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SOBRE O LIVRO QUE NÃO LI


Não, eu não li “O Caçador de Pipas”. Nem lerei, prometo a ti e a mim mesmo. Devoraste vorazmente teu volume, com um afinco pouco visto nesses anos todos em que estamos juntos. Quaisquer quinze minutos entre uma tarefa e outra era oportunidade de mergulho nessa história que não adivinho, embora milhões já a tenham lido e outros milhões ainda a lerão.

Que armas afinal tem esse caçador para abater tanta gente ao mesmo tempo? Sem dar chance de defesa, lá vai ele colecionando reféns em sua irresistível emboscada. Por ele deixaste a comida queimando na panela, a planta sem a rega costumeira, fizeste dele meu rival na tua atenção. Um domingo inteiro de convívio foi-se embora quando a ele te entregaste toda, a tua cabeça imóvel focada hipnoticamente naquele enredo de dores e alegrias afegãs. Cem, cento e cinqüenta páginas de um só fôlego, te transportando de onde estavas até onde nunca hei de chegar.

Resistirei, estejas certa, e sabes que sou obstinado quando falo assim. Ali jaz o tomo da discórdia no sofá macio da varanda, debaixo dos teus óculos, as páginas onduladas pela maresia. Apenas descansa ali como objeto inerte e aparentemente incapaz de qualquer coisa, o livro e o estrago do ar salino sobre ele.

Não quero abri-lo justamente pra que possa confiná-lo em seu mistério, nessa redoma que eu próprio blindei para cercá-lo. Que o seu título continue me intrigando e sua polegada de espessura seja a medida que me aproxima e me separa da emoção que imagino que ele encerra, das tramas que deduzo que ele conta e dos seres que de forma rara há de descrever.

Lembro que não estavas ainda na metade, quando vi um tremor de choro no canto da tua boca. Abaixavas de um jeito estranho os olhos quando falavas no livro, e nesses momentos eles tinham um brilho de quilate ainda não avaliado. Um quilate outro, que inspirava a abrir na faca uma vereda entre o prólogo e o epílogo. Tirar do bucho da obra o que a tornava e a torna ainda, ao meu olhar, indevassável.

Das livrarias de aeroporto às drugstores, esses milhares de exemplares em centenas de edições impõem-se à paisagem, como pipas num céu azul de maio. O teu, do sofá, me olha e me desafia, querendo saber até quando conseguirei me esquivar, supondo-me a última resistência à instauração do seu império.

Que venha o vento das marés mais altas e lance um bocado de areia no ondulado dessas páginas. Que mais tarde, amanhã pela manhã, uma garoa fina lhe caia leve na lombada, mas não tão leve a ponto de manter imaculada sua dedicatória. Que esses pequenos danos o tornem aos poucos ilegível. Mais um motivo, o definitivo motivo para que o esqueça em sua magia de uma vez por todas.

Por mim ele ficará fechado. Não darei linha a essa pipa, ainda que saiba o quanto possa estar perdendo. Outros, muitos outros alçarão vôo em meu lugar e desfrutarão dos seus encantos. Por enquanto o manterei em terra firme, incógnito e humilde em meio à bagunça da estante, para que conheça o castigo de ter te roubado de mim.

Comentários

  1. Marcelo, visceral!! Condená-lo ao exílio de uma estante bagunçada foi pior que morar em Aguaí. Fiz isso há muito tempo com a obra do Paulo Coelho. Mas não foi por ciúme, foi desprezo mesmo. Parabéns pela poesia habitual.

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  2. Anônimo8:38 PM

    Fala Marcelão!
    Estou na ativa!
    Sempre leio.
    Esse também, pra variar, é muito bom!
    Eu li o livro. Sujeito maldoso aquele!
    Abração procê! Continue me mandando!

    Guaxupé!

    ResponderExcluir
  3. Helô7:28 AM

    maravilhoso!

    ResponderExcluir
  4. Ai, Marcelo, que lindo!!!
    Confesso: eu também li o livro, mas jamais
    te deixaria por ele! (Agora, cá entre nós,
    você não leu mesmo????? Então, como
    descreve assim, tão exatamente, as emoções
    que ele provoca????) Me lembrou Chico
    Buarque, escrevendo na voz feminina. Como pode?!!!

    Malu

    ResponderExcluir
  5. Milena Moran8:17 AM

    Poxa Marcelo....Renda-se!

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  6. Anônimo7:52 PM

    marcelo parabéns.XEf

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