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OUVINDO GUIOMAR



Para Guiomar Novaes, de São João da Boa Vista, considerada por muitos a maior pianista de todos os tempos.


Sejamos reverentes: é Guiomar que nos toca. Tapetes vermelhos na porta dos ouvidos, rendição ao deslumbramento prestes a começar.
Por Santa Cecília, quem é essa menina que sai de sua província ao pé da Mantiqueira para meter assombro em Ravel e Debussy? Os dedos meninos de Guiomar aos 13, flanando espertos sobre o ébano e o marfim, desconcertante na Paris da Belle Époque.


Andante Cantabile. À respiração suspensa da platéia, farfalha o vestido da ninfa ajeitando-se no banco. Guiomar tem o condão da hipnose coletiva, voa e faz levitar. Solda-se ao negro Steinway e colhe avencas das sonatas de Beethoven. Põe a nu o que Chopin escondia atrás das semicolcheias. Schumann é pintor impressionista, nas mil duzentas e vinte e nove paletas de cores que arranca da partitura. No pentagrama pousam garças quase extintas, tão raras quanto as mãos que as alimentam de bemóis e sustenidos.

Saia do enlevo por um instante e repare bem no que se passa. Ao contrário do que parece, não é Guiomar quem se debruça ante o teclado, e sim uma dublê da diva. A partner que desvia a atenção do público para perpetuar o truque. Assim que a música começa, a verdadeira intérprete desce à platéia sem que a vejam, nos toma pela mão e nos leva por sendas intrigantes e desconhecidas, trilhas que ela abriu e às quais se adentra por seu exclusivo intermédio.

Não sei, ninguém sabe e possivelmente nem ela fazia idéia do que de fato acontecia quando a mulher e o piano se enlaçavam, e o que esse enlace era capaz de provocar. Só sei que toda vez que o sol desperta, nessa São João quase-Minas, é Sol Sustenido Maior em Allegro Molto Vivace, lembrando a estrela da terra.

Os “vivas” e “bravos” não param com o cerrar da cortina. Há flores no camarim. Não consegue acabar de ler o cartão, tem de voltar ao palco para o terceiro bis. “Melodia de Orfeu e Eurídice”, de Gluck. Perfeito para o Gran Finale.

Guiomar não se bronzeia, não vai às compras, não sabe trocar marchas no automóvel, não aprendeu a fazer arroz nem bico de crochê. Não tem noção de nada prático porque é operária da vida etérea, produzindo encantamentos como quem aperta parafusos.

Último movimento: Adagio con Molta Espressione. Guiomar fria, quem poderia supor, logo ela que era o avesso da frieza. Sai do casarão da Rua Ceará para o Cemitério da Consolação. Foi quando os deuses, deste e de outros mundos, reunidos em concílio, selaram inapelavelmente o destino do piano. Colocaram o feltro vermelho sobre as teclas, fecharam o instrumento e esconderam a chave para sempre.

Comentários

  1. Marcelão, finalmente nos seus textos uma reverência a um ícone crepuscular. E o texto, pra variar, é melódico de acarinhar os mais ecléticos ouvidos. Tia Guigui, onde quer que esteja, está lisonjeada com a homenagem. Aliás, cosmopolita que é, você bem poderia brindar Sanja, vez ou outra, com pílulas macaúbicas.

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  2. amigo, a poesia, assim como a inspiração que vem do céu, se faz afinada com você. deus lhe permita continuar assim, transparecendo o que traz de mais puro em sua alma. parabéns!

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  3. Marieta2:35 PM

    simplesmente MARAVILHOSO......parabens, beijos...

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  4. Anônimo7:49 PM

    Fala MArcelo, o último comentário da noite: tente crescer este texto, colocar mais "romance", acho que a história e o que já fez vale mais trabalho. abç /Állan

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  5. Guiomar Novaes, ainda uma desconhecida no Brasil. Todo o texto em português que faça juz ao seu legado é bem vindo, pena que bata nos ouvidos moucos dos brazucas.

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