Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Dezembro, 2007

ESPELHO MEU

Maior seria a ressaca do mar, naquele início de manhã do dia primeiro, ou a dos homens e mulheres sem nomes, às centenas, desacordados na areia após a farra de réveillon? A praia cheia de morteiros explodidos, garrafas de sidra vazias e ainda com preço, rosas que oferecidas a Iemanjá ou Nossa Senhora da Conceição voltavam esfaceladas para o continente, como se renegados os presentes da véspera.
Um espelhinho, desses de rodoviária, emoldurado de arabescos em plástico rosa, veio trazido por uma onda pequena junto com uns tocos de vela. Enroscado numa redinha de maçã de quitanda, ali ficou até que alguém se desse conta e dele libertasse o encantamento.

Não demorou quase nada e o milagre então se fez. Sob efeito de imponderável fermento, o badulaque barato foi se esticando ante o espanto dos passantes, dobrando de tamanho a cada dois segundos até se sobrepor à imensidão do mar. Alguns incautos, despertando à revelia da rebordosa, quedavam instantaneamente cegos com o sol refletido na gigant…

MAL TRAÇADAS

- Oi.
- Pode falar.
- Falar o quê?
- Ué, você botou o travessão na frente. Travessão se usa quando a gente vai falar alguma coisa. Vai, desembucha.
- Até aí estamos quites, você também tá usando travessão.
- Usei pra responder. Tava quieto no meu canto, por mim ficava mudo e escondido como um tratado de química inorgânica numa biblioteca pública.
- É, você é mesmo de poucas palavras. Nem uma linha quinta-feira passada, nosso aniversário de namoro.
- Nem uma linha uma vírgula! Te deixei uma citação inteira, grifada em vermelho, você é que não reparou. Um trecho lindo da Adélia Prado. Admito que costumo falar pouco, mas antes monossilábico que prolixo. Muita gente fala, fala e não diz coisa com coisa.
- É uma indireta pra mim?
- Você e suas deduções. Entenda como quiser.
- Acho que está mais do que na hora da gente discutir a redação. Ainda não consegui engolir a exclamação que você soltou para aquela vogal saidinha.
- Caramba, isso foi lá no segundo capítulo. Nem lembrava mais disso.
- E depois te…

HOLY NIGHT

I
Quanto ao acontecido, não pairava nenhuma dúvida: o Menino Jesus de gesso tinha virado os olhinhos na minha direção, dando ainda por cima um risinho de canto de boca. Estávamos os oito na igreja, não podia fazer nada a não ser esperar o fim da missa pra contar a todo mundo. De joelhos na hora da Consagração, eu desacreditava e pedia ao Menino Jesus de verdade pra que o seu clone do presépio parasse de brincadeira. Mas não. Olhava para a manjedoura e ele me encarando. Às vezes até dava uma piscadinha, franzia o cenho, mexia as pernas no berço de palha. Apertava forte a mão de minha mãe, disso sempre irei lembrar, me agarrava febrilmente à sua certeza de que tudo estava bem.


II
A lata semiaberta de pastilhas Valda no criado-mudo: aquilo era a cara dele. O enxofre do polvilho Granado se via no tapete e empestava o ar. Se velhinho tem cheiro, cheiro de velhinho é aquele, de talco anti-séptico. Vovô Noel de costelas visíveis e peles flácidas, em suspensórios e camisa regata no casulo do seu…

ELE É O CARA. AINDA.

It was 27 years ago today

Sinistro como aquele dia, só a fachada do Dakota - o paquiderme gótico que em nada lembrava você e suas roupas brancas pela paz. Gente do mundo todo aos prantos na frente da sua casa, teimando em não acreditar. Foi muita areia pros meus 16 anos, cara. Ainda que a milhares de quilômetros do epicentro, e só acompanhando pela televisão, sacudiu muito a estrutura. O Lucas Mendes ali, todo encapotado no Central Park, até ele parecia não encontrar nexo no que estava narrando.

Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e sete anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de c…

DESASSOSSEGO

Aos inquietos do limbo, fartos de se debaterem


A sola gasta, sim, de vagar a esmo a um você sem rosto pra me decifrar. Bote reparo e verá que agora são dejetos de anteontem a remoer na inconclusão, são só farelos deixados sem que se tenha lambido os beiços com o prato principal. Sobram as recordações dos cômodos fortuitamente habitados, de segredos trocados a medo, trechos de diários que acabaram inacabados e outros resquícios do gênero, consumidos, digeridos e vertidos trilha afora. Mas que percurso é esse a que chamo trilha, se não houve intenção de ida nem plano de chegada? Os pés doloridos e as mãos amarradas, me pego assistindo na primeira fila a um plano-seqüência de portas trancadas que abria na unha, cismado na busca. Centenas delas, em perspectivas várias, a se estenderem moles. Irresponsavelmente permitimos que nos lançassem à deriva, e é bem provável que por isso não tenhamos conseguido chegar com sanidade a parte alguma.

É sempre indiferente a geografia na ausência da própri…