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ELE É O CARA. AINDA.



It was 27 years ago today


Sinistro como aquele dia, só a fachada do Dakota - o paquiderme gótico que em nada lembrava você e suas roupas brancas pela paz. Gente do mundo todo aos prantos na frente da sua casa, teimando em não acreditar. Foi muita areia pros meus 16 anos, cara. Ainda que a milhares de quilômetros do epicentro, e só acompanhando pela televisão, sacudiu muito a estrutura. O Lucas Mendes ali, todo encapotado no Central Park, até ele parecia não encontrar nexo no que estava narrando.


Sempre que se falava em Beatles Forever, pra mim pelo menos era pra valer. Eu cresci confiando cegamente nessa promessa de imortalidade. E sem mais nem menos, aquela sacanagem. Minha mãe foi quem me deu a notícia, na manhã do day after. Sabia do meu fanatismo, me levou pra um canto, pediu pra que eu sentasse, que tinha uma notícia triste. Vinte e sete anos depois, cara, você continua fazendo os lonely hearts baterem descompassados. Yeah, yeah, yeah. A respiração suspensa e um choro difícil de conter, não mais por causa da sua morte, mas por sentir você mais vivo que antes de ser assassinado. Você chamando Julia, pedindo Help, são coisas que a gente ainda escuta em estado de graça e com os pêlos todos eriçados. Os que já beiram os 60 – que viram você surgir, brilhar e partir – ou a garotada de 15, que só agora está ouvindo falar de você.


Fica à vontade, Mr. John. Nem preciso dizer que a casa é sua, olha só quantos discos seus. Acenda o tipo de cigarro que quiser, sirva-se do meu uísque, toque o meu piano. Só não fica tão ansioso, cruzando e descruzando as pernas o tempo todo. Relax, man. Pode se esticar no sofá, vou ligar para o delivery e pedir uns sushis.


Você afirmava que Deus era uma invenção, e é possível que você tenha dado de cara com o nada depois daqueles quatro tiros. Mas talvez o fato de não-ser valha mais a pena do que continuar por aqui, vendo tudo tão oposto ao que você imaginou. É, porque não deram chance à paz coisa nenhuma. Nunca estivemos tão longe dela. A despeito de você ter deixado a CIA com o pé atrás, o Nixon de cabelo em pé, o Elvis enciumado. Apesar de ter apontado o caminho pros filhos desorientados da guerra fria. Você, cara, teve peito de devolver a medalha pra Rainha. Deu uma banana pro show business e os managers das gravadoras pra ficar fazendo pão, lavando o chão e ninando o Sean. Que absurdo, o babá-beatle. Onde é que ele quer chegar, o que é que ele quer dizer? É, meu, você precisou ser muito homem pra virar dono de casa.

Como dizia uma de suas últimas letras, “a vida é o que acontece com você enquanto está ocupado fazendo outros planos”. E os nossos planos, cara, são ainda mais tolos e mesquinhos do que em 1980. Junto com o adeus a você, um caminhão de utopias rolou ribanceira abaixo. É frustrante ver hoje a sua figura desvinculada da sua história. Da sua verdadeira história. O que se vê é você reduzido a botons e pôsteres, desde as rodoviárias até as galerias de arte – o John de terninho e bota, o psicodélico, o hippie barbudo, o combativo, o pacifista. Mas da sua mensagem, que é o mais importante, muito pouco se fala. Ficam na superfície, no guru a quem se deve adoração sem que se saiba o porquê.


É irônico e entediante encontrar, por essa época do ano, seus CDs dentro daqueles trenós de papelão nos hipermercados, ao lado da gôndola de panetones. A mídia faturando em cima da aura messiânica criada em torno de você, fazendo girar a engrenagem que financia a guerra que você combatia. Transmitem especiais em sua homenagem, celebram com fingido pesar a sua morte, transformam você num papai noel magro, o som ambiente dos shoppings mandando ver o seu “Happy Christmas”. Eles não entenderam nada. Pior: fingem que não entenderam.


Até, cara. Dá um abraço no George.

Comentários

  1. gostei muito de sua crônica. Fiquem com Deus.

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  2. George Lee12:24 PM

    Maravilhoso o seu enfoque sobre esse ícone da nossa geração.
    Infelizmente a midia sempre tende a usar a imagem dos nossos ídolos para suas conveniências. Mas isso não deixa de minimizar a grande figura que foi John Lennon. Sem dúvida depois da sua morte o mundo também morreu, se desvaneceu e se tornou agressivo, frivolo e vazio. Ele fez parte da geração hippie, a ultima geração sensata do século 20, e que infelizmente foi derrotada também pelo capitalismo selvagem.

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  3. Elizete Lee1:51 PM

    Hoje quando estava de volta de Rio Claro, vi no luminoso da rodoviária a data 08 de dezembro de 2007. No meu fone de ouvido saia "Woman".
    Coisas incríveis acontecem! Aquele 08 de dezembro de l980 eu jamais esquecerei. Quanta dor.

    Grande abraço

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  4. Mario Bonzanini4:08 PM

    if, if,
    você tem toda razão!

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  5. Anônimo5:03 PM

    lembrei-me daquele dia terrível, eu já tinha 27, mas como meu primeiro amor foi todinho embalado nas canções de John, Imagine era uma das " nossas" músicas, meu namorado de então cantarolava ao meu ouvido: I´m just a jealous guy! isso de 1971 a 1973. Senti uma dor profunda, como se aquele amor findado morresse novamente com ele, e pensava em quanta loucura assolava o mundo, quantos maníacos matavam o objeto de sua admiração....
    mas, " i can say i`m a dreamer, but i´m only one..."
    abraço
    Sandra

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  6. Paulinho4:31 AM

    É Marcelo,

    Foi foda!
    Em dezembro de 1981, numa manhã de uma 5ª feira (?), tinha passado a noite na chácara de meus primos, ali na Anhanguera, e num radinho de pilha, quase sem querer, umas nove da manhã, ouvi a notícia do assassinato do John. O quê? Como assim? Ele não era imortal? Os Beatles nunca mais iriam se reunir e não viriam mais para o Brasil tocar? Peguei minha bicicleta e voltei pra casa. Chegando lá o meu pai me falou, com certo cuidado pra que não me chocasse, pra que eu visse no Jornal da Tarde ( ainda existe ? ) a notícia. Na página principal, no roda-pé: "Lennon assassinado"! Como, cara? Será que ele estava metido com alguma máfia e se deu mal? Indo à página indicada, decepção, só diziam o local, a hora e poucas coisas esclarecedoras ( naquela época não tínhamos internet né ). Logo em seguida, o "Jornal Hoje". Suspense até a confirmação de algo que me parecia surreal. Fui para o meu quarto e chorei olhando para a capa do Double fantasy: mas logo agora que o cara voltou à normalidade? Ele estava tão sereno ultimamente! Não deu mais. The end. Depois disso me afastei dos Beatles, o sonho realmente tinha acabado, o vaso se quebrara. Só fiquei mais triste anos mais tarde com a morte do George ( me apegara muito a ele com aquele álbum triplo " All things Must Pass" e um outro que ele tocava "Faster", "Love Comes to Everyone" ). Resumo da ópera: pra morrer basta estar vivo ( profundo né? ). Que deus mande mais alguns gênios como eles pra que possamos mover nossa energia musical pra cima ( hoje tá raro! ). Um abração!
    Paulinho Marsiglio.

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  7. Anônimo4:33 AM

    Valeu Marcelo. Falou cara. Nos falamos ai.

    Um abraço.
    Állan Toledo

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  8. Maria Amélia9:46 AM

    Sem palavras...de arrepiar!!!
    Marcelo, sou sua fã!!!!!!

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  9. Wagner2:55 PM

    Marcelão, adorei.
    Me lembrei de você hoje quando li a matéria na Folha sobre a biografia dos Beatles que será lançada esse mês.
    Abração e parabéns.

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  10. Flipe Moretzsohn3:01 PM

    Nego, nego, muito bom mesmo.
    Com toda certeza, ELE É O CARA.
    Abraço,
    Sgrilóide

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  11. Anônimo3:58 PM

    Marcelão, já li e me emocionei quando você publicou a lavra pela primeira vez, uns dois anos atrás. A revisita provoca o mesmo sentimento da primeira vez. Já disseram aí pra cima e eu repito: é mesmo de arrepiar.
    Lauro

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  12. Flávio4:26 AM

    é marcelo, vc tmb é o cara
    não sou tão fã de beatles como deveria ser, afinal fui criado em casa
    a base dos fabulous four e dos stones
    sei muito pouco da história deles, mas meu velho irá ler e se
    emocionar com o seu texto
    como ele me disse uma vez "stones é foda, mas beatles é beatles"

    abraço
    flávio

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  13. Marlão5:16 AM

    Aproveitando a triste data (e sem sacanagem), parabéns Marcelo.

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  14. Anônimo5:24 AM

    Marcelo,

    ontem o George esteve em casa. Ouvi/assisti ao show em sua homenagem organizado por outro gênio Eric Clapton. Parecia que na grande foto que fica atrás do palco George queria dizer alguma coisa. Acho que estava agradecendo seu abraço e mandando outro.

    zéaugusto

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  15. Ana Maria6:12 AM

    e um grande abraço para o amigo Marcelo, que soube como transmitir uma mensagem tão tocante!!!!!

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  16. Patrícia6:45 AM

    arrepiou, Marcelo....
    8 de dezembro de 1980, eu lembro muito, muito bem desse dia. Trabalhava na dpz e ficamos todos, criativos dos anos 80, absolutamente passados. Criamos um anúncio em homenagem a ele, quem assinava era uma loja que vendia Levi's, olha só! Se achar esse anúncio em casa, trago pra vc ver.

    bjs,

    Paty

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  17. Orlando6:47 AM

    como diria João Lemos(o dona da padaria). O sonho acabou,
    mas já está saindo outra fornada!

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  18. Victor Namba6:50 AM

    BOM PRA CARAIO MARCELO!!!
    SHOW! PARABÉNS!

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  19. Amém!

    PS: Caraca Marcelo...eu esticaria este texto para vários outros desta
    época em que fazer música era uma maneira de não concordar com muitos
    absurdos que temos até hoje e faziam de coração e não por dinheiro.
    Você é o cara também.

    Abrassss

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  20. ícones como este nosso ilustríssimo senhor rock n´ roll são fundamentais para o universo da música e, especialmente, para a paz e o equilíbrio do nosso planeta que, infelizmente, precisa de exemplos como o dele, para "tentar" não sair tanto da linha! lindo texto, irmão!

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  21. Helô Neves3:17 PM

    EU TE INSPIREI, FALA SÉRIO!
    bjosssssssssssssss

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  22. Paulo Rafael5:02 AM

    Fantástico! Tem que mandar esse texto pra Yoko!

    A parte final me fez lembrar o final do filme "A última tentação de
    Cristo". Já assistiu?

    Abrs! Você é o cara!

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  23. Marcelo, gostei tanto do Texto que publiquei em meu blog!
    Espero que vc não cobre royallities pelo texto!

    grande abraço
    Laurinho

    ResponderExcluir
  24. Anônimo7:56 AM

    Caro Marcelo,

    Mais uma de suas superações e a data não poderia ser mais propícia! A exemplo da feliz “sacada” de “Quando Jobin encontrou Eleanor”, este texto reflete uma belíssima carta póstuma e muito bem lembrados, alguns dos quase esquecidos temas defendidos por John Lennon.
    Acho que já não tenho mais dúvidas de que você tenha sido um ferrenho “beatlemaníaco”, no sentido estrito, literal e saudável de “alucinado pelos Beatles”, aliás, muito natural para os “teenagers” dos anos 80, época em que, de uma simples banda de “rock” com auge de sucesso nas décadas de 60 e 70, a mídia tinha transformado os “Beatles” em verdadeira lenda viva, recheada de histórias de mistérios, encontros e desencontros, expondo fantasiosamente a vida privada de alguns dos seus componentes e, não por acaso, a comparação, quase ingênua de Lennon, em relação a popularidade de Jesus naqueles anos, quanto, as meditações transcendentais de George e a sua busca a Deus que, provavelmente muitos de nós integrados a alguma religião, teríamos dificuldade de compreender.
    Não importa se ditadas por anjos, invisíveis a esmagadora maioria dos mortais ou, um subproduto da sintetização de uma provocada reação química cerebral, o fato, é que o legado das mensagens da factível paz e harmonia entre os povos deixados por ele é o maior exemplo da inalienável necessidade de valorização da dignidade humana, cujo conceito, jamais, em tempo algum, fez parte dos planos dos donos do mundo.
    Por outro lado, com o dobro da idade do autor dessa carta, naquele fatídico dezembro de 80 eu, nem de longe, poderia avaliar do que era capaz o imaginário de um jovenzinho com a palavra “para sempre” associada a uma banda de rock, porque, conquanto admirasse e, ainda admiro muito, as canções dos Beatles e, em particular, os solos de Lennon, que fizeram parte do final de minha adolescência, a emoção dessa perda não se traduzia como a derrocada final de um sonho utópico, mas, sim um passo a mais para nos desviar dos espinhos no caminho da paz.
    A indignação, agora adulta, daquele adolescente, em se deparar com o seu ídolo Lennon, aparentemente descaracterizado de sua história de vida que, em seus discursos, propunha a paz e justiça social aos povos, reduzido a meros botons, pôsteres e outros adereços sem significância, ainda que justa, precisa ser pensada de que essa é, talvez, uma forma mais amadurecida dos significados da perenidade das suas propostas. Ele mesmo dizia: “Você até pode dizer que sou um sonhador. Mas não sou o único. Espero que algum dia você se junte a nós. E o mundo, então, será como um só”. Não seriam tais lembranças, mesmo insignificantes aos nossos olhos, parte de um longo e gradual processo de união?
    George, em vida e após introduzir-se a cultura indo-oriental dizia: "Tudo pode esperar, menos a busca de Deus", certamente se referia ao mesmo Deus de Lennon, porém, penso que não se referia e nem buscava um Deus estereotipado pelas religiões, na figura de um ser loiro de olhos azuis, impassível diante do sofrimento e, sim, onde Ele deve ser encontrado que é no interior da vontade das próprias pessoas. Acredito que foi essa a razão que, ao finalizar a carta, nosso autor pede a Lennon para dar um abraço em George.
    Enfim, um texto comovente, de mexer com a suscetibilidade daqueles que “... já beiram os 60” e, que não poderia ter outra origem se não do senhor Sguassábia.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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  25. Anônimo2:56 AM

    É triste perceber que a grande maioria das pessoas tem a memória tão curta e são tão superficiais !!!!!!

    Manda um abração p/ todos.

    Um beijo

    Sandra

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