Pular para o conteúdo principal

SARAU DO BOCA-SUJA

Foto inédita da dupla Boca-Suja e Cala-Boca, que divertiu gerações de peraltas. Boca-Suja é o primeiro da esquerda para a direita.



Há quem odeie o domingo por ser o prenúncio da segunda-feira ou por considerá-lo um dia morto, dedicado ao fastio que acomete o populacho pela ingestão desmedida de talharini e bracholas no decorrer do período.

Se não falta quem reserve estas preciosas 24 horas à rebordosa gástrica, outros optam por gastá-las empanturrando o cérebro. A esta segunda categoria pertence o imenso público que lotou as dependências do Parque Municipal de Exposições, para mais um glorioso Sarau.

A maratona artística teve início com uma saudação de boas-vindas aos presentes, pela surda-muda Helena Somoza. Concluída a preleção, abriram-se as cortinas para o Prof. Joãozinho, que nos brindou com uma apresentação de sapateado sobre o Concerto para Lata de óleo Mazola e Orquestra, de Dimitri Rothje. Notando a calorosa reação da platéia, o catedrático empolgou-se, pigarreou por quatro minutos seguidos e emendou logo um tratado, inédito desde a década de 40, que versava sobre os índices de leitura da notas de rodapé nas teses acadêmicas. Nada mais leve e digestivo, se compararmos com o nauseante torpor causado pelo seu colega literato, o intragável Stephan Becas, que no ano anterior leu de uma enfiada as 48 primeiras páginas de “Os Sertões”, traduzidas para o coreano, sem uma única pausa para água mineral.

Após um breve intervalo, onde foram servidos alguns poucos croquetes em temperatura ambiente, alunos da terceira série do Ensino Médio improvisaram um jogralzinho da tabuada do 2, recitada sem titubeios pela turma de sabichões. Em delírio coletivo, a audiência explodia em vivas e exigia bis. Não tendo ensaiado mais nada para a ocasião, o grupo repetiu os mesmos números anteriormente apresentados: dois vezes um é igual a dois, dois vezes dois é igual a quatro, e assim por diante, até o final apoteótico que todos conhecem.

O domingo prosseguiu com a subida ao palco do mezzo-barítono Pompeu D’Alencastro, para um “Ciranda, Cirandinha” com acompanhamento de seu sobrinho em quarto grau, natural do distrito de Dadeiras, o tubista Dezo Malaquias. Obra de fôlego, repleta de ciladas harmônicas e melódicas à espreita do intérprete incauto, o “Ciranda, Cirandinha” da dupla causou estupendo furor. Sentada na terceira fila, Dona Leonilda Viegas comentava, à boca pequena (mas não suficientemente pequena aos ouvidos atentos deste repórter), que a versão ora apresentada em nada ficava devendo às de Bidu Sayão e de Leny Eversong, até então tidas como definitivas pela crítica especializada.

Lá pelo final da tarde, o ponto culminante: a análise grafológica, exposta em powerpoint, de uma carta de autoria do saudoso palhaço Boca-Suja, que marcou época na região de Nova Panhoca com seu cirquinho mambembe. Relatos dão conta de que foi sob os furos de suas tendas que se deu o debut artístico de Roni Fon, imitador do quase homônimo ídolo da jovem guarda, e de Ted Boy Marino, antes do mesmo despontar para o estrelato com o telecatch “Os Reis do Ringue”. A citada carta foi atestada como autêntica por peritos da Unicamp e estará disponível para consulta dos munícipes até o próximo dia 26, no salão nobre do Convento dos Franciscanos Descalços.

Encerrando as tertúlias do dia, um anônimo pediu a palavra e procedeu à leitura deste texto, assinado por um tal Marcelo Sguassábia, sujeito de quem ninguém ali tinha ouvido falar e nem pode imaginar agora o paradeiro.

Comentários

  1. Marcelo, para o próximo sarau, por favor, não deixe de convidar o grego radicado em Sanja, Greg Belokis. Ele, hoje, é expoente maior dos contos em estilo art macaubeau.
    Quanto ao paradeiro do tal MS, corre por aí que ele vive numa prosaica barraca nos arredores do Pedregulho, onde além de escrever com maestria, cultiva o coquinho mítico, amarelado e gosmento.

    ResponderExcluir
  2. Paulinho Marsiglio2:23 PM

    Grande Marcelo,

    Gostei muito!

    Poderia fazer um curta-metragem do texto,

    Aqui em Brasília existia um senhor chamado Mário Garófalo, locutor da Rádio

    "BrasíliaSuperRádio", que nos finais das tardes de 2ª feira, transmitia lá do

    Conjunto Nacional, ao vivo, um programa de nome "Sarau Musical", com algum

    convidado ao piano tocando aquelas músicas do finado Cine Cacique(?) lá de

    Pirassununga.

    Seu texto eu li com a narração do finado Garófalo.

    Um abração,

    Paulinho Marsiglio.

    ResponderExcluir
  3. João5:19 PM

    Gostei. Achei ótima.
    Parabéns! Segunda-feira iremos para São João, onde
    pretendemos ficar até o dia 31 deste. Feliz fim de semana
    para todos. Beijos de seus pais.

    ResponderExcluir
  4. Alan Sanvezzo5:11 AM

    ahahahaahahahahahahahhaa

    Por Deus cara, o que você faz com a tua vida, dedicando 8 horas do dia pra escrever propaganda de Pneu.
    Muda logo!!!

    Genial essa!!!!
    Ainda fez a homenagem ao nosso grande Rogério Rothje.

    ResponderExcluir
  5. Mario Bonzani10:04 AM

    Aprecio sua criatividade pontual, virtual e digital, não é uma
    exclusividade sua sonhar, mas colocar sonhos em frases sim. Um fato
    raro
    hoje em dia nesse mundo às avessas, ordenar as idéias e transmiti-las
    claramente.
    Mario

    ResponderExcluir
  6. José Carlos Carneiro12:25 PM

    De onde você tira estas tuas crônicas só você deve saber e saber como burilá-las. Tornar o burlesco, o grotesco, em algo divertido é para poucos, se bem que estas coisas, mesmo sendo, por si só, inusitadas, um toque de arte cai como uma luva, uma luva cirúrgica, pois o médico é, no mínimo, pra lá de PhD. Outro dia bolei uma piada. Não sei se você é partidário de certas baixarias, mas qualquer hora mando-a. Do livro do Fernando Pessoa, Aforismos e Afins, que no caso usa um dos seus vários heterônimos, Alberto Caeiro, lá vai uma que achei genial: "Duvido, portanto penso". O cara era fora de prumo, como nunca negou. Outra, creio (que memória precária, mas qualquer dia me asseguro, se bem que é quase certo ser do livro O Elogio da Loucura, do Erasmo de Roterdam): "O gênio é irmão do louco e em tudo enxergam extremos". Falei antes em baixarias. Já parti para algumas, se bem que baixarias nesse padrão são melhores que os mais badalados discursos de políticos deste país. Vá dormir com um barulho desse! By by.

    ResponderExcluir
  7. Helô5:03 AM

    sempre te achei inteligentíssimo, brilhante... mas que tipo de droga vc usa? pq vc não pode escrever td isso sóbrio...
    cara, muito bom!!!!
    boa semana
    bjks
    Helô

    ResponderExcluir
  8. bixo, preciso urgentemente conhecer este meu tio russo(?). sensacional e hilária vossa viagem literária, amigo! obrigado pelo carinho!

    ResponderExcluir
  9. Maria Amélia5:27 AM

    Muito bom, Marcelo!!
    Faço das palavras do Alan as minhas..................
    Adoreiii!!!!!!!!!!!!
    ----- Original Message

    ResponderExcluir
  10. Que domingo, hen?
    Mais pesado que o "Domingão" de nosso popular Fausto...

    Beijos
    Malu

    ResponderExcluir
  11. Paulo1:57 PM

    Escuta aqui, Marcelo: seu talento está cada vez mais saltitante, que
    nem pipoca na panela. Parabéns por mais um texto pianístico (se é que
    isso existe), pois suas palavras são escolhidas a dedo para que cada frase
    soe como música.

    Abrs,

    Paulo

    ResponderExcluir
  12. Elizete Lee6:47 AM

    É uma pena eu não ter comparecido a este sarau! Puxa eu perdi sapateado de os Sertões!!

    Parabéns Marcelo, como disse seu amigo "Alan" você é um talento! Esquece os pneus... ahahah

    Abraços

    ResponderExcluir
  13. Carlos Alberto5:18 PM

    Sensacional, tenho lido seus artigos e, afora o riso que se faz
    presente, em mim, da primeira a última linha eu os associo de algum modo a um
    cotidiano menos abstrato. Mas, sem dúvida, esse texto me pareceu o mais
    hilário de todos até agora.
    Como costumo ler os textos parágrafo a parágrafo sem saltos quânticos,
    de início, imaginei fosse você enveredar para o campo dos patéticos,
    para não dizer algo menos cortez, “Domingão do Faustão” ou “Domingo
    Legal” do Gugu, como prova do empanturramento mental da esmagadora maioria
    dos brasileiros, nas tardes de domingo.
    O “Sarau do Boca-Suja” me pareceu um misto das apresentações que
    ocorriam nos antigos coretos e em tendas circenses montadas com esmero em
    terrenos baldios espalhados pelos bairros, em geral, na periferia das
    cidades, destas últimas minhas doces lembranças infantis dos saudosos
    Carequinha, Arrelia e Pimentinha, Fuzarca e Torresmo e, porque não, das
    chamadas lutas livres, sempre bem ensaiadas, dos “Teds boys Marinos”.
    Porém, ao mesmo tempo, você consegue nos remeter aos idos tempos do
    primário e ginásio, onde a arte teatral, hoje cênica, se desenrolava em
    quase todas as escolas, conduzindo a “molecada” a aprender sem sofrimento
    e com real absorção, quase na prática, desde literatura até a física e
    matemática, passando naturalmente, pela história e geografia,
    podendo-se começar até por multiplicar “dois vezes dois”, que de número
    racional facilmente se transformava em personagens da emoção e encantamento
    das pessoas.
    E então, o que dizer, das operetas e corais às tardes e às noites de
    sábados e domingos, apresentadas nos coretos de quase todas as cidades do
    interior, era cultura pura transmitida gratuitamente a pobres e ricos,
    quase sem distinção.
    As pessoas conversavam, trocavam opiniões sobre o que assistiam e não
    recebiam todas aquelas influências como que provindas de um mutismo
    intolerável e insensato. E, nisso, Dona Leonilda estava certíssima em seus
    comentários, pois a versões tupiniquins de grandes obras estrangeiras,
    ainda que de eras medievais, em nada ficava devendo aos seus originais,
    pelo contrário, os engrandecia.
    Trocando impressões a vista do documento colocado a disposição no
    Convento dos Franciscanos descalços, não há porque duvidar da veracidade da
    história do início de carreira daqueles astros que ajudaram a
    desenvolver a imaginação da criançada de então.
    Nesse cenário de regozijo do sarau dominical, Marcelo Squassábia,
    jamais passaria despercebido, até porque, já lhe teriam pedido inúmeros
    autógrafos, antes que seu texto fosse lido para a platéia esfuziante, mas
    ansiosa e sedenta por saber o que ele havia escrito.

    Um forte abraço
    Carlos Alberto

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…