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MISSA


A hora em que o Senhor reúne suas ovelhas é a hora em que a província é mais tacanha e ensimesmada, a urbe é vila das almas e todos acreditam piamente na fraternidade entre os homens. Unem-se no mesmo rito o mendigo à porta da igreja e o turco da loja, que não fia nem à mãe. Caciques políticos que não se olham na cara ficam, a contragosto, debaixo da mesma abóbada. Todos perfeitamente equalizados na filiação divina, tentando honrar o que do Altíssimo receberam e merecerem a salvação no dia final.

- Andai com retidão pelos caminhos do Senhor. A quem muito foi dado, muito será cobrado.
O sinal da Cruz com água benta. Um olhar à esquerda e outro à direita, pra saudar os conhecidos antes de tomar assento. O Ministro da Eucaristia repassando a primeira leitura. Alô, sssssssommm.

- Vamos ensaiar mais uma vez o canto do ofertório, na página 3 do folheto.
Amalgamam-se velas, incenso, perfumes finos e populares. A igreja cheia. As velhas com suas novenas e missais, véus negros como os arabescos de jacarandá nos altares laterais. Essas velhas que ali fizeram a primeira comunhão, casaram-se e ali teriam, mais cedo ou mais tarde, sua missa de corpo presente. Enxergam a si mesmas no ataúde, em meio à homilia derradeira, imaginando a figura que fariam, como os parentes as vestiriam para a ocasião. E vagariam, os espíritos já fora dos corpos, pelos comentários de noras e filhos, genros e netos. Saberiam de verdade o que sentiam a seu respeito.

O preto da batina do padre, o vermelho vivo dos paramentos, o branco das pipocas estourando lá na praça.
- Será que teria mais um lugarzinho aí?
Cinco em um banco fica apertado, mas não é cristão negar. Oremos. Adoremos. Louvemos. Divaga o pensamento nas asas dos anjos pintados no teto. O confessionário, agora vazio, tão procurado nas horas mortas pelos reincidentes nas faltas capitais e veniais. O padre ouvindo, ouvindo sem olhar no rosto. Uma cortininha roxa e uma treliça de madeira separando o pecado da absolvição.

O toc-toc do salto alto de Dona Bela, ecoando igreja adentro. Poucos sabem seu nome, raros lhe dirigem a palavra. Estranha e circunspecta, a blusa fechada por uns duzentos botões. Sempre chega dez minutos antes, hoje atrasou. Religiosamente senta-se no mesmo banco, o terceiro à esquerda do altar.
Os olhares estáticos dos santos, como que impassíveis diante das preces.
Genuflexório de reflexões. A luz das nove da manhã, coada pelos vitrais, batendo na pia batismal.

- Esse sermão que não acaba mais. O padre hoje está inspirado.
Tudo muito mais solene no tempo do Advento. Olha que lindo o presépio, festões verdes e dourados, cachoeira ao lado da manjedoura. Estranho à liturgia e alheio ao que se passa, o cachorro pulguento fica pra lá e pra cá. Só de igreja tem uns quinze anos. Deve se sentir acompanhado e protegido. Um cão guardado por Deus. As mãos trêmulas do dono da farmácia passeando pelos mistérios do Rosário. Vem com os netos, uma fileira de pimpolhos. Cabelinhos repartidos, banho tomado, roupa de sair. Na hora do “saudai-vos uns aos outros”, vai um tempão até beijar todos eles. O farmacêutico era ateu. Até que teve um negócio, se agarrou ao Poderoso, pediu com fé sua cura, foi atendido e aí está. Convertido e devoto.
- Ave Maria, Gratia Plena, Dominus tecum...
As colunas, arcos e ogivas a elevarem aos céus os clamores de misericórdia e as alegrias pelas graças alcançadas.

O corpo leve: é a paz na alma. A bênção final, amém.
- Olha a pipoca, quebra-queixo, amendoim... Um coquinho para o seu menino?
- Levo sim. Dessa bexiga ele também vai gostar muito.
E lá vão eles, a passos lentos retornando às suas vidinhas, carregando nos corações todo o bem do mundo de meu Deus.

Comentários

  1. Marieta5:05 AM

    Oi mano, tudo bem co vcs? Adorei o texto

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  2. Marcelo, muito boa, estou repassando.
    Grato, abs!
    Pepe

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  3. Filipe Moretzsohn3:06 PM

    Nego, Dominus tecum fio de Deus!!
    Parabéns pelo texto, gostei bastante.

    Sgrilóides

    ResponderExcluir
  4. Carlos Alberto4:02 PM

    Caro Marcelo,

    Mais um belo “insight”, dos devaneios de um observador irreverente, com
    uma pitada de ironia na ponta dos dedos, transmitida ao teclado do
    computador, comandados por neurônios ávidos por destruir o imanente
    “status-quo” do falso moralismo, deixando a descoberto, a verdadeira
    hipocrisia de muitos de nós.
    Existem momentos em que nos encontramos em certos textos, pois traduzem
    aquilo que sempre pensamos a respeito de um determinado assunto ou
    situação e que por qualquer razão, ainda, não soubemos como exprimi-lo com
    a necessária propriedade. Então, descobrimos admirados que outros,
    também, observam as mesmas coisas e as registram, para que a perenidade se
    encarregue de manifestar e transmitir esse amiúde conhecimento das
    “coisas”.
    A “Missa” foi um desses felizes encontros entre um texto e algumas de
    minhas convicções. Razão porque, desde há muito procuro separar
    “religiosidade” de “religião”.
    Entendo que é muito fácil professar uma religião ou dizer-se de uma
    religião, seja ela qual for, seguir seus ritos litúrgicos, demonstrar,
    pela aparência crédula de benevolência e benignidade, aos vizinhos, no
    banco da igreja ou templo, para depois, fora dos muros destes, dar
    continuidade a uma vida de mesquinhez, arrogância, intolerância, corrompendo
    ou deixando-se corromper por inescrupulosos interesses e, até mesmo
    conspurcando contra a honra e a dignidade daqueles outros a quem chamou de
    irmão e apertou-lhe a mão, durante o ato litúrgico dizendo: “a paz de
    Cristo esteja contigo”.
    A religiosidade, ao contrário, exige daquele que a tem, em sua mais
    perfeita essência, uma nobreza impar de espírito, transcendente a religião
    que professe assegurando um comportamento de verdadeira devoção e
    piedade.
    A história da humanidade, de uma maneira ou de outra, nos fornece
    algumas explicações sobre as raízes desse comportamento ambíguo e paradoxal,
    que encontramos em alguns dos assíduos freqüentadores dos templos
    religiosos.
    Entendem muitos que a cabine do confessionário é o verdadeiro caminho
    para a limpeza da alma e que, após repetir, sem prestar muita atenção às
    palavras, umas poucas “ave-marias e pais-nosso” se sentem absolvidas
    pelas faltas reincidentemente cometidas, o que lhes proporciona aquela
    leveza espiritual transitória com que deixam o templo religioso,
    esquecendo-se por completo, de que o verdadeiro perdão não estava na cabine,
    mas, dentro da própria consciência de cada ser humano.
    Longe de mim qualquer associação de idéias como críticas a uma
    instituição religiosa, porquanto, meu foco de comentário se destina única e
    exclusivamente as evidências mais do que provadas sobre o comportamento
    humano de alguns para não dizer muitos.
    No entanto, cabe aqui, para finalizar, um elogio sincero que desejo
    fazer ao padre Julio* da igreja de São Pedro em Campinas, São Paulo, onde
    estive recentemente para o batizado de minha netinha caçula. Foi a
    primeira vez, desde que me conheço por gente, que presenciei em uma igreja
    católica, Bíblias a disposição dos presentes, em todos os bancos e,
    muito mais importante do que a simples disponibilidade física do Livro
    Sagrado, foi a chamada dos fiéis para leitura de alguns textos utilizados
    na homilia. Esse é o verdadeiro espírito do despertar da consciência de
    religiosidade que, já não era sem tempo.
    -----------------------------------------------------------------------------
    * Escuso-me por não saber o nome completo desse padre que merece esse
    elogio.

    Um forte abraço
    Carlos Alberto

    ResponderExcluir
  5. Paulo Carlini4:28 AM

    Tenho lido e relido suas crônicas e quero dizer-lhe com toda a sinceridade que vc é ótimo. Redige com impecável correção e coloca seu leitor de maneira sutil dentro do contexto. O resultado é um texto gostoso, temperado com alguma ironia, porém pleno de verdades.

    ResponderExcluir
  6. Wagner Bastos4:32 AM

    Marcelo, muuito bom, gostei muito dessa.....você sabe da minha atividade religiosa.....

    ResponderExcluir
  7. "orai e vigiai", foi o que disse o mestre. se há os sem fé, oremos por eles! esta e a nossa vigília, amigo! minha e sua! abraços!!

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  8. Maria Amélia5:19 AM

    nossa, vc frequentava as missas pinhalenses, neh? é mto o que acontece lá...........

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  9. Elizete Lee5:38 AM

    Marcelo, Bom Dia!

    Até uma "enfadonha" missa, torna-se poética em suas palavras, e mentalmente, eu até lembrei dos meus tempos em que cantava no coro da igreja. KKKKKKKK

    .."Segura na mão de Deus...segura, pois ela me lá, lá, lá.....lá...

    Um abraço
    Elizete

    ResponderExcluir
  10. Helô Neves5:53 AM

    adorei!!!!!
    beijo e boa semana

    Helô

    ResponderExcluir
  11. Ricardo Paoliello6:10 AM

    Por acaso esteves recentemente em alguma missa em Jaguariúna?
    Abraços e amém.

    ResponderExcluir
  12. Ana Maria - M516:14 AM

    é exatamente assim não é???

    ResponderExcluir
  13. GIL BARROS1:19 PM

    Gostei muito. Você retratou fielmente a realidade que eu, pelos anos vividos, tenho constatado. Não nega que você é um Sguassábia, herdeiro do meu grande amigo João Batista.

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  14. Ana Lucia7:24 AM

    Oi primo, tudo bem?

    A descrição é pergeita. A gente até pode enxergar. As roupinhas de domingo minha mãe chamava de "roupa de ver Deus", ela que foi criada na igreja católica.Para nós, eram os vestidinhos feitos pela Vó Dolorosa. Muito bom, como sempre.
    beijos

    Ana Lucia

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  15. Dom Marcellus Sguassabius, amém, letras nas alturas! Texto bendito... parabéns mais uma vez pela invejável capacidade narrativa.

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