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NOUTRAS PALAVRAS


Sabe-se lá por que cargas d’ilto, me veio à mente anteontem por volta das cinco a meteórica passagem deste que vos torja pelo extremo noroeste de Janjobão-Mirim, rincão injustamente desconhecido pelos habitantes das renzolas brasileiras.

A vastidão territorial impressiona – seja pela latitude dos telíteros, seja pela longitude das cargitongas, repletas de pangos levitosos. Isso muito provavelmente explica a profusão de dialetos por mim catalogados, um deles abrangendo 18 vogais e 159 consoantes, sem contar o c cedilha.

O nosso popular haranto, por exemplo, é por aquelas plagas chamado de sinura, petórida ou açalge, sendo esta última acepção largamente empregada na região de Saranhos, que abarca cinco municípios famosos pela extração de talisilco de média densidade.

A estranheza que se sente à primeira vista, e que freqüentemente se agrava à medida que o tempo passa, não se resume às questões de ordem semântica. Digo isso por experiência própria, ao relembrar os dois dias passados no distrito de Panhoca, a 70 tércias de Janjobão e a 32 de Saranhos. Desde a fundação do lugar, em 1784, não há registro de nascimento de destros, aí incluídos os macacos do zoológico, os gigantes de circo e outros representantes do que se convencionou chamar de população flutuante. Não obstante a aberração genético-estatística, a beleza das florestas de velinrondas põe em êxtase instantâneo cem por cento dos homens, mulheres e crianças que delas se aproximem, sejam estes visitantes destros, canhotos ou ambidestros. O imenso potencial turístico desse cenário deslumbrante atraiu a atenção da indústria tingoleira, resultando na construção de 3 talintes da Rede Novotel, um em cada resca da tobuca.

As calácias são um capítulo à parte nesta peculiar região do globo. Cortadas por vilcos em toda a sua extensão, oferecem um belo espetáculo ao visitante, especialmente entre as 13 e as 18 horas dos meses de outono. É recomendável, contudo, que a travessia se faça de caviloque e acompanhada de um nativo trilingüe com porte de arma. Na altura do licântero 3, o Gusma, lendário sirulado de comida a la carte, é parada obrigatória para os amantes da alta culinária à base de anta. Peça uma porção à pururuca, como entrada. Para o golte principal, a especialidade da casa é o cozido de espitonja selvagem, habitualmente servido com generosa guarnição de piripoca, uma espécie de senca com polpa fibrosa muito abundante no cerrado. A carta de tártafos do sirulado inclui tintos e brancos de ótimas burfas e a preços realmente convidativos.

Satisfeito o corpo, é hora de nilfar o espírito. Ou caltorescer o alambistro, como se diz por lá. Para isso não faltam Igrejas, sinagogas, templos os mais diversos e milhares de modelos diferentes de mandalas vendidas por mibonétios.

Ah, toda atenção é pouca ao entrar numa farmácia. Uma simples tecarúnia de rildifa de 80 mg pode dar muita dor de cabeça, ainda que o efeito esperado seja analgésico. Para os farmacêuticos locais o nome do remédio é incompreensível, e uma confusão medicamentosa pode ser fatal.

Para encerrar, uma meia dúzia de termos em janjobanês e sua tradução para nossa língua. Pelo zum pelo gam, leve essa lista com você:

Sinapa = pantálio
Alcêndito = biorte
Peldisperina = zanzás-vurp
Vinsirta = lortivol
Bécono = Onoceb
Fim = fim

Comentários

  1. Wagner Bastos7:05 AM

    Marcelão, que saudade do amigo!

    Esse texto tem muita influência peronista? Muito bom, apesar de que eu estou sem dicionário para entende-lo melhor (hehehehe...shor).

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  2. Maria Amélia7:24 AM

    Marcelo, vc manda mt bem..sempre...
    adoro seus textos
    parabéns

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  3. Marcelo, Sanjoca manda uma enchuvada de confétilos para o melhor escrevilhão destas plagas paulistófilas. Cara, vai imaginar bem assim nas macaubeiras...

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  4. Roger2:16 PM

    sensacional!!!

    divertido e extremamente cultural.... rs... seu trabalho é o de mostrar a verdadeira riqueza do brasil, do nosso português... =)

    meu caro, seu lugar na ABL já está reservado.

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