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CINCO ESTRELAS DA QUARTA IDADE


Meu caro Ludovico, seu doidivanas incorrigível

Esse mundo dá mesmo muitas voltas. Nem bem abandonei o ramo de cosméticos à base de algas marinhas e eis-me frente a frente com um novo desafio profissional: organizar as atividades da equipe de recreação de um hotel voltado à chamada “Quarta Idade”, ou seja, aquele pessoal com mais de 95. Talvez o termo soe estranho aos seus ouvidos, mas a mídia em breve irá massificá-lo, com direito até a merchandising na novela das oito.

Na verdade, preferia encarar uma turminha mais nova. Mas o mercado da tão falada “melhor idade”, dos 65 aos 94, já está mais que saturado. Os rapazes e moças dessa faixa etária já têm muito o que fazer, há pacotes aos borbotões para todos os gostos e bolsos.

Sendo o meu produto inédito, o dilema no momento é formatar os eventos para o grupo de monitores. E o amigo há de convir que meu leque de opções é um tanto quanto escasso, tendo em conta o público-alvo e suas naturais limitações. Todavia, seguem algumas idéias que me vieram à mente, para as quais peço sua ponderada e sempre bem-vinda avaliação.

Aula de esteira, de crochê ou de tricô, confeccionada em linha de algodão cru. Uma forma interessante de manter as velhinhas entretidas por até 3 semanas, dependendo do tamanho da esteira, do ponto a ser utilizado e da desenvoltura da aluna no manejo das agulhas.

“Mergulho nas Cataratas”, um workshop onde especialistas irão expor aos anciãos as mais recentes novidades no tratamento e controle desta insidiosa enfermidade.

Trilhas radicais: vinte tabuleiros de trilha, dispostos simetricamente no saguão das piscinas térmicas, promoverão a integração dos hóspedes e farão a alegria da velharada.

Pensei também na “Hora H gá”. O nome infame ainda é provisório, mas foi o que deu pra arrumar por enquanto. Trata-se de um jogo de charadas, do tipo “O que é, o que é”. Exemplo: começa na cervical, irradia para a região lombar, desce o nervo ciático até a batata da perna e só cessa com uma dose cavalar de Cataflam. Qual o nome da doença?

Tem ainda aquela brincadeira da estátua, onde ninguém pode se mexer, mas a galera das bengalas, andadores e afins ficaria em evidente desvantagem... a recomendação da diretoria é não deixar ninguém constrangido, entende?

Meia Maratona: ganha quem conseguir dobrar o maior número de pares de meia em um minuto. Provas nas modalidades meia três quartos, meia-calça, meia de lã e meia de nylon.

Estou prevendo a realização de baladas, com início às dez da manhã e término às quatro da tarde. A dupla de DJs Janota e Mariquinhas entreterá os requebrantes com uma sensacional seleção de valsas, dobrados e maxixes.

Encerrando, o “Vovoyeur”. A proposta consiste em várias câmeras escondidas, que flagarão toda a pouca vergonha que vier a ocorrer nos cantinhos e biombos, na calada da noite, entre os senis convivas.

Bem, vou ficando por aqui, no aguardo de seus comentários críticos e, se possível, de sugestões para o meu projeto. Meu amigo, estou num mato sem cachorro e não posso perder esse emprego. Ponha-se no meu lugar, ou melhor, ponha-se no lugar de um desses centenários hóspedes e diga sinceramente se as idéias lhe atraem.

Do amigo de sempre,

Capistrano

Comentários

  1. Pepe Chaves11:36 PM

    Prezado Marcelo Sguassabia,

    Parabéns por este texto, muito bom! Gostaria de pedir sua autorização apra postá-lo na págian de crônica de VF.
    Obrigado e um abraço,
    Pepe

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  2. querido amigo!
    eu acredito nos anjos que me influenciam os pensamentos, especialmente na hora em que me debruço no cronicato, mas, saiba o senhor, que anjos letrados o rodeiam, anjos divertidos, abençoados anjos amantes das construções gramaticais elevadas, como as que saem de você! minha reverência de hoje vai pelo brilho criativo e bem-humorado do seu texto, e, também, por conquistar mais espaço, dia a dia, na mídia! deus lhe abençoe, camarada! e parabéns pelas novas conquistas!

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  3. Anônimo9:55 AM

    Marcelo, meu amigo, você precisa nos contar sobre esse seu périplo londrino. Sei que o fish and chips foi só coadjuvante de uma bela estada.
    E o texto, de novo, permeado por sacadas de dar inveja.
    Gargalhei no atacado.
    Parabéns!!!

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  4. Elizete Lee2:46 PM

    Seu texto nos faz refletir como o ser humano ainda não entende a velhice.
    Pensam em somente criar bugigangas para passar o tempo.
    Pergunto:
    Quem escuta, com sinceridade, a história dos homens e mulheres velhos?
    Tudo é uma forma de consumo, e os velhos se tornaram uma verdadeira peça de marketing.
    Abraços

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  5. Sandra6:11 AM

    morri de dar risada sozinha !!!!!
    Só vc mesmo p/ ter tanta criatividade, hein !!!

    Um grande abraço p/ vcs


    Sandra

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  6. Fábio6:33 AM

    Adorei os trocadilhos! Muito bons! rsrs

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  7. Marcelo! O melhor evento é a Hora H gá!! hahahahahaah! Bom demais!

    Abrasss

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  8. Anônimo5:01 AM

    Muito bom!!!! rs....

    Abraço

    Nelson

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  9. Ana Maria9:41 AM

    Muito bom, meu amigo!
    dei boas risadas!

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  10. sandra nogueira11:23 AM

    oi Marcelo, tudo bem por aí? Na dúvida sobre as sugestões do seu amigo mando as minhas rsrsrsrsr
    1) treme-treme: sessões de ginástica passiva nas camas de tonificação, com trilha sonora escolhida para a ocasião

    2) apresentação diária de S.E.X.O explícito: serviço expresso de xerox do obituário

    3) estilingue: jogos comunitários de estingada. Ganha quem atingir o alvo mais distante. Matéria prima? ligas de meias do início do século XX

    4) programas de rádio, apresentando: correio sentimental, receitas de chás caseiros, novos remédios do mercado, excursões para estações termais e escolha de música para o footing das 17 horas.

    Espero ter conseguido ajudar
    abraço
    Sandra

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  11. George Lee12:03 PM

    Do jeito que o capitalismo vai andando, é provavel que em breve essa sua idéia não seja considerada hilária, mas bem oportuna para o mundo dos negócios.

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