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ESPELHO MEU


Maior seria a ressaca do mar, naquele início de manhã do dia primeiro, ou a dos homens e mulheres sem nomes, às centenas, desacordados na areia após a farra de réveillon? A praia cheia de morteiros explodidos, garrafas de sidra vazias e ainda com preço, rosas que oferecidas a Iemanjá ou Nossa Senhora da Conceição voltavam esfaceladas para o continente, como se renegados os presentes da véspera.
Um espelhinho, desses de rodoviária, emoldurado de arabescos em plástico rosa, veio trazido por uma onda pequena junto com uns tocos de vela. Enroscado numa redinha de maçã de quitanda, ali ficou até que alguém se desse conta e dele libertasse o encantamento.

Não demorou quase nada e o milagre então se fez. Sob efeito de imponderável fermento, o badulaque barato foi se esticando ante o espanto dos passantes, dobrando de tamanho a cada dois segundos até se sobrepor à imensidão do mar. Alguns incautos, despertando à revelia da rebordosa, quedavam instantaneamente cegos com o sol refletido na gigantesca plataforma, que àquela altura já era uma passarela a meio caminho entre a Terra e a lua. Num fulgurante big bang, do qual nunca se teve notícia por não haver tempo das broadcastings enviarem suas equipes, o megaespelho pariu bilhões de espelhinhos, um para cada vivente dos mundos que se conhecem e dos outros desconhecidos.

Foi insólito o feitiço coletivo. Mulheres vincadas de pés-de-galinha viam-se debutantes, os hormônios revoltos encobertos pela alvura dos vestidos. Assassinos redimiam-se ao contemplar os rostos de suas vítimas no lugar de seus reflexos. Crianças abandonadas avistavam os pais ao longe, correndo em sua direção. Carecas resgatavam suas madeixas, na cor e viço originais. Pescoços desempapavam-se. Narizes horrendos afilavam-se. Rímeis, brushes e lápis de sobrancelha eram lançados ao mar por não terem serventia. Manchas da pele eram removidas junto com as da alma e as do caráter. As linhas de expressão só permaneciam se fossem imprescindíveis ao reconhecimento fisionômico, e mesmo assim com a anuência do detentor e firma autenticada em cartório.

Sem prévio aviso ou razão aparente, algumas trombetas soaram enquanto o céu se enegrecia. Toda a hierarquia angélica parecia a postos para um grande e definitivo cerimonial. Uma voz vinda de onde não se sabe anunciou o fim dos tempos, conforme advertiram os profetas. O mundo podia acabar, mas acabaria bem. Ainda que vivendo o seu último capítulo, a criatura se enxergaria finalmente à imagem e à semelhança do Criador.

Comentários

  1. Marcelo,

    Gostei muito do texto, um tom profético que só se descobre no final...

    Adorei este trecho:

    ..."Mulheres vincadas de pés-de-galinha viam-se debutantes, os hormônios revoltos encobertos pela alvura dos vestidos. Assassinos redimiam-se ao contemplar os rostos de suas vítimas no lugar de seus reflexos. Crianças abandonadas avistavam os pais ao longe, correndo em sua direção. Carecas resgatavam suas madeixas, na cor e viço originais. Pescoços desempapavam-se. Narizes horrendos afilavam-se."...

    Um belo texto para refletirmos ao entrarmos em 2008!

    Parabéns!

    Um abraço,

    Ana

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  2. Anônimo10:10 AM

    Peguei o meu caco de espelho e olhando para ele vi , ao fundo do
    reflexo muita coisa que aconteceu durante
    o tempo que passou.
    Numa fase distante e longa , não queria conhecer ninguém, porque
    cada pessoa nova que conhecia , acabava
    entrando no meu mundo e sempre tinha que me preocupar , hoje sei que
    não posso criar nada no mundo de alguém e
    ninguém pode criar nada no meu , a não ser que eu permita, este pedaço
    de espelho parece aquela maquininha
    gravadora da vida , mas , só com imagens , sem som, se juntarmos as
    duas teremos o aparelho e o filme
    completo , quem é o diretor? Parece certo que algum dia vamos ver tudo
    isto acontecer, eu me imagino lá , numa
    poltrona branca com um saco de pipocas macias (que não fazem barulho na
    boca para não atrapalhar a audição) ,
    revendo tudo passou e comentando com os orientadores " isto podia ter
    sido assim, aquilo deveria ter sido
    assado ", chorando as vezes , mas na maior parte , rindo , rindo
    bastante , me contendo para não gargalhar
    muito , afinal sou eu mesmo.

    Sabe Marcelo , a entrega dos presentes aconteceu , compramos muitos
    presentes, foi um dia duro, com a excursão
    de madrugada e a compra, foram muitas crianças que receberam presentes,
    um cara mais velho que eu requisitou a função de Papai-Noel, seria
    mais convincente , mas no final desistiu,
    então o severino aqui amarrou as almofadas na barriga e fui lá ,
    algumas beijavam , sentavam no colo ,
    conversavam , outras choravam, até aproveitei uma parte do seu texto
    "obedeceu papai e mamãe, foi bem na
    escola ,comeu toda a comida do prato", e bem no final , um garoto
    esperto levantou um pouco a minha roupa e falou
    __Almofada né .

    Que em 2008 voce receba muita inspiração, aquela luz quase igual a do
    enorme espelho , mas não reflexo , ela
    vem de cima direcionada para o seu coração cérebro e mão , então voce
    escreverá coisas muito bonitas , para
    deliciar toda a humanidade.

    ResponderExcluir
  3. Sandra Nogueira10:13 AM

    que lindo, Marcelo.

    amei!
    abração e feliz 2008
    Sandra

    ResponderExcluir
  4. João Batista10:17 AM

    Léo, bom dia. Gostei do espelho meu. Parabéns. Beijos do seu pai.

    ResponderExcluir
  5. Elizete Lee1:35 PM

    Marcelo,

    Surreal é como defino sua crônica.
    Fiquei imaginando as "peruas" se vendo tão esticadinhas!
    Somente uma coisa: elas, não teriam a quem ser mostrar, e com certeza não achariam graça nenhuma! ahahah

    Boa passagem prá você e família.
    Elizete Lee

    ResponderExcluir
  6. Lauro4:30 PM

    Graaaaaaaaande! O cara tem um talento ímpar. Textos do tipo não são lampejos esporádicos do autor. A boa pena tem produção semanal, regrada e criatividade nada rotineira. E ainda tem gente que quer espaçar a publicação. "Meu caro Elio Gaspari, a Folha só vai acolher seus textos a cada 15 dias." Alguém imagina uma proposta do tipo?

    ResponderExcluir
  7. Nelson3:41 AM

    Show de bola o texto Marcelo, feliz ano novo pra vc!!
    Abraço!!!

    ResponderExcluir
  8. Ana Lucia7:56 AM

    Olá primo, tudo bem?
    Só mesmo o fim do mundo para fazer o homem olhar-se como realmente é.

    beijo

    Ana OLucia

    ResponderExcluir
  9. Alex Compri7:58 AM

    Muito bom Marcelo!!

    Abraço!!!

    ResponderExcluir
  10. Anônimo4:52 AM

    Caro Marcelo,

    Um texto do tipo retrato da ressaca de tantos quantos foram pular as
    “sete ondinhas” e outras “mandingas” de igual significado, que uma
    multidão de pessoas, crentes ou não, se predispõe a fazer para brindar a
    passagem de ano, renovando sonhos e esperanças.
    No entanto, a mensagem traduz muito bem o reflexo da alma das pessoas,
    projetando suas angustias com o firme propósito, ao menos naqueles
    momentos, de se livrar delas e recomeçar uma vida nova livre de agruras e
    descompassos entre os sonhos e a realidade.
    É claro que, uma boa parte das pessoas se utiliza do precioso líquido
    frisante para conectar-se ao universo, simbolicamente representados por
    significativos objetos materiais conforme suas próprias crenças e,
    assim, fazerem seus pedidos de sorte e felicidade para si e para os outros.
    De fato, tenho que concordar que tal estado de euforia, na manhã
    seguinte lhes permite olhar os reflexos do sol no mar, como a um enorme
    espelho de suas expectativas e bem dizer a noite de comemorações e, em
    seguida, planejar o próximo ritual, fazendo correções ao que acabara de
    participar e propondo as modificações para a nova passagem de ano.
    E, assim, vão se sucedendo os ciclos de começa e termina cada período
    de 365 dias, com um dia a mais a cada quatro comemorações. Que bom que é
    assim, e que o apocalipse anunciado pelas trombetas jamais se
    materialize, perpetuando as gerações.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

    ResponderExcluir
  11. Oi Marcelo...Resolvi ler teus textos antigos e me deparei com mais sensibilidade...Muito bom mesmo!! Beijo

    ResponderExcluir

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