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Mostrando postagens de Abril, 2007

PLATAFORMA ZERO

Embarca logo, corre, ou chegaremos tarde ao tempo que perde a hora.
O casamento campestre, lá no alto da colina as noivas várias e loiras feitas de açúcar cristal. Véus de caramelos velhos, já roxos de tão vencidos, deixam sua calda melosa pelos caminhos de lírios. Sim, há noivas novas e gastas, há belas e remediadas, contrastando seus vestidos com os negros trajes do padre.

Na gaveta de uma cômoda de Roma, as passagens sabe Deus dizer pra onde. Lua de mel de laranjeira, abelha rainha reina sobrevoando sobre o voal. Pronta pra ir, querida? O navio está apitando o apito de Noel Rosa na fábrica de tecidos. Não fira mais seus ouvidos. Escuta, antes que me esqueça, o imenso rol de palavrões que farão você corar da nuca até os tornozelos, num enlevo de novelo de lã boa de alisar.

Desejos vão fumegando na cabine super luxo. Fogo alto, gente acesa. Olha a angústia que fermenta em meio ao limbo dos possessos, uma piscina até a borda de leite de ninfas lindas e faunos não-correspondidos com pulso…

MINHAS FÉRIAS NA FAZENDA DO VOVÔ

Quando cheguei o notebook tava com a bateria fraca, vim jogando Fifa Soccer na viagem. Foi um trampo pra achar, na casa do vô, uma tomada que encaixasse no carregador.

Meu quarto era maneiro. Chapei com o visu da janela. Mas um pentelho de um ganso não parava quieto, e eu tinha que deixar tudo fechado pra não ouvir a barulheira dele.

O rango era estranho. Galinha ao molho pardo, polenta, pururuca, vaca atolada. Ainda bem que minha mãe me forrou a mochila com Doritos e Toddynho. Não ia comer aqueles bagulhos esquisitos nem a pau.

Um dia bateu uma larica forte. Pedi pro vô o telefone de um disk-pizza, tava a fim de traçar uma redonda com tudo o que tinha direito. O vô disse que pizza por ali só no forno da fazenda. Mas a lenha precisava cortar e mussarela não tinha, só queijo fresco e coalhada. Ferrou legal.

Minha vó ficava socando a porta do quarto, falando pra ir ver tirar leite de vaca, regar horta, matar porco, colher goiaba.

Uma galerinha, filhos do caseiro, ficava de longe olhando pra …

AUTO-AJUDE-SE

Primeiramente, tenha um objetivo bem delineado. Ninguém chega a lugar algum sem saber exatamente aquilo que busca. Defina sua meta e estabeleça os passos necessários e factíveis para alcançá-la. Marque um dia e combine consigo mesmo que esta será a data limite para a metamorfose que transformará você numa nova dimensão de ser humano: rico, famoso, admirado e invejado.

Visualize-se como já tendo atingido o que deseja. Veja, sinta, ouça a glória batendo à sua porta, imagine sua plenitude física, material e espiritual com a maior riqueza possível de detalhes.

No começo pode parecer difícil, mas não desanime. Persiga o seu ideal com a determinação de um búfalo e a competência de um cão farejador. Olhe-se no espelho e enxergue-se um gigante. Espalhe papéis por todos os cômodos da casa, com sua meta escrita em letras garrafais. Afaste-se dos pessimistas e junte-se às pessoas de bem com a vida.

Se você pensar negativamente, atrairá o fracasso. Medo e limitação são palavras a serem definitivamen…

A PRAÇA FALA AO SEU POVO

Eu, a praça de Buritis da Serra, vi quase tudo acontecer em meus domínios. Comecei com um círculo malfeito de terra batida, quando não eram nascidos os avós dos vovôs de hoje. Nem chafariz tinha, nem planta, nem nada. Vocês foram me formando, dando sentido a mim e me tornando, feia ou bela, o seu cartão postal. Gerações se sucederam me elegendo como palco principal de seus encontros.

Na minha época áurea, os saguis zanzavam pelas paineiras. À sombra delas, o assunto era um tal de Getúlio. Que Getúlio isso, que Getúlio aquilo, alguns defendendo e outros odiando. Falavam muito dele nos comícios.

O fato é que já tive mais prestígio e glamour. Fui o epicentro da pólis e a agência de notícias de antanho, e é difícil para mim amargar esse abandono a que me relegaram. Era a sede de um poder paralelo, mais efetivo e influente que qualquer ato do executivo ou conchavo da vereança. A praça era a verdadeira tribuna do povo, o estopim de greves, passeatas, atos de desagravo. Agora, quando muito, si…

DO ALÉM

Nem imagina você, raro e por isso mesmo estimadíssimo leitor, o que é acordar tiritando em pleno inverno, correr para o chuveiro e ouvir o estouro da resistência, dizendo “Sorry, Mané”. Era o começo de um calvário atordoante, que iria se estender por todo aquele interminável dia.

Já ouviu falar em malabares na cara? Pois é, depois do banho siberiano, foi o que ganhei ao parar no primeiro semáforo a caminho do trabalho. O malabarista devia ser iniciante. Por um erro de cálculo o pino entrou pela janela do meu carro e deixou um razoável hematoma entre meu nariz e o olho esquerdo.

Próximo semáforo. Por míseros 50 centavos, o rapaz da cadeira de rodas me regalou com 3 pacotes de bala de goma. Na primeira mastigada caiu uma restauração. Discretamente, cuspi na rua o ex-pedaço de dente. Um guarda municipal viu e me multou por sujar via pública. Tentei explicar. Ele riu do meu incisivo pela metade, enquanto me entregava a autuação.

Liguei pra empresa avisando que ia chegar mais tarde. Parei no …