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CAETANO, O PARANINFO DA TURMA


Caros alunos,

Como poderia externar minha alegria em compartilhar deste momento tão significativo na vida de vocês?

Na qualidade de professor, talvez a melhor forma de demonstrar minha gratidão seja oferecendo um ensinamento. Na verdade, um episódio de minha trajetória pessoal, que alguns de seus pais hão de lembrar.

Formávamos um grupo de insubordinados, uns daqui do Recôncavo, outros de Salvador. Tínhamos uns cabelões enormes, éramos movidos pela vontade de virar tudo pelo avesso. Sonhos de liberdade estética, ideológica e existencial fermentavam em nossas cabeças, a ponto de se incorporarem às nossas atitudes e até às nossas roupas. Queríamos ir para a cidade grande, tomar o país de assalto com nossas idéias. Bandeiras esquerdistas, movimentos de vanguarda, gritos de guerra que ecoavam no Quartier Latin teriam que ser assimilados, digeridos e transformados em realidade libertadora. Seríamos salvos pela anarquia e, vestidos com parangolés, tomaríamos o poder através da arte. E fomos, de fato, tentar um lugar ao sol na megalópole. Imaginem só vocês, fazia parte dessa insana trupe o hoje consagrado pesquisador de doenças parasitárias da Universidade Federal da Bahia, o Dr. Gilberto Passos Gil Moreira. Quanto ingenuidade a nossa...

Filho pródigo, voltei cabisbaixo poucos meses depois, de violão e mala nas mãos, para contrito pedir a bênção de Dona Canô e me assentar de vez por aqui. Analisando friamente aquela época, me pergunto: quem poderia fazer sucesso com guitarras elétricas em pleno AI5 e entoando letras como “Caminhando contra o vento, sem lenço sem documento, num sol de quase dezembro, eu vou”?

O amargor do retorno trouxe consigo um sentimento de derrota. Foi quando valeu-me o apoio de minha irmã, a enfermeira Bethânia, que sacrificou muitas de suas folgas, entre plantões na Santa Casa, para reabilitar minha auto-estima com palavras de estímulo. A ela serei grato pelo resto dos meus dias.

Tudo nesta vida é aprendizado, e para mim ficou a lição de que devemos buscar sempre a prudência e o bom-senso. Se é salutar o ímpeto revolucionário da juventude, estes devem se contrabalançar pela ponderação e pelos ouvidos abertos aos conselhos dos mais velhos. De quantos dissabores teria me poupado se cedesse aos apelos de meu pai, tentando a todo custo, na estação rodoviária, me demover da decisão de ganhar mundo sem norte definido...

Em nenhum momento me arrependi de trocar aquele projeto quixotesco pelo doce balanço da rede, após o expediente, no sobrado onde resido e onde espero enterrar meus ossos. Não nego que às vezes o bichinho do inconformismo teima em me perturbar. Mas não demora e a invencível preguiça baiana se encarrega de sufocar qualquer tentativa de amotinamento.

Bendigo a todo instante a sorte de reparar a tempo o meu erro. Poderia ser perseguido pela polícia e não estaria aqui hoje, estabilizado em minha carreira docente e titular da cátedra de português da Escola Estadual de Santo Amaro.

Sejam bons engenheiros, médicos, advogados. Sejam bons pais e boas mães de família. Sejam felizes, meus alunos!

Comentários

  1. Muito bom, Marcelo!

    Malu

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  2. Helô Neves5:20 AM

    Marcelo
    encontrei a Malu no sábado e ela me deu uma prévia dessa sua crônica...
    só li agora... demai "muito feeling"... nada contra a M 51, mas o seu
    talento extrapola, meu!!!

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  3. Victor5:43 AM

    Muito bom Marcelo!
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. eita! inspiração livre é assim, amigo - versátil. inspiração realmente livre não nos deixa preso a coisa alguma. taí mais uma linda prova de sensibilidade, emoção e criatividade! seu aluno aqui não perde uma oportunidade sequer de aprender com você.

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  5. Nelson5:29 AM

    Mandou muito bem Marcelo!!!

    Grande Abraço!!!

    Nelson Alexandre C. Marchetti

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  6. Elizete5:33 AM

    Bom dia, Marcelo

    SONHAR E ACREDITAR, ESTE É PARODOXO EXISTENCIAL.

    Grande abraço
    Elizete

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  7. Ana Lucia6:36 AM

    Querido primo
    ötima crônica, como sempre.
    beijos

    Ana Lucia

    ResponderExcluir
  8. Patrícia8:11 AM

    e salve os doces bárbaros! muito bom, Marcelo, me deu até um arrepio pensando que tudo isso poderia mesmo ter acontecido. (só hoje consegui ler).

    bjo,

    Paty

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  9. Marcelão, ô meu rei, como seria o "Leãozinho" do professor de Santo Amaro? Graaaaaaaaaande lavra, só pra variar. Axé pra ti, meu caro...

    ResponderExcluir
  10. Carlos Alberto5:10 AM

    Prezado Marcelo,

    Não sei se o texto é uma ficção ou um discurso real do "mano", o fato,
    no entanto, é que nos remete a um paradoxal, mas agradável saudosismo
    de uma época de "ouro".
    Paradoxal no sentido de que de "ouro" se refere as lembranças de um
    passado, não tão distante, de nossa juventude dita "transviada", mas, que
    se prestou a romper séculos de hipocrisia social que se mantinha sob o
    manto de proteção da tradição, família e propriedade. Pretexto que, no
    extertor de sua agonia, ajudou a lançar para o abismo da ignomínia e
    alienação, por mais de duas décadas, a juventude pensante e crítica desse
    tempo.
    Conquanto, não traduzindo uma idéia de luta e vitória ou derrota, o
    texto, esclarece bem quanto a rumo que muitos tomaram, na tentativa de
    sobreviver ao largo do turbilhão da submissão a qualquer preço.
    Abraços.
    Carlos Alberto

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