Pular para o conteúdo principal

ZEN


Entre um mantra e o nada, preferia o mantra. Impossível tarefa mais infecunda que trazer o vácuo ao pensamento. Pelo menos o mantra era alguma coisa em que se concentrar.

Pensar o nada já é pensar algo, dizia para si mesmo enquanto sorvia o chá verde em goles curtos. Tinha mais 14 dias pela frente, sozinho na casa sem móveis, e nada iria demovê-lo da viagem interior que se prometera. Qualquer estalido ecoava na sala de lajotões, com suas janelas abertas à arrebentação do mar. Ninguém ali além dele e sua intenção de auto-resgate.

Ontem havia passado o dia todo na praia, controlando a respiração, puxando o ar lenta e profundamente, sentindo a musculatura abdominal em seu trabalho de encher e esvaziar os pulmões. Estava pronto para abandonar o corpo, para as viagens astrais e todas as demais promessas dos guias iogues e de esoterismo. O corpo deixaria-se levar, já a mente... era estafante manter-se imóvel transcendendo a escuridão dos olhos fechados. Missão ingrata parir mandalas nesse breu. Olhar o pensamento se formar, pensar sobre o pensamento, deixá-lo gentilmente desfazer-se no império da insubstância.

Sentiu duas mãos sobre os olhos. Delgadas, lisas. Mãos de mulher, indefinida mulher. Apalpa um pouco, sondando a pele e as veias. Agora nem tão indefinida assim.

Tá achando que faz surpresa. Se soubesse o quanto incomoda, aparecendo nessa hora de busca e de definição, não faria mais isso. Tínhamos combinado esse recesso, ela mesma é quem propôs. Não pode botar a perder a chance de nos tornarmos indivíduos outra vez, por mais espinhosa que seja essa vereda. Por que ceder agora, a meio caminho?

Foi bom enquanto havia fogo e glória, o fogo dos instintos e a glória deles satisfeitos. Eu brindo com chá verde aos nossos dias cor-de-rosa, o avesso dessa coisa morna a que nos reduzimos. Era quando a possibilidade da sua vinda, o seu bater na minha porta trazia tudo o que uma mulher podia trazer a um homem.

Manteve a espinha ereta e o coração tranqüilo, como diz a música de uma época que ela teimava em trazer à superfície. Já ele aceitaria mais conformadamente a idéia de que se fechara um ciclo, e que não poderiam se pertencer de novo. Fez que não a reconhecia. Pensou em dizer outro nome de mulher, pra cortar de vez qualquer esperança. Faltou coragem, se sentiria um cafajeste. A respiração entrecortada da mulher em sua nuca exigia reação dele. Tinha de dizer alguma coisa, por menos que houvesse o que falar. Foram os quinze segundos mais demorados de todos os tempos.

- Clarice. Como me achou aqui?
- Vim seguindo as gaivotas.

As mãos de Clarice deixaram de apertar seus olhos para descer aos ombros, enlaçarem seu peito e o puxarem do tatame em que estava. Sussurrou no seu ouvido um trecho da música preferida naqueles anos de sonho. Aos poucos foram formando os dois uma mandala de aros de carne, yin e yang na sala de ecos, dizendo mantras obscenos e umedecendo as lajotas.

Comentários

  1. Marcelo Hindu, esse finzinho lascivo me remeteu às apimentadas linhas do Xico Sá. Mas, devo dizer, que o seu estilo é mais low profile, uma coisa eros-chic.
    Abraço

    ResponderExcluir
  2. Marcelo Hindu, esse finzinho lascivo me remeteu às apimentadas linhas do Xico Sá. Mas, devo dizer, que o seu estilo é mais low profile, uma coisa eros-chic.
    Abraço

    ResponderExcluir
  3. Ana Maria3:23 AM

    mantra feminino é muito poderoso não!!!!!

    ResponderExcluir
  4. o amor, por si só, é um mantra. e dos mais poderosos. linda essa ida à praia, amigo!

    ResponderExcluir
  5. Anônimo3:21 AM

    Estas breves , me envolven num clima suave , leve , e me transporto com prazer para dentro delas , o fato de não analisarem nenhum fato atrelado as coisas chatas que acontecem aqui , ajuda-me a controlar minha maluques, misturada com lucidez , me remetendo para a superfície superior. Obrigado por me oferecer mais esta viagem , por suas lembranças e ou criações, que fazem o tempo parar , voltar ou ir de acordo com nossa imaginação.

    Fabio Biazini
    atprol@terra.com.br

    ResponderExcluir
  6. Carlos Alberto3:09 AM

    Caro Marcelo,



    Mais um brinde a minha leitura quanto a sua capacidade e sutileza no uso das palavras para transmitir uma idéia que, certamente, perpassa atrozmente a cabeça de muitos e, sem hipocrisia, a nossa por vezes.

    “Vamos dar um tempo...”, “Precisamos discutir a relação...”, “Por momentos me sinto sufocado...”, “Não posso me anular para uma convivência pacífica...”, etc., são frases que, na maioria das vezes, apenas são repetidas por terem sido ouvidas de outros e que, parecem se encaixar muito bem em determinadas circunstâncias de tempo e lugar, mas, vazias, sem conteúdo objetivo e racional na busca de solução, são estéreis de significados, quase sempre ditas como se fora mais uma encenação de melodramas baratos.

    Penso que esses momentos valem para repensar a convivência amiúde entre dois seres humanos, mas, valem também, para aqueles que sem essa causa ou experiência, busca diuturnamente se reencontrar consigo mesmo em suas crises existenciais, o que alguns, abstraindo idéias próprias, poderiam chamar de o “repouso do guerreiro”.

    Todavia, o enredo do conto, me fez lembrar de uma piadinha de salão, meio sem graça, mas, que dizia mais ou menos assim:

    Homem

    - Na minha casa eu mando, sou eu quem dá a última palavra...!

    Mulher

    - Claro, amor, você sempre responde “sim querida” para tudo...!

    Curiosamente o “Zen” veio reforçar e enfatizar exatamente essa idéia, ou seja, capitular sobre quem manda numa relação conjugal, em geral, bem sucedida. De nada adiantou a tentativa de busca transcendental para se reencontrar consigo mesmo, revisar sua vida passada, reavaliar seus valores mais íntimos, afogar mágoas latentes e restabelecer antigos sonhos e desejos.

    Foi inexoravelmente encontrado no vazio que procurava em sua alma, e sucumbiu, mais uma vez, como não poderia ser diferente de tantas outras, a sonoridade do “OM” do universo feminino infinito, de sobejo conhecido por ele.

    Nem é preciso dizer, que uma nova reconciliação se sucedeu ao som das repetidas ondas no quebra-mar e a “Mandala” girou sua roda da vida, voltando-se para o início. Deixando claro de quem é que manda!

    Mais uma vez, obrigado, por esse brinde.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto

    ResponderExcluir
  7. Ana Lucia9:57 AM

    Olá primo, tudo bem?
    Sem exoterismo, vou correndo tomar meu chá verde, só porque dizem que
    emagrece e faz bem.Se eu fechar os olhos, não vou ver mandalas. Vou ver
    o Cotinthians na série B.
    beijo
    Ana Lucia

    ResponderExcluir
  8. Elizete Lee1:21 PM

    UFa! Ainda bem que foi resgatado pelo amor...

    "Que auto-resgate.. que nada!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…