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FILHO, UM DIA NADA DISSO SERÁ SEU


O retrato de Paolo era de 1885. O pintor assinava como “Vincenzo Ponti”, e havia sido pintado ainda na Itália, poucos anos antes do velho Paolo imigrar para o Brasil. Sentado numa confortável poltrona, tinha atrás de si uma lareira. Parecia estar trajando algo parecido com um fraque, de tom azulado escuro. Sua expressão não era nem alegre nem triste, nem confiante nem descrente. Apenas olhava placidamente para o pintor, esse tal Vincenzo Ponti que a história não legou à posteridade e de quem só se conhecia a assinatura. Nenhum verbete na Wikipedia ou ocorrência no Google.

A pintura veio para o Brasil junto com as duas malinhas surradas de Paolo e família, e anos depois passou a ornamentar a parede da casa de Luigi, o primogênito.
Correram as décadas, vieram as traças e os cupins na moldura. Melhor chamar um fotógrafo para tirar um retrato do retrato, a imagem de papai não pode se perder – pensou Luigi. Ainda bem que o retrato não se mexia, porque a exposição à câmera era demorada. Se fosse uma pessoa, teria que ficar imóvel por pelo menos 10 minutos. A fotografia retratando a pintura ficava numa mesinha de canto, próxima ao hall de entrada.

Trinta anos mais tarde, Felipe, que havia herdado a casa de Luigi, sacou sua Rolleiflex e prosseguiu com a brincadeira: tirou uma foto da foto da pintura junto à pintura real - a essa altura com a tela em frangalhos, as cores desbotadas e outra moldura no lugar da original.

1967. Com uma filmadora Super-8 na mão, Joaquim preparava a luz para fazer a tomada antes da demolição da casa. Filmou, num único e demorado plano, a foto que seu pai, Felipe, havia tirado da foto que Luigi mandara fazer do retrato de Paolo.

Chegou a vez do Rodrigo, filho do Joaquim, prosseguir com a tradição. Passou para uma fita de vídeo a filmagem em Super-8 feita pelo pai. Agora era um vídeo contendo o filme que mostrava a foto onde figurava outra foto que captou a pintura do falecidíssimo Paolo. Cinco gerações, cinco planos de registros sendo perpetuados.

Mas fita de vídeo oxida, estraga com o rebobinamento, perde qualidade a cada reprodução. Já o DVD, não. Dados digitais são eternos, como eternas tinham que ser as relíquias da família. Hora de passar a fita para a nova mídia.

Deu na televisão e nos suplementos de informática: o DVD, supostamente imune à ação do tempo, mostra sua fragilidade. Muitos estão se apagando, sem causa aparente. Rodrigo decide fazer cópias do DVD familiar para deixar ao pequeno Paolo, assim batizado em homenagem ao patriarca.

Fez 10 cópias. Para maior segurança, cada uma delas de um fabricante diferente. Três vão ficar com o jovem Paolo, que só irá reproduzi-las em ocasiões especiais para evitar manuseios constantes. Seis serão distribuídas para parentes que residam distantes uns dos outros (incêndios, inundações, terremotos ou assaltos podem acontecer, mas não simultaneamente em seis lugares diferentes, a menos que seja o fim do mundo). A última das dez cópias será acondicionada em uma caixa de isopor, sobre a qual haverá um revestimento de cortiça. Acima deste será providenciada uma camada de chumbo, que então será guarnecida por uma forração de madeira maciça fechada por cinco cadeados. A caixa multi-camadas será depositada, junto com as chaves dos cadeados, no cofre de um banco.

Tudo pronto. Dever cumprido, consciência tranqüila, perpetuação assegurada. Mas o sossego durou pouco: agora apareceu o Blu-Ray, nova mídia que irá aposentar definitivamente o DVD comum. E com um nível de confiabilidade de armazenamento nunca antes imaginado pelo homem. Muito menos pelo velho Paolo.

Comentários

  1. Elizete Lee4:44 AM

    A cada dia mais e mais coisas eletrônicas vão aparecendo. A rapidez é tão grande que eu não sei onde irá findar! Tudo é muito frágil e descartável.
    Uma pintura é uma arte duradoura, consegue atravessar gerações.

    Abraço
    Elizete

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  2. excelente blog, excelentes textos, Marcelo.

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  3. Marcelo, lá na frente, quando olharmos para esse inicio de século com o distanciamento histórico, há que se reconhecer este fenomeno internetico e informatico como um, com o perdao do cliche, divisor de aguas na historia humana. E vc é um cara plugado que usa as ferramentas novas para imortalizar o melhor das letras e das tradicoes. parabens, nao so por este texto, mas pelo conjunto da obra, que ja merece constar nos anais da literatura nacional. saudacoes belocas, macaubicas, crepusculares...

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  4. Állan7:02 PM

    Fala Marcelo, muito bacana o contraste da pintura com a tecnologia.

    Dá um choque.

    Abraço,
    Állan

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  5. belo o retrato do paolo. belo porque é retrato seu. não do rosto, do perfil. da alma. e esse retrato aí, pode ter certeza, não se apaga em tempo algum!

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  6. cinthia6:51 AM

    Adorei !!

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  7. Ana Lucia6:56 AM

    Olá primo, tudo bem?
    É isto aí, ficamos obsoletos a cada dia, na informática, nos costumes e
    até nas idéias. A ordem é se reciclar, mesmo sem sebermos o que
    estamos perdendo ou ganhando.
    beijo

    Ana Lucia

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  8. Carolina7:11 AM

    marcelo
    engraçado....como a nossa vida se resume apegos, descobertas e teorias que, no final, nos privam do que é a essência do sentimento originário.... na verdade, a própria lembrança se perdeu, só ficou a caixa!!
    que ironia!
    estive pensando tanto nessas coisas no fim-de-semana que passou..... estamos em sintonia!
    bjs
    nanô

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  9. Léo del Castillo8:11 AM

    Marcelo,

    Nao o conheço mas esse texto é sensacional. Parabéns.

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  10. Carlos Alberto6:47 AM

    Caro Marcelo,

    Tem sido muito agradável a leitura dos seus textos, não apenas pela
    simplicidade de uso da palavra escrita que permite fácil compreensão da
    idéia central, como pelo contexto do assunto-tema que você tem escolhido,
    tanto que, os tenho retransmitido ao rol de amigos que também, sem
    maiores compromissos, ensaiam alguns escritos e a outros que se contentam
    tão somente com a leitura.
    A seqüência histórica da preservação da pintura do “Paolo” me fez
    relembrar um episódio lá dos idos de 62, quando um professor de história nos
    pediu uma redação cujo título era mais ou menos assim: “Como era e
    como é – O que mudou?”. O enredo sugerido tratava do desaparecimento, por
    volta de 1910, na selva amazônica, de um jovem advogado paulista, com
    aproximadamente 25 anos de idade, habituado a vida confortável da
    metrópole e, o seu reaparecimento 50 anos depois.
    Ao longo desse tempo, aquele jovem, perdido na selva e encontrado por
    indígenas, passou a viver naquele ambiente, perdendo totalmente o
    contato com o mundo dito civilizado. Uma expedição de cientistas ambientais a
    Amazônia, no início dos anos 60, por acaso o encontrou, possibilitando
    seu retorno à civilização, com a idade beirando os 75 anos.
    O impacto do retorno foi surpreendente, pois, ao longo dos 50 anos de
    ausência, a sociedade havia se transformado totalmente, não apenas,
    quanto aos hábitos e costumes, como, também, quanto ao desenvolvimento
    tecnológico. Inúmeros produtos haviam sido criados e colocados a disposição
    da sociedade, nesse tempo que, para ele, eram inimagináveis.
    A história finalizava com as surpresas que cada uma das mudanças
    provocava, quando ele entrava em contato com elas, seja no comportamento das
    pessoas ou quanto aos novos produtos e técnicas utilizadas.
    Bem, a idéia central daquele trabalho, era nos fazer pesquisar tudo o
    que havia mudado na sociedade durante aquele período de tempo. Produtos
    como plástico, esferográfica, calçados, tipos de materiais, carros,
    rádio, televisão, máquinas, equipamentos, etc., eram inimagináveis para o
    recém chegado. A própria educação das pessoas, em seus relacionamentos
    sociais, havia sofrido dramática mudança. Era enorme a dificuldade de
    absorção de todo aquele novo conhecimento, especialmente, porque, a
    velocidade das mudanças, considerando o fator tempo, o atordoava. Era, para
    ele, difícil aceitar tão grandes mudanças em um período de tempo
    historicamente curto, comparando-se ao que ele havia deixado para trás,
    quando de seu desaparecimento.
    A essas lembranças, me remeteu o seu texto: “FILHO, UM DIA NADA DISSO
    SERÁ SEU”.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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