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MAL TRAÇADAS


- Oi.
- Pode falar.
- Falar o quê?
- Ué, você botou o travessão na frente. Travessão se usa quando a gente vai falar alguma coisa. Vai, desembucha.
- Até aí estamos quites, você também tá usando travessão.
- Usei pra responder. Tava quieto no meu canto, por mim ficava mudo e escondido como um tratado de química inorgânica numa biblioteca pública.
- É, você é mesmo de poucas palavras. Nem uma linha quinta-feira passada, nosso aniversário de namoro.
- Nem uma linha uma vírgula! Te deixei uma citação inteira, grifada em vermelho, você é que não reparou. Um trecho lindo da Adélia Prado. Admito que costumo falar pouco, mas antes monossilábico que prolixo. Muita gente fala, fala e não diz coisa com coisa.
- É uma indireta pra mim?
- Você e suas deduções. Entenda como quiser.
- Acho que está mais do que na hora da gente discutir a redação. Ainda não consegui engolir a exclamação que você soltou para aquela vogal saidinha.
- Caramba, isso foi lá no segundo capítulo. Nem lembrava mais disso.
- E depois tem outras coisas, que é bom que fiquem claras de uma vez por todas:
- Ih, Jesus amado, colocou dois pontos. Agora o discurso vai longe. Me poupe, pula uns oito ou dez parágrafos, esse texto eu já conheço. Vai direto pra última frase, vai.
- Ad commodum suum quisquis callidus est.
- Pode poupar o seu latim, não estou nem te escutando.
- Kalispera yassas den kataleveno akrivo.
- Definitivamente, o que você fala pra mim é grego.
- Olha, que tal parar com evasivas e encarar a realidade? Vê se cresce...
- Meu amor, aquela letra que você falou não faz meu tipo. Você sabe que eu prefiro as mais encorpadas, corpo 18 ou 20, como você. Nós nascemos um pro outro, morzinho. Vamos juntar os trapos e encher a casa de letrinhas de bula, heim?
- Casar com você? Tá bom... deixa eu terminar meu tratamento anti-serifa que você vai ver só eu desfilar lisinha por aí.
- Já sei, vai se transformar numa verdadeira Helvética Light Condensed.
- Pra você, um legítimo Bookman Old Style Extra Bold, eu tô de muito bom tamanho. Tá vendo o gato daquele G? Um que parece o KK, ali na linha de baixo... então, dizem que tá enrabichado por mim e que até fez um acróstico em minha homenagem.
- Não foi isso o que L disse pro meu til. A versão que eu conheço é bem diferente.
- Tá com ciúme, bem? Hã?
- O que me magoa é essa sua ingratidão. Eu te tirei daquela vida gramaticalmente desregrada, te levei pra morar numa obra decente, de autor famoso, com capa dura e nota de rodapé.
- Nem me fala, essa página eu prefiro rasgar. Foi um erro tão crasso que até o Pasquale comentou na coluna dele.
- Devia ter te deixado lá, jogada às traças naquele sebo de subúrbio, no meio da pilha de gibis do Bidu. Você renega a própria história.
- A história toda, não. Só alguns capítulos muito mal-escritos...
- De novo sendo reticente. Fala com todas as letras o que tem que dizer, poxa. Pra mim o que você quer mesmo é voltar pro Epílogo, aquele seu caso que acabou terminando mal, lembra?
- Lembro sim, foi no tempo em que você saía com a Resenha, a venenosa que falava muitíssimo bem da sua pessoa pra todo mundo.
- Agora chega. Com você não tem diálogo.

Comentários

  1. Wagner Bastos4:29 AM

    Marcelão, muito bom o texto dessa semana e para não fecharmos o diálogo resolvi lhe mandar algumas novas linhas.
    Grande natal pra você para sua família. Saúde.
    Abraço;

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  2. Anônimo4:38 AM

    que texto bárbaro, muito bem bolado, adorei!!!
    abraço
    Sandra

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  3. Bia Vianna5:40 AM

    Ótimo, como sempre!

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  4. Fábio9:27 AM

    Mandou muito bem! Adorei este...!!! muito legal!
    Aproveitando, passo para deixar o feliz natal para você e toda família...!

    Que comecem muito bem o ano de 2008! Com muita paz, alegrias, saúde e trabalho!
    Tudo de bom, Marcelão!

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  5. Anônimo9:40 AM

    Adorei seu novo texto.
    Bjos Mari

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  6. Filipe Moretzsohn4:17 PM

    Cara, esse texto ficou bem legal.
    Sgrilóides

    ResponderExcluir
  7. Anônimo5:54 PM

    Sanja se orgulha dos seus. Pagu, Guiomar Novaes, Orides Fontela, Fernando Furlanetto... Marcelo Pirajá Sguassábia. Por enquanto, e só por enquanto, este último ainda não é tão conhecido como filho ilustre. Ilustre pelo talento, pela veia cômica, pela sensibilidade e pelo magistral manejo do verbo. Tenho dois grandes amigos macaúbicos que, hoje, moram em Campinas. Um é o Walther Castelli Júnior, que o Zezinho Só carimba como o "sanjoanense mais culto de todos os tempos". O outro, claro, é este crônico-jornalético-blogueiro brilhante, que eu não tenho dúvidas em botar na galeria dos crepusculares mais letrados de todas as eras. Marcelo, saí ali na calçada da Tereziano e não vi aquele molecote sguassábico correndo. A vó Fiuca me confidenciou que ele é bem caseiro, deve estar no aconchego do quarto passeando com os olhos pelas brochuras do Julio Verne, do Mark Twain, do Monteiro Lobato...

    abç
    Lauro

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  8. Miriam11:36 PM

    Primo

    Cada semana que leio seus textos, fico mais encantada. Estou ADORANDOOOOO!!!

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  9. Marcelo

    O ano está no final e você continua ótimo!
    Feliz Natal pra você "e todos os seus". E um 2008 competente!

    Beijos
    Malu

    ResponderExcluir
  10. Elizete Lee6:08 AM

    Marcelo,

    Mais uma vez, te parabenizo por tão humorado texto.

    Imaginei uma cena de cinema, onde o personagem abre um livro e vê todas aquelas letrinhas num bailado de frases e significados.

    Por outro lado, me fez pensar que na minha vida real, houveram muitas reticências e poucos pontos finais.

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  11. Ana Maria3:25 AM

    muito legal, vc deveria mandar pra uma escola, seria uma ótima aula!

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  12. Carlos Alberto4:55 AM

    Caro Marcelo,

    Um texto com certa sinuosidade, para não dizer “meandrático” e que, me
    dificultou a compreensão do “de onde sai e para onde vou”, mas, faz
    parte de seu estilo, como outros tantos que tive o privilégio de os ler,
    em que desafia o leitor a tirar suas próprias conclusões sobre aquilo
    que o autor desejou passar.
    Desta feita, a princípio me pareceu que deveria se tratar de uma “sopa
    de letrinhas” desafiadas a posicionar-se em grau de importância, no que
    incluía não apenas o significado de cada uma delas, mas, também, a
    roupagem com que estariam vestidas para se apresentar.
    Assim, meu pretenso certeiro comentário, sobre as motivações, se
    desdobraria, não fossem duas observações que me chamaram a atenção. A
    primeira “Nem uma linha quinta-feira passada, nosso aniversário de namoro” e,
    a segunda “Ad commodum suum quisquis callidus est” que em minha pobre
    tradução significaria: “cada um sabe onde seu calo aperta”.
    Escuso-me por tentar interpretar seu texto, ao meu modo de ver o
    carrossel de letras que combinadas podem ou não corresponder a alguma idéia
    com significado. Não fossem especulações dessa natureza e os
    arqueólogos, paleontólogos e outras não menos importantes terminações “ólogas”,
    provavelmente não teriam recursos para suas pesquisas.
    Munido por esse arsenal do prólogo e mais a ousadia de tentar traduzir
    algo talvez intraduzível, acredito que o autor, por qualquer razão
    lembrou-se de seus primeiros escritos, possivelmente uma quinta feira de um
    ano qualquer, em cuja época utilizando-se de um contexto sob uma égide
    mais crítica do que literária na acepção de um texto vertido de seus
    próprios pensamentos.
    O fato de não ter escrito nada naquele que deveria ser o tão comemorado
    dia, do início de algo importante, despertou a acomodada, mas,
    poderosa hoste das letras, que se revoltaram com tão descuidado usufrutuário e
    reclamaram sua atenção.
    Nesse ponto, evidentemente, o uso do antigo provérbio se prestava a
    explicar o inexplicável, como quem diz, “nada tenho a comentar, só eu sei
    dos meus problemas...”.
    Sem dúvida essa é ótima, porque responde sem nada explicar e o
    interlocutor tem que se dar por satisfeito, mesmo não tendo entendido nada,
    portanto, bastante convincente a frase “... mas antes monossilábico que
    prolixo.”, em outras, palavras, as letras não tinham absolutamente nada a
    cobrar pela ausência de um escrito do Marcelo, afinal, ele teve seus
    motivos para não escrever naquele dia e não devia satisfação nem ao
    “ponto de interrogação” e, tenho “dito”, como diria um imperador qualquer.
    Um forte abraço.

    ResponderExcluir

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