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Mostrando postagens de Novembro, 2007

BIG BROTHER SONORO

- Um diário fonado.
- Como assim, um diário fonado?
- Você liga um desses gravadorzinhos digitais e vai gravando tudo o que se passa. Eu disse tudo. Mas não um diário como os outros, onde alguém narra o que acontece de mais importante. É a vida gravada mesmo, um “Show de Truman” em áudio. Quando a memória do gravador estiver cheia, descarrego no computador e começo a gravar de novo, indefinidamente. Dia após dia, ano após ano.
- Ah, sei. Você desperta e vai dizendo: “abri os olhos, são seis e trinta, coloquei os dois pés no chão, primeiro o direito, depois o esquerdo, calcei os chinelos”...
- Pára, eu tô falando sério. Não é descrever o que rola, é viver com o gravadorzinho ligado. Como um “Big Brother”, mas sem as imagens. Olha só, agora mesmo estou gravando nossa conversa, que vai ficar pra posteridade. Veja aqui o bichinho escondido no meu bolso.
- Que idéia maluca. Pra que isso?
- Hoje pode parecer absurdo, mas imagine o valor de um documento assim pras próximas gerações. A sociedade do…

NATAL DE ARAQUE

- E então, como foi na entrevista?
- Vou ter que engordar uns 22 quilos se quiser pegar a vaga de Papai Noel. O recrutador disse que a barba está boa, mas meu rosto está muito chupado.
- Só que pra você engordar vai ter que comer, e se tivesse o suficiente pra comer não tinha que procurar esse bico. Não dá pra colocar uns enchimentos debaixo da roupa? Um almofadão, um edredon fofo?
- Não adianta... Papai Noel tem cara gorda, tem braço gordo. E nos gordos de verdade até a voz é diferente. A minha é um fiapo, Maria... parece aquelas de Pato Donald quando entrevistam bandido no Jornal Nacional.

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Bem, analisamos todos os candidatos e apesar da magreza optamos por você. O esquema é o seguinte: você acomoda o peste nos joelhos e faz o interrogatório, observando rigorosamente esta sequência:
. Você é um bom menino?
. Se comportou durante o ano?
. Obedece papai e mamãe?
. Vai bem na escola?
. Come toda a chicória do prato?
Depois de ouvi-lo mentir em todas as respostas, você pega a cartinha da m…

ZEN

Entre um mantra e o nada, preferia o mantra. Impossível tarefa mais infecunda que trazer o vácuo ao pensamento. Pelo menos o mantra era alguma coisa em que se concentrar.

Pensar o nada já é pensar algo, dizia para si mesmo enquanto sorvia o chá verde em goles curtos. Tinha mais 14 dias pela frente, sozinho na casa sem móveis, e nada iria demovê-lo da viagem interior que se prometera. Qualquer estalido ecoava na sala de lajotões, com suas janelas abertas à arrebentação do mar. Ninguém ali além dele e sua intenção de auto-resgate.

Ontem havia passado o dia todo na praia, controlando a respiração, puxando o ar lenta e profundamente, sentindo a musculatura abdominal em seu trabalho de encher e esvaziar os pulmões. Estava pronto para abandonar o corpo, para as viagens astrais e todas as demais promessas dos guias iogues e de esoterismo. O corpo deixaria-se levar, já a mente... era estafante manter-se imóvel transcendendo a escuridão dos olhos fechados. Missão ingrata parir mandalas nesse bre…

QUANDO JOBIM ENCONTROU ELEANOR

Em instâncias celestes acontecem fatos um tanto inusitados. Foi num dia desses, perdido na eternidade, que se deu o ocorrido.


- Ah, look at all the lonely people... la, la, la, la, la, la, la... ah, look at all the lonely people...
- Ah, só é lonely porque quer... olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
- Falou comigo, moço?
- Lógico, seria impossível não lhe dirigir a palavra. E obrigado pelo “moço”.
- Espera aí, seu rosto não me é estranho. Você não é o Tom?
- Em alma e espírito, às suas ordens.
- Sou a Eleanor Rigby. Já deve ter ouvido falar de mim, aquela da música dos Beatles.
- Sim, sim, claro. Que mundo pequeno, meu Deus. Tá inteirona heim, minha filha? Não é à toa que aqueles cabeludos se encantaram por você.
- Na verdade o Paul McCartney teve a inspiração olhando pra minha sepultura. Achou bonito “Eleanor Rigby” escrito na lápide e fez a canção. Fiquei célebre sem ninguém ter me conhecido, fui uma anônima na Londres entre a era vitoriana e o começo da Segunda Guerra. Cheguei a…