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QUANDO JOBIM ENCONTROU ELEANOR


Em instâncias celestes acontecem fatos um tanto inusitados. Foi num dia desses, perdido na eternidade, que se deu o ocorrido.


- Ah, look at all the lonely people... la, la, la, la, la, la, la... ah, look at all the lonely people...
- Ah, só é lonely porque quer... olha que coisa mais linda, mais cheia de graça.
- Falou comigo, moço?
- Lógico, seria impossível não lhe dirigir a palavra. E obrigado pelo “moço”.
- Espera aí, seu rosto não me é estranho. Você não é o Tom?
- Em alma e espírito, às suas ordens.
- Sou a Eleanor Rigby. Já deve ter ouvido falar de mim, aquela da música dos Beatles.
- Sim, sim, claro. Que mundo pequeno, meu Deus. Tá inteirona heim, minha filha? Não é à toa que aqueles cabeludos se encantaram por você.
- Na verdade o Paul McCartney teve a inspiração olhando pra minha sepultura. Achou bonito “Eleanor Rigby” escrito na lápide e fez a canção. Fiquei célebre sem ninguém ter me conhecido, fui uma anônima na Londres entre a era vitoriana e o começo da Segunda Guerra. Cheguei aqui em 1939, morri não me lembro como. Os Beatles me imortalizaram quando já era tarde demais.
- Essa é ótima. Imortal depois de morta. Eleanor... nome bonito. Também fiz muita música com nome de mulher. Lígia, Teresa, Gabriela, Luísa.
- Essa é linda.
- Conhece?
- Como não. Toca direto no serviço de alto-falantes da Praça da Paz Eterna.
- Nunca reparei. Pensei que a música ambiente aqui se resumisse aos clássicos. Bach, Haendel, peças sacras.
- E o amigo por acaso não é um clássico? Me espanta você, Jobim, com todo esse ouvido musical, jamais ter notado uma música sua soando aqui no paraíso.
- Bom, deixa eu tocar alguma coisa em sua homenagem. Olha, só preciso de um banquinho e um violão. Dá pra materializar isso pra mim? Eu ainda sou aprendiz nesses trâmites celestiais, você está aqui há muito mais tempo. Só cheguei em 94.
- Está me chamando de velha?
- Longe disso. Muito longe disso!
- Dizem lá embaixo que “Yesterday” é a música mais tocada no mundo, e que “Garota de Ipanema” fica em segundo lugar. Você está muito bem no ranking, Tom.
- Mas é como eu disse uma vez numa entrevista: eles eram em quatro e falavam inglês. Uma covardia. Não fosse isso, poderia estar no topo.
- É, quem sabe. Tome aí o violão que você pediu.
- Ok. Vamos ver como fica “Eleanor Rigby” em ritmo de bossa.
- Parece difícil tocar...
- Nada. Chega aqui pertinho e me dá sua mão. Assim, ó. Esse dedinho aqui na casa dois do violão. Isso. O indicador vem aqui - casa três, quinta corda. Aí. Muito bem, Eleanor. Você leva jeito... eu podia te ensinar uma posição nova, lá na minha casa. A gente fica mais à vontade, que me diz?
- Tom, nós estamos no céu, comporte-se!
- No céu você vai ficar daqui a pouco, minha linda. Prometo a você, ou não me chamo Jobim. Há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca.
- Eu vou chamar o anjo da guarda.
- Não ouvi direito. Vai baixar a guarda?
- Olha que eu falo tudo pro Father Mackenzie, heim.
- Mas que Father Mackenzie é esse?
- Caramba, Tom. Você não conhece a minha música? Não lembra da letra?
- Esse negócio de letra é com o Vinícius. Não é meu departamento.
- Falar em Vinícius, olha ele chegando aí. Com três anjinhas a tiracolo.
- Poetinha, você não morre mais. Deixa eu te apresentar a Eleanor.

Comentários

  1. Filipe Moretzsohn6:59 AM

    Fio de Deus, dei muita risada com o seu texto das alturas!
    Bom demais para um dia desses acinzentado e chuvoso.
    Valeu sócio, grande abraço.
    Sgrilóide.

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  2. Bárbaro!!!

    Katia

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  3. Elizete Lee12:58 PM

    Pelo menos lá no céu, a Eleanor não mais estará solitária.

    Lindo.

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  4. Marieta11:56 PM

    muito bom...que imaginação meu Deus...nem no céu esses dois tomam juizo.
    beijos

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  5. Sandra7:04 AM

    Oi Marcelo, tudo bem por aí ????
    Acabei de ler a crônica do Jobim e morri de dar risada sozinha ! Se alguém pega essa cena acha que eu fiquei doida de vez !!!!
    Será que os safados não mudam nem depois de mortos ???? Com certeza o Nivaldo deve estar a todo vapor !!!! A Elenora que se cuide, né !!!!

    Fala sério !!!!!!


    Um beijão p/ vcs



    Sandra

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  6. Carlos Alberto12:11 AM

    Caro Marcelo,

    Mais uma bela proeza!
    O padre Marcelo Rossi não teria melhor traduzido o seu show “Saudade
    sim, Tristeza não” transmitido pela mídia televisa nacional de ontem, dia
    de Finados, do que o relato do encontro de Jobim com Eleanor. Um misto
    de que a vida continua “pós mortem” com uns respingos de Nelson
    Rodrigues como retoque de um bom humor inteligente, ainda que se esteja
    vivendo no “paraíso dito celeste”.
    E, por falar em Eleanor, lembrei-me de uma frase de outra Eleanor, a
    Roosevelt que disse: “Se você tiver um espírito de aventura ao se
    aproximar de cada nova pessoa que encontrar, vai ficar infinitamente fascinado
    pelos novos canais de pensamento, de experiência e de personalidade
    com os quais vai se deparar”. É isso o que acontece comigo em cada texto
    inédito que recebo dos meus amigos e, é exatamente esse fascínio que me
    impulsiona a comentá-los, proporcionando-lhes um “feedback”, talvez,
    aproveitável de alguma maneira, sobre o modo como tais informações se
    processam em meu sistema cognitivo.
    É inegável a sua capacidade de abstração na criação de temas
    perfeitamente encaixados nas três dimensões, que me permito sugerir, tempo,
    espaço e lugar.
    Para todos aqueles que viveram a áurea juventude transviada da
    “beatlemania” e da “bossa nova”, o relato desse encontro vem preencher uma
    terrível lacuna, pois, todos aqueles fãs permaneciam submersos na escuridão
    do conhecimento do encontro sonoro desses dois estilos ou gêneros
    musicais que tanta empolgação trouxe aos jovens e alguns velhos sabichões
    da época.
    De outro modo, nada mais lúgubre, risos a parte, para um dia de
    finados, do que a lembrança dos mistérios que, de um modo ou de outro, sempre
    envolveram os títulos e letras das músicas dos “Beatles”.
    Desde as diversas versões contadas em prosa e verso sobre as origens de
    “Eleanor Rigby” (1966) até o encontro de uma cripta com seu nome e sua
    estátua fantasmagórica esculpida e doada para a cidade de Liverpool
    por Tommy Steele, chegando a “Abbey Road” (1969) que retratava, até hoje
    não provada, a morte e substituição de Paul McCartney, passando, é
    claro por “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band” (1967) que já falava sobre
    solidão das pessoas, sem nos esquecer que nesse mesmo ano a música “A
    day in the life” estaria refletindo o drama pessoal de Paul após ser
    informado sobre a morte do jovem amigo aristocrata que, bêbado ou
    drogado, teria atirado o carro contra um caminhão estacionado em uma das
    avenidas do centro de Londres.
    Nesse que deveria ser o cenário próximo a desolação, eis que surge a
    figura suave, irreverente, falante e um tanto “safada” de Jobim, com sua
    chegada bonachona e descontraída ao reduto dos “espíritos afortunados”
    dando explicações óbvias sobre ter estado, quase sempre, em segundo
    lugar nas paradas de sucesso internacionais.
    Completando o feliz encontro, Vinicius chega para incorporar o grupo e
    fornecer munição a fértil imaginação de Nelson Rodrigues e, a nossa
    também, para criar a inesquecível noitada, desta feita ao som de harpas,
    porém, não tão angelical quanto se possa pensar.
    Não poderia ter sido mais feliz a escolha desse tema, pois, é sem
    dúvida, um texto que, espontaneamente, nos leva a sorrir sobre a qualidade
    de vida do andar de cima, em um dia de lembranças e saudades daqueles a
    quem amamos, mas, que para lá se mudaram e já não privam mais de nossa
    companhia.
    Prova inequívoca da assertiva de Goethe: “Nada revela tanto o caráter
    de uma pessoa quanto as coisas que as fazem rir”. Parabéns Marcelo, por
    fazer me sentir muito mais leve ao imaginar que os meus podem estar lá
    privando de tão agradáveis companhias.

    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

    ResponderExcluir
  7. Carolina Avancini3:13 PM

    genial marcelo!
    para mim, fa de bossa nova e admiradora dos beatles..... foi um deleite!

    ResponderExcluir
  8. Ana Maria3:30 AM

    legal marcelo!
    os caras são sacanas até no céu rsrsrsrsrsrsrsr

    ResponderExcluir
  9. Maria Amélia3:32 AM

    ADOREEEEEEEIIIII...SUPER CARA DE FINADOS............RS
    MANDOU MUITOOOO BEM, MARCELO!!!!!!
    PARABÉNSSSSSSSSSS

    ResponderExcluir
  10. Fábio8:30 AM

    Poxa vida... muito bom este! Adorei, como todos.. mas esse teve o toque especial de Beatles!
    Maravilhoso... Parabéns!

    Abraços

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  11. Marcelo

    Eu sabia que o paraíso existe!!!!!

    Malu

    ResponderExcluir
  12. Ana Lucia5:23 AM

    Oi primo
    Lindo, nostálgico, for ever!
    beijo

    Ana Lucia

    ResponderExcluir
  13. ahahahahaha! com tantos cartolas e pixinguinhas no céu, com tantos adonirans, vinicius e tons, e outros gloriosos poetas de letras e notas vivendo sobre as nuvens, a tarefa dos anjos de guarda, se não mais fácil, está pelo menos mais animada. ou seria afinada? =)

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  14. Mariana6:53 AM

    Adorei o texto!! Parabéns Marcelo!!

    ResponderExcluir
  15. Marcelo, esse inusitado encontro nos salões da Eternidade foi mais uma grande sacada entre tantas geniais. Fico cá, com meus botões macaúbicos, a imaginar semelhante conversa entre a Beloca e o Fernando Furlanetto.
    abraço
    ps: cara, o seu blog está explodindo de audiência. e uma audiência que comenta.
    prbs!!!

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