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BIG BROTHER SONORO



- Um diário fonado.
- Como assim, um diário fonado?
- Você liga um desses gravadorzinhos digitais e vai gravando tudo o que se passa. Eu disse tudo. Mas não um diário como os outros, onde alguém narra o que acontece de mais importante. É a vida gravada mesmo, um “Show de Truman” em áudio. Quando a memória do gravador estiver cheia, descarrego no computador e começo a gravar de novo, indefinidamente. Dia após dia, ano após ano.
- Ah, sei. Você desperta e vai dizendo: “abri os olhos, são seis e trinta, coloquei os dois pés no chão, primeiro o direito, depois o esquerdo, calcei os chinelos”...
- Pára, eu tô falando sério. Não é descrever o que rola, é viver com o gravadorzinho ligado. Como um “Big Brother”, mas sem as imagens. Olha só, agora mesmo estou gravando nossa conversa, que vai ficar pra posteridade. Veja aqui o bichinho escondido no meu bolso.
- Que idéia maluca. Pra que isso?
- Hoje pode parecer absurdo, mas imagine o valor de um documento assim pras próximas gerações. A sociedade do futuro saberá como era a vida das pessoas no século 21. Eu digo a vida íntima, o cotidiano nu e cru, entende? Nossos bisnetos herdarão uma relíquia de incalculável valor histórico. Nunca ninguém fez isso antes. Imagine se você pudesse ter acesso ao registro da vida da sua bisavó, minuto a minuto. Não seria sensacional?
- Isso inclui cada instante vivido, sem intervalos?
- Claro. Se editar, perde a credibilidade.
- Sei, e quando a gente estiver na cama? Vai que alguém rouba a traquitana e devassa nossa intimidade, pensa bem... Outra coisa, e na hora de ir ao banheiro? Entram até, digamos assim, as manifestações orgânicas de caráter involuntário? O barulho da descarga? As escovações de dente?
- Tudo, ininterruptamente, até o último suspiro.
- Que mórbido.
- Gravaremos o primeiro choro do nosso filho, os gritos na montanha russa, os rojões nos jogos da Copa, pessoas reclamando da fila que não anda, o motorzinho no dentista, a fala dos pedintes nos semáforos... não vamos mais correr o risco de não lembrar das coisas. O inventário detalhado da existência estará sempre à mão. Basta um “rewind” pra reviver os melhores momentos.
- Bom, já que é pra registrar, por que não faz isso em vídeo?
- É que aí a gente vai querer ficar arrumadinho o tempo todo. Quando uma câmera é apontada pra você, acabou a espontaneidade. Fora que o áudio vai mexer mais com a imaginação de quem estiver ouvindo lá no futuro. É como as radionovelas, só que uma radionovela real, que dura décadas. Se Deus quiser, né.
- Ok, suponhamos que você viva mais 50 anos. Será meio século de áudio estocado. Se algum louco se meter a escutar isso, vai perder 50 anos da própria vida pra ouvir o que você gravou. É preciso muito amor à sua pessoa ou à pesquisa antropológica, não acha não?
- Mas também não é assim. As 8 horas diárias de sono não seriam gravadas, porque aí não acontece nada mesmo. Seriam 16,6 anos de gravação a menos.
- Ah bom, aí já dá pra encarar a empreitada. São só 33 anos na escuta! Ora, tenha paciência.
- Repare que interessante metalinguagem: estou gravando você falando da gravação que a gente está fazendo. Maluco, né?
- Então, mas o problema...

(Neste momento, aparentemente, houve pane no gravador. Não há registro da continuação da conversa).

Comentários

  1. Sandra4:17 AM

    adorei Marcelo, já dei boas risadas logo cedo. Você sabe como se chama " brain storm" em Minas Gerais? Toró de parpite!!!!
    abração e bom domingo
    Sandra

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  2. Anônimo3:12 PM

    Marcelo, genial e muito engraçado, só pra variar... "as manifestações orgânicas de caráter involuntário"; isso é tucanês na sua forma mais crua. fantástico.
    abraço
    Lauro

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  3. Ana Lucia6:01 AM

    Oi Primo, tudo bem?
    Pois é, haja pilha!
    beijo

    Ana Lucia

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  4. Anônimo6:03 AM

    Nego!!! REC nisso: bom demais seu idiota.
    Grande abraço,
    Sgrilóide.

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  5. Maria Amélia6:26 AM

    que coisa lokaaaaaaaa, marcelo...fala sério.......imagina a gente gravando o dia-a-dia naquele lugar doido q a gente trabalha?

    bjossssssss
    ps: mto bom..sempreeeee

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  6. Ana Maria9:32 AM

    muito louco Marcelo, mas realmente muito legal!!!!

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  7. Helô Neves3:26 PM

    adoro as suas crônicas, TODAS, mas as duas últimas estão uma delícia!!!

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  8. elizete lee3:17 PM

    Imaginemos a cena:
    O cara com seu díario fonado com mil horas de gravação, sendo carregado no bolso de trás da calça, de súbido corre ao vaso sanitário e sem perceber lá se vão as vozes pelo esgoto a fora.

    Legal demais!

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  9. Carlos Alberto6:44 AM

    Caro amigo Marcelo,

    Diametralmente oposto ao “desassossego” que por acaso li antes deste, embora, este anteceda aquele. Não desejo inferir qualquer juízo de valor a temática dos seus textos, até porque, leio todos com a mesma atenção e disposição para comentar minha percepção sobre eles sem qualquer intenção crítica, de certo, que como você mesmo disse: “O jogo de palavras é de gosto discutível,...”.
    Este nos remete a dois outros textos lidos anteriormente e, peço-lhe que me perdoe por não me lembrar os títulos neste momento, embora eu os tenha armazenado em mídia, porém, desejando compensar três semanas que deixei de ler, na íntegra, as mensagens recebidas, por absoluta falta de condições materiais e tempo, minha pesquisa retardaria ainda mais as respostas em retorno a atenção dos meus amigos em municiar-me com seus trabalhos.
    Porém, o contexto de ambos ainda permanece em minha memória. Um se referia a um quadro pintado, digamos de um “tataravô” que foi passando de geração em geração perdendo gradual importância a cada novo herdeiro que o recebia, até por fim, ser deixado na parede com a venda do velho casarão sem significado algum para os compradores.
    O outro, tratava da evolução dos meios de registros históricos, em síntese, uma reflexão sobre o que consideramos como “arquivo definitivo” sem jamais o ser, pela simples razão de que os meios, ainda conhecidos, para perenizar informações, de um modo ou de outro se deteriora com o tempo, exigindo sempre a transferência para outros e novos meios, de tempos em tempos.
    Se desconsiderarmos o humor e a ironia intrínseca deste texto, e que muito me agrada, os crentes em destino pré-determinado lhe diriam que você estaria “fazendo chover no molhado”, porque, desde o nascimento até a morte do indivíduo tudo estaria previamente escrito e nada do que este fizesse poderia interferir ou modificar a sua “sina”, ora, então, para esses, seria puro desperdício de tempo registrar aquilo que já estaria registrado desde todo o “sempre”.
    Porém, para os antropólogos, arqueólogos, e outros “ólogos”, seria uma dádiva incalculável poder ouvir o que “Cleópatra dizia a César” ou a verdadeira história de vida do “Rei Arthur”.
    Entretanto, para aqueles, como eu, de menor curiosidade sobre a vida alheia e, cético quanto a um destino previamente traçado, nos resta uma boa e sonora gargalhada, após parabenizar o amigo Marcelo, por mais uma agradável “sacada” ironizando o “reality show” do cotidiano.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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  10. Não teremos como desdizermos o que dissemos , está aí a prova: pior que telefone grampeado. Uma mão na roda para a Polícia Federal. Esse procedimento deveria ser obrigatório para políticos , aparelho fixado na carne durante todo o mandato. Queria ver!!

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  11. Para quem dorme, sempre dormiu, e continuar dormindo oito horas, das vinte e quatro de cada dia, ou seja, um terço de cada dia, terá dormido um terço da vida, e gravados todos os ruídos que provocou, ou ao seu redor foram provocados por terceiros, nos outros dois terços de sua vida. Se viver 75 anos terá gravados os ruídos de 50 anos. Muito bom.

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  12. Muito bom, como sempre meu caro Marcelo. Até porque tenho rascunhado há muito tempo nos meus guardados uma ideia parecida, vamos ver se um dia sai.
    Adorei, já pensou se todos passassem a usar a sua ideia, tirariam muitas dúvidas e resolveria pendengas onde cada um "ouviu" o que quis. Abraços e boa semana. ♥

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