Não me pergunte como nem por quê. O fato é que ele se viu investido, de uma hora pra outra, do dom da invisibilidade. O que o transformou instantaneamente no mais poderoso e bem-aventurado dos seres vivos, dali das adjacências aos confins da Via-Láctea. Mas não quis fazer alarde da nova condição – mesmo porque alguém invisível é capaz de tudo, menos de fazer alarde. Em frente ao espelho que não o refletia, começou a planejar cautelosamente o partido que tiraria da insólita faculdade. E enquanto ia escovando os dentes que ninguém veria, algumas alternativas aos poucos se apresentavam.

Poderia ver o que Bush trama às escondidas em seu rancho no Texas. Assistiria aos meandros secretos das licitações públicas e saberia de antemão seus nem sempre lícitos resultados. Poderia ver João Gilberto em seu indevassável apartamento no Leblon, deitado de pijama no sofá e fazendo ao violão um acorde em fá sustenido com sétima diminuta. Testemunharia os TOCs mais secretos do Roberto Carlos e seus rituais supersticiosos, da alcova à sala de estar. Descobriria se o Silvio Santos é ou não careca, desejo dos desejos de 11 entre 10 colegas de trabalho e fregueses do Baú.

Pra não estragar o encanto da brincadeira, trataria de ser seletivo. Não entraria em todos os provadores, vestiários e banheiros femininos: apenas nos mais bem freqüentados. Conheceria segredos de Estado guardados a sete chaves, e teria o poder de desencadear guerras e forçar armistícios. Acabaria com a fome no mundo, derrubaria a cotação do petróleo, levaria canalhas ao xadrez. Tivesse um pouco mais de ambição e já estaria invisivelmente instalado numa poltrona de primeira classe, com destino ao paraíso que escolhesse. Acompanharia de camarote os deslizes do chefe e o chantagearia pelo prazer de vê-lo sofrer, não para tirar proveito. Levar vantagem a troco de quê? Não precisaria mais disso. Alcançaria por si só o que bem entendesse e ainda assim não seria trapaceado nem invejado por ninguém, porque para todos os efeitos não existiria. Teria as rédeas de tudo sem precisar ao menos dar o ar da graça.

Acima dele só Deus, por sinal invisível também. E a megalomania da invisibilidade trazia novas idéias. Invadiria os bastidores dos seus ídolos. Faria parte da tripulação de ônibus espaciais. Imaginou-se dentro de um carro forte, separando apenas as notas de 100. Mas pra que se arriscar com dinheiro se poderia ir direto ao que ele é capaz de comprar? Mania de se preocupar com os meios. Daqui pra frente só o bem-bom, mel na chupeta e desfrute, pensou enquanto escanhoava o imaginário queixo.

Tudo seria perfeito se qualquer dessas idéias o seduzisse de verdade. No fundo, queria deleites mais sutis e menos previsíveis a alguém naquele estado. Nada além do que palpitava no recato de sua aldeia, mas que era negado aos olhos. Os pequenos pecados da vizinhança. O nascedouro dos fuxicos. O cerne do inconfessável, o nunca dito e exposto fora das quatro paredes.

Mas era tarde demais. Não pôde ver nada disso, pois 15 minutos depois viu-se visível de novo.

Comentários

  1. Luciana M516:42 AM

    enfim consegui abrir....ebaaaa!!!
    muito bom Marcelo, parabéns!
    bjs,
    Lu Patinadora (rsrs)

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  2. Marcos Pirajá6:48 AM

    obrigado por ter enviado esta crônica,gostamos muito,continue enviando
    se
    for possível.
    Sucesso,abraços a todos,fiquem com DEUS.

    ResponderExcluir
  3. núbia9:41 AM

    a pena maior é a dele ter desfrutado de todas as alegrias na tristeza da solidão. Mto bom, a gente fica viajando e se pondo no lugar...

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  4. E, supra-sumo das descobertas, ele teria acesso à secretíssima fórmula do sorvete de macaúba. Marcelão, mais uma de puro deleite. A crônica e o sorvete.

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