Pular para o conteúdo principal

LINK


I
- Na minha home ou na sua?
- Sugiro um território neutro, pra variar um pouquinho. Um amigo meu tem um desktop desocupado aqui perto. Deixa eu dar uma busca nas imagens pra te mostrar. O papel de parede é lindo. Antes a gente podia saborear uma pasta, que tal?
- Outra? Já são 1651 pastas em Meus Documentos. Por favor, vê se muda o menu principal...
- Tá bom. O www.guiaderestaurantes.com.br indica www.lamejorpaella.es, www.barbecuehouse.com e www.royalfood.co.uk. O que a senhorita prefere?
- Clica no barbecue.

II
- Detesto ter de dizer isso, mas tem um restinho de pixel escorrendo no canto da sua boca. Disfarça e passa a borrachinha do photoshop.
- Ai que chato. Só agora, depois de baixar a sobremesa, é que você me avisa? Todo mundo deve ter reparado.
- Ué, tô vendo e tô avisando. Sabe, você fica linda com essa cara de quem perdeu laudas de dissertação acadêmica e não tinha backup. Te amo, sabia?
- Repete em caps lock.
- EU TE AMO. Tá bom assim ou quer que ligue as caixinhas de som?
- Grosso insensível. Será que pelo menos uma vez na vida você não poderia...

(cai a conexão)

III
- E aí, tudo bem com você?
- Acho que sim, mas reiniciei como arquivo recuperado. Vão ter que me renomear. É duro depender dos humanos.
- É, gente é bicho estranho. Não vejo sentido no que eles fazem lá fora. Acordam, passam o dia inteiro olhando pra gente, trabalham pra se sustentar, se sustentam comendo, comem geralmente coisas que fazem mal e devolvem tudo horas mais tarde – de um jeito que é melhor nem comentar. Dormem e no dia seguinte começa tudo outra vez.
- De fato, não tem sentido. Assim como não tem sentido eles fingirem que trabalham e ficarem vendo outros humanos nus. Se o chefe não estiver por perto, ficam horas e mais horas olhando essas coisas. Que graça que acham nisso, me diz?
- E eu sei lá... Na dúvida, acesse www.serhumano.com, pesquise em “Perguntas mais freqüentes” ou baixe em PDF o manual de instruções.

IV
- Ai, Jesus amado. Aquele menino de novo. Com o pacote de bolacha e o copão de coca.
- E pela cara, acordou agora. Deve estar com mais gás que o refrigerante. Agüenta que lá vem tiro, acabou de abrir o Counter Strike.
- Daqui a pouco chega o pai dele.
- É, o cibertrouxa. Se soubesse fuçar no histórico e descobrir o que sua abnegada esposa anda fazendo por aqui, com a webcam ligada...
- Além de corno, tem mau gosto. Reconfigurou a área de trabalho com cores cítricas e berrantes. A tela aqui tá parecendo um uniforme de gari da Vega Sopave. Será que não percebe que isso acaba com a vista dele?
- Vai ver que é por isso que não enxerga o que todo mundo sabe.

V
- Nariz entupido?
- É, acho que algum vírus me pegou de jeito. Se não melhorar, vão me botar na quarentena. Opa, abriram o Word. Quem será?
- Não tenho idéia. Só sei que me irrita profundamente esse cursor piscando o tempo todo pra você, como se estivesse disponível e desacompanhada. Falta de respeito. Vou arremessar esse sujeitinho na lixeira e vai ser agora!
- Calma aí, o cara trabalha no Office, tem influência.
- Ah é? Vai com ele, então.

Erro no módulo Shell32 DLL em 0177. Este texto efetuou uma operação ilegal e será finalizado.

Comentários

  1. Ana Elisa3:44 AM

    Oi, Marcelo!
    Gostei demais de seu último texto! O "vírus" da tal tecnologia não tem jeito mesmo!

    ResponderExcluir
  2. Filipe Moretzsohn3:48 AM

    Nego, CTRL+ALT+DEL nessa segundona!!! Belo texto, parabéns.

    ResponderExcluir
  3. Eli Muzamba3:58 AM

    Marcelo, muito bom.

    Essa sua agremiação de termos técnicos, aliás um rol deles,
    e muito bem empregados, foi muito criativa. Deve ter levado
    um bom tempo pra chegar nesse resultado final. Ótimo.

    ResponderExcluir
  4. Anônimo5:19 AM

    Muito Bom Marceleza!!!!!

    Milena

    ResponderExcluir
  5. Anônimo12:52 PM

    Marcelo, no português e no informatiquês, seu texto é um upgrade no meu humor. Abraço.

    ResponderExcluir
  6. Anônimo12:52 PM

    lauro assina o post aí de cima.

    ResponderExcluir
  7. Pepe Chaves4:45 AM

    parabéns, como sempre, ficou 10. Só tenho uma eclamação: o final dessa crônica é de talhar o sangue!

    Abração e muita paz,

    ResponderExcluir
  8. elizete Lee4:44 AM

    Você...sempre você, me faz rir ao lembrar dos tempos em que comecei a trabalhar com micro. Já faz algum tempo. Era uma nova realidade,e eu que nem gostava de datilografar, tinha que aprender a fazer tudo naquela máquina alienígina. E quando dava aqueles erros DLL, eu perdia tudo!
    Só Deus...

    Abraços on line!

    ResponderExcluir
  9. Carlos5:12 AM

    Prezado Marcelo,



    Ficou um texto para trás primeiro porque estou fora do meu habitat há já algum tempo e segundo como seu texto “LINK” sugere, essa quase agradável dependência dos “bits e bytes”, na maioria das vezes costumo utilizar o “outlook” que, porém, não acesso a distância, portanto, é lá que se encontra o “dito cujo” e terei o maior prazer em comentá-lo em meu regresso.

    Como aprecio explorar (no sentido de esmiuçar mesmo) ao máximo o sentido impregnado pelo autor em seu escrito, muitas vezes, em viagem, falta-me o tempo e a oportunidade para expor de forma escrita, a minha opinião acerca de um texto lido.

    Bem, mas justificativas a parte, esse texto me remete a uma das reminiscências de um passado não tão distante, por isso esta sendo adicionado a minha coleção de pérolas e tenho fortes razões para entender desse modo.

    Lá pelos idos do início da década de setenta, enveredei pelos caminhos daquilo que, à época, era visto como mais um modismo, ou seja, o processamento de dados para transformá-los em informações, mas, muitos de nós sequer poderíamos imaginar que o “tal modismo” se constituiria na base de inúmeras atividades imprescindíveis nos dias atuais em todas as áreas do conhecimento humano, muitas das quais beneficiando enormemente as sociedades modernas.

    Lembro-me ainda, de algumas literaturas da época, especialmente as de Alvin Toffler que influenciaram significativamente minha carreira, como o “Choque do futuro” (1970) e, muito particularmente, a “Terceira Onda” (1980) e mais recentemente “Criando uma nova Civilização” (1995), este último, entretanto, com menos atrativos de percepção das realidades futuras como os que motivaram a “Terceira Onda” que chegou a reboque das mentes recheadas com as aventuras do “superman”, “homem aranha”, “batman”, etc., todos é claro em suas primeiras versões.

    O assombro e o medo que se seguiram às previsões de Tofler corroborados pela inusitada dinâmica imposta pelo avanço das tecnologias das informações, assim, como muitos daqueles, hoje pouco passados dos cinqüenta, colocam dúvidas sobre a fantástica visita do homem a lua, não é raro nem surpreendente que uma grande parcela deles jamais compreenderia uma única linha da ficcional intenção do autor de “LINK”.

    Como diz Gláucia S Ferro (consultora de marketing e designer, veja que tais profissões, nem existia há três décadas atrás), em seus comentários sobre Alvin Toffler: “Até aqui foi possível conviver com todas as ondas de Toffler, porque todas tiveram um fator comum de assimilação que era o tempo...”, porém, esse mesmo elemento que permeou aquelas ondas sem as incomodar, tende a se transformar no grande diferencial de dificuldades para a assimilação não só das antigas, mas, até mesmo das futuras gerações que terão de imprimir cada vez mais velocidade aos neurônios para processar a produção crescente de informações.

    E assim, completaria Ivo Lucchesi (artigo de 10.04.2007 da “Em tempo de tecnologias da informação”): “Na versão antiga, todo o processo derivava dos atos cognitivos e perceptivos do leitor. Este era agente absoluto da experiência e responsável por sua rentabilidade intelectiva. No novo formato, tudo está programado por "alguém", tornando o receptor mero seguidor das marcações de outrem.”.

    É..., já vai longe o desafio de “construir programas para fazer programas de computador...” a era Bill Gates se encarregou de criar os programas “amigáveis”, a partir da qual o homem não precisa mais decorar seqüências numéricas binárias para se comunicar com a máquina, basta aprender um pouco de “inglês”, para entender a conversa daqueles dois “seres” virtuais retratados pelo autor.

    Aliás, em se falando em virtual, devemos considerar que essa palavra deriva do latim “virtus” e, extrapolando o radical “viril” derivado de “vir”, significa excelência, potência, habilidade (Pierre Lévy) e, em minha opinião, deveria ter uma nova tradução como “veio para ficar e mudar paradigmas” e se expande tão rapidamente que desafia a capacidade dos homens em assimilar mudanças.

    Meu caro amigo, Marcelo, trouxe alguns trechos de artigos lidos, para meu comentário, porque julguei pertinentes para caracterizar o século XXI como o horizonte de tempo para compreensão do seu texto e finalizo com uma das máximas de Toffler: “A melhor maneira de prever o futuro é construí-lo”, e o que é esse “LINK” se não parte dessa construção.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…