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QUERO SÓ VER

Abstract Eye - Richard Pousette-Dart


Quero ver seus olhos não abrirem para certas coisas que é impossível não enxergar.
Quero ver seu estômago não revirar com outras tantas que não precisam nem merecem existir.

Quero ver sua espinha não arrepiar ao passar pelas quarenta mil tumbas das três mil e quinhentas abadias, tentando imaginar o que aqueles seres de mármore fizeram quando o sangue ainda corria em suas veias.

Quero ver as ondas alfa, beta e teta do seu cérebro detendo a queda das folhas no outono e as lágrimas no adeus final ao ente querido. Quero ver seu cotovelo contornar a dor, levantar a poeira e dar a volta por cima.

Quero ver você cruzar os braços e largar do jeito que está, a léguas da conclusão. Quero ver você ganhar peso sem culpa e perder o peso que tiver na consciência.

Quero ver você dar de ombros para os que não admitem deixar pra depois. Quero ver você sentir na pele o que os livros narram, as videntes predizem, os quadros mostram, os conselhos advertem e os candidatos prometem.

Quero ver sua boca maldizendo a blasfêmia, difamando a calúnia e achincalhando os que lutam com afinco para fazer do mundo um campo minado.

Quero ver o tremor das suas mãos ao se colocarem em posição de prece, clamando para que a ira divina caia sobre a máquina que desemprega o homem e reduz o indivíduo a um feixe de estatísticas.

Quero ver muitas bolhas nos seus pés, contanto que a caminhada seja em busca dos seus sonhos. Quero ver muitos calos findo o dia de trabalho, desde que o esforço não signifique sacrifício e traga a merecida recompensa.

Quero ver seu coração disparar não só nas formaturas, casamentos e funerais, mas ao dar com a formiga carregando a folha, a casaca puída do porteiro da boate, o sol fazendo seu protocolar giro pela crosta numa quinta-feira qualquer de um lugar não pitoresco. Quero ver você gostar da vida acontecendo sem nada de importante a acontecer.

Quero ver você arregalar os olhos na falta de graça da lida aldeã, na frieza dos ferros-velhos, nas pastas pretas e idênticas dos corretores de seguros, no efeito sonífero dos serviços de aviso dos shopping centers.

Quero ver você perder o fôlego ao encontrar-se, ter todos os motivos para mostrar os dentes e nenhum para morder a língua. Quero ver você dar as costas a quem lhe fechar as portas e ficar de joelhos diante das coisas mais simples. Como um menino desenhando o pai com giz de cera.

Quero ver que nariz poderá continuar empinado com o raquitismo dos etíopes e a extinção dos coalas. Quero ver que queixo conseguirá não cair ante o reencontro dos amantes exilados, sob a mais estonteante das auroras boreais. Quero ver você se orgulhar da raça humana pelo que ela tem de sobre-humano.

Quero ver você tendo pulso para atirar longe o relógio e resolver empurrar com a barriga. Quero que você ganhe a convicção de que mais vale perder a hora que os cabelos.

Quero ver você respirando fundo no fim da fila, no meio do trânsito, no começo do expediente.
Quero ver você gozar de si mesmo quando falhar na cama e ter a coragem de dizer que isso sempre lhe aconteceu antes.

Comentários

  1. Anônimo12:20 PM

    Quero só ver.
    Puxa, Marcelo, não é fácil, não!!!! Não prometo nada...
    Olha, achei ótimo a Clarice ter interrompido aquele radicalismo Zen!!!!!! Vi sua crônica no jornal e adorei!

    Malu

    ResponderExcluir
  2. Quero ver os textos sguassabianos, sublimes, publicados periodicamente em tribunas provincianas e cosmopolitas. Quero ver a pena marcélica sendo reverenciada pelos Segundos Cadernos dos maiores jornais do país... Belóquido, continuas com um texto acima do bem e do mal...

    ResponderExcluir
  3. Elizete Lee2:42 AM

    ..Quero ver você numa segunda-feira, acordar animado, respirando, sentido-se ainda vivo.

    Sim,...isto é possível, depois de ler a crônica do Marcelo.
    Como escreveu o Lauro ai em cima:
    Você merece ser reverenciado.

    Abraço da amiga
    Elizete Lee

    ResponderExcluir
  4. Texto delicioso, Marcelo!
    Adorei tanto este trecho!:

    "Quero ver seu coração disparar não só nas formaturas, casamentos e funerais, mas ao dar com a formiga carregando a folha, a casaca puída do porteiro da boate, o sol fazendo seu protocolar giro pela crosta numa quinta-feira qualquer de um lugar não pitoresco. Quero ver você gostar da vida acontecendo sem nada de importante a acontecer."

    Lindo, lindo!

    Beijos!

    Ana

    PS obrigada pela ida ao cais...adorei o comentário!

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  5. CresceNet6:42 PM

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  6. Filipe Moretzsohn3:14 PM

    Excellent text british idiot!!!!
    Congratullations,
    Sgrilóides

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  7. Ana Maria3:16 PM

    TAMBÉM QUERO VER!

    MARCELO, MUITO BOM!

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  8. Cinthia3:18 PM

    Querido amigo Marcelo Sguassábia,

    Me perdoe a expressão mas é "ducas" esse texto !!!!

    Parabéns mais uma vez ...

    Bjs com saudades.. Cinthia.

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  9. Marlão3:27 PM

    Quero só ver alguém não se questionar, um pouquinho que seja, diante desse texto.
    P... que pariu!

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  10. Carlos Alberto2:44 PM

    Caro Marcelo,

    Em tempos de uma violência não mais superficial e ocasional, contra tudo e contra toda a humanidade, o seu desafio é, sem dúvida, um importante ponto de reflexão. Aliás, eu diria mais, não apenas para uma mera reflexão filosófica, mas, sobretudo reveste-se em um desafio à nossa capacidade de reagir diante do imponderável ser que reside dentro de todos nós.
    A tudo vemos, a tudo ouvimos, porém, o nosso comodismo para não dizer inata covardia diante das mazelas alheias, nós vivemos toda uma vida fingindo que não vimos nem ouvimos e, não raro, não sentimos qualquer pesar de consciência pela nossa indiferença ao sofrimento dos outros. Afinal são os outros e não nós.
    Subdividindo seu texto, percebe-se como são notórias as referências a violência, aos sentimentos, ao imaginário popular, as injustiças sociais, ao consumismo desenfreado oportunista e predador da natureza, ao abuso do poder, a má distribuição de renda, a vingança e ao perdão e, finalmente, a sutil chamada para a ação ou reação.
    É impossível que os seres humanos, ditos racionais e civilizados, não se encaixem em, ao menos, uma das alocuções apresentadas. Assim, como é muito pouco provável que não tenhamos um mínimo de contribuição a oferecer para criarmos um mundo melhor, nem que seja para os nossos tatara tatara netos. A questão, no entanto, é quem estaria disposto a investir seu tempo, seu intelecto, sua força produtora, sem recompensa imediata para si mesmo.
    Nessas horas esquecemos nossa responsabilidade de preservar o hoje com racionalidade e bons exemplos, para garantir o futuro de nossos descendentes, se não nos for possível ver imediatamente os frutos de nosso empenho pessoal.
    É egoísmo? Claro que é. Mas, não vivemos, também, em uma sociedade egocêntrica? E o que somos nós se não produto de nosso próprio meio. Vivemos em um mundo paradoxalmente hipócrita, porquanto, os discursos são diametralmente opostos às ações, tanto de governos quanto do próprio povo.
    Ou não? Gritamos a todo pulmão a nossa revolta contra privilégios e condenamos enfaticamente a corrupção e a impunidade porque elas atendem, apenas, os interesses dos outros e não nos alcançam em nossos próprios interesses. Não transformando seu texto em uma paródia, até porque ele é serio demais para se brincar com tal exposição de idéias, mas, eu quero ver quem não se sente atraído em dar algumas migalhas ao guarda de trânsito para não tomar uma multa, e, depois, continuar a seguir a passeata alardeando-se contra a corrupção ativa e passiva das pessoas e instituições.
    Com isso, não quero dizer que sou conivente com tal estado de coisas, onde valores éticos, morais, de solidariedade e de bons sentimentos, de há muito deixaram de existir, desde que, em fins do século passado iniciou-se a fissura nuclear da célula máter da família. Porém, de outro modo, esta afirmação não implica dizer que defendo com unhas e dentes, todos os valores das famílias de outrora, provavelmente muito mais hipócrita do que as de hoje, pois viviam sob o jugo do medo, especialmente aquelas que se subordinavam cegamente aos preceitos de uma igreja incontrolavelmente sedenta de poder e que se utilizava do marketing da vida eterna no paraíso para todos o que fossem subservientes ao estado e a religião.
    Em resumo, o grande desafio é o que você escreveu em um dos parágrafos “Quero ver você perder o fôlego ao encontrar-se, ter todos os motivos para mostrar os dentes e nenhum para morder a língua. Quero ver você dar as costas a quem lhe fechar as portas e ficar de joelhos diante das coisas mais simples. Como um menino desenhando o pai com giz de cera”.
    Enfim, temos que aprender a ser criança, para fazer o melhor uso do conhecimento e maturidade de que dispomos. Talvez isso não seja tão difícil quanto pensamos ou é tão óbvio que não somos capazes de enxergar. Com tanta evolução do homem e tantos discursos do bem, uma coisa me intriga, não entendo porque não conseguimos desvendar essa fórmula que nos foi passada a nada menos do que 2008 anos atrás. De fato é preciso rir-se de si mesmo!
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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