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Mostrando postagens de Julho, 2007

POR FAVOR, NÃO LEIA ESTE TEXTO

A hipótese mais provável é que quase todos tenham acatado a sugestão acima e ido embora. Se normalmente tão pouca gente lê, imagine com o autor pedindo para ser ignorado. Mas vou prosseguir em consideração a você, um dos pouquíssimos curiosos que ficaram.

Acontece que te peguei. E peguei pelo título. Tenho pra mim que só existem duas chances de seduzir um leitor – ou no título, ou logo no primeiro parágrafo. Se não fisgou aí, um abraço. Já era. E como os primeiros parágrafos nem sempre são instigantes ou arrebatadores, especialmente os meus, achei mais prudente apostar todas as fichas num título que despertasse a curiosidade.

Usei desse artifício por instinto de sobrevivência, para salvar meu texto da morte prematura. A palavra escrita é mesmo uma injustiçada nesse mundo regido pela pressa. Silencioso, o texto sofre a concorrência desleal de toda sorte de ruídos e distrações. Televisão ligada, choro de criança, esposa pedindo pra trocar a lâmpada, coceira no dedo do pé, telefone tocando…

OUVINDO GUIOMAR

Para Guiomar Novaes, de São João da Boa Vista, considerada por muitos a maior pianista de todos os tempos.


Sejamos reverentes: é Guiomar que nos toca. Tapetes vermelhos na porta dos ouvidos, rendição ao deslumbramento prestes a começar.
Por Santa Cecília, quem é essa menina que sai de sua província ao pé da Mantiqueira para meter assombro em Ravel e Debussy? Os dedos meninos de Guiomar aos 13, flanando espertos sobre o ébano e o marfim, desconcertante na Paris da Belle Époque.

Andante Cantabile. À respiração suspensa da platéia, farfalha o vestido da ninfa ajeitando-se no banco. Guiomar tem o condão da hipnose coletiva, voa e faz levitar. Solda-se ao negro Steinway e colhe avencas das sonatas de Beethoven. Põe a nu o que Chopin escondia atrás das semicolcheias. Schumann é pintor impressionista, nas mil duzentas e vinte e nove paletas de cores que arranca da partitura. No pentagrama pousam garças quase extintas, tão raras quanto as mãos que as alimentam de bemóis e sustenidos.

Saia do enle…

CARTA DE UM PRESO AO SEU PAI

Modéstia à parte eu me considero um ladrão boa gente, pai. E você sabe que eu sou. Tive a quem puxar, né?
Meus camaradas de cela dizem que homem não chora, que escrever é coisa de fresco. Mas eu estou chorando e escrevendo agora, boiolão assumido, tudo bem. Estou abrindo o coração de saudade sua, meu velho. Segura essa onda comigo, preciso demais de um Habeas Corpus pra te abraçar bem apertado.

Você que me deu a primeira luvinha pra não deixar impressão digital na mamadeira, de lã azul celeste e punho imitando algema, lembra? Você que me ensinou que vergonha é roubar e não poder carregar – e que por isso a gente deve sempre levar um saco bem grande ou ir assaltar de carro. Que sempre me aconselhava a evitar sereno em assalto à noite e a olhar pros dois lados da rua, na hora de fugir da polícia.

Tá viva demais a lembrança de você me mostrando como é que se coloca uma meia na cara. Do dia em que você me levou pra uma festa com seus amigos em Brasília, todo mundo engravatado. Você roubando …

FLUP – FEIRA LITERÁRIA DE UBURUÇÁ PAULISTA

O Dr. Maquigrégor Souza, em sua recente passagem pelo país.


No Brasil é assim: basta que algo faça sucesso para logo em seguida surgirem congêneres copiando-lhe a fórmula e almejando o mesmo resultado. Com a FLIP – Festa Literária Internacional de Parati, não foi diferente. Em sua esteira vêm surgindo dezenas de outros eventos, não tão visados pela mídia mas de notável magnitude pelo nível dos fóruns de discussão e pelo quilate dos autores convidados. Um desses eventos, é forçoso admitir, sobrepuja a repercussão daquele que lhe deu origem. É o caso da FLUP – Feira Literária de Uburuçá Paulista. E provo o que digo com dois singelos exemplos, que recolhi in loco.


Balas Perdidas – Uma saída para o problema, de
Manuel de Lontras, Ed. Manancial Dantesco, 171 páginas.

Todos somos testemunhas da avassaladora invasão dos cinemas do tipo multiplex, com suas poltronas de astronauta e suas mega-popcorns, abocanhando da noite para o dia fatias homéricas do combalido mercado exibidor nacional. É sobre …