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A BEM DA VERDADE

Retrato do Arquiduque de Chorumelas




Ninguém há de negar que entre a história oficial e a real há sempre um abismo enorme. Nos fatos a que me atenho, alguns historiadores avaliam seu tamanho em 28 metros de altura por 12 de largura. Outros estudiosos afirmam serem superestimadas as dimensões do referido fosso, que não devem ultrapassar, segundo eles, 26,5 metros por 11,4.
Controvérsias métricas à parte, o que vem ao caso no momento são alguns episódios que urge serem publicamente reparados, especialmente aqueles relativos aos mais de 120 anos de desavenças bélicas entre o Reino de Patavina e o Condado de Lhufas.

Para que não se perpetuem injustiças, seguem alguns pontos finalmente elucidados, que desmistificam um sem número de embustes e falácias perpetrados mundo afora, o mais das vezes por gente que não tem o que fazer.

Está definitivamente comprovado que Olavinho Vai-Não-Vai, assim chamado por seu temperamento titubeante na função executiva de maneira geral e no trato com os amotinados do Levante de Aragão de modo particular, teve como conselheiro o Arquiduque de Chorumelas, e não Zolostro, o Precipitado.

A greve dos monges copistas pelo direito à meia passagem nas carroças foi na verdade julgada abusiva pelo Tribunal da Inquisição, sob o argumento de que eram desnecessários aos reivindicantes quaisquer meios de locomoção, por viverem na clausura.

Tomaso Vietri, o Flambado, recebeu essa alcunha por ter sido imolado na fogueira entre outubro de 1502 e março de 1503 (não que o supra-citado tivesse permanecido todo esse período ardendo em chamas; o intervalo de tempo refere-se à imprecisão da data de execução do mesmo).

Aqui se faça também a necessária errata e o desagravo a Isabel, a Dadivosa, durante a conhecidíssima porém nunca suficientemente estudada Batalha dos Aleijões. Célebre por introduzir no cardápio luso o mingau de serigüela, sabe-se agora que tinha por hábito tocaiar ambidestros e alocá-los nos serviços da Corte, como descascadores de beterraba, pajens dos infantes ou auxiliares dos alquimistas na produção de cicuta. Os demais – destros ou canhotos - eram mantidos nos calabouços de cabeça para baixo até que viessem a óbito por congestão cerebral ou inanição – o que ocorresse primeiro, conforme item 5, parágrafo 3 do regulamento encontrado no sítio arqueológico de Quatá.

Não obstante a veemente reprovação do Barão de Almofadinhas, coube ao cônsul Onderóques instituir em Barbapácia a lei que regulamentou a obrigatoriedade dos crachás nas armaduras, para que não se dizimasse por engano os guerreiros aliados ao invés dos inimigos. O expediente, prático e eficaz, poupou milhares de combatentes das fileiras dos Habsburgos em terras catalãs.

Lulalah, o Oneroso, cuja sangria imposta ao erário público em muito superou o volume de sangue derramado em todas as cruzadas, foi o principal responsável pela disseminação da peste marrom-clara, mais amena que a negra, sua sucessora imediata.
A afirmação, tida como fidedigna pela comunidade acadêmica, consta no diário de Catarina, a Enxerida, amante do monarca.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Anônimo10:18 AM

    fiquei assustuda com o seu humor negro, ou seria marrom-claro ?????
    Brincadeirinha, achei super engraçado !!!
    Uma ótima semana p/vc e até domingo que vem !!

    Um abraço p/ todos.

    Sandra

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  2. João Batista11:45 AM

    Parabéns pela crônica "A bem da verdade".
    Gostei muito. Saúde e beijos para todos. Seu pai.

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  3. Anônimo12:10 PM

    Marceliterato, por acaso a Enxerida seria uma das usuárias do malfadado cartão corporativo da realeza?
    Pra variar, o riso rolou solto.
    prbs.
    em tempo: diz a glutonada campineira que tem um digníssimo hambúrguer de picanha aí pelos lados da Norte-Sul.
    Lauro

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  4. Ana Maria3:59 AM

    manda para as escolas, é material rico para os alunos!

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  5. Tadeu4:16 AM

    Marcelo, seus personagens são impagáveis. A homenagem ao Lula, então...valeu mais uma vez, a segunda já começou "crônica".

    Tadeu

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  6. bendita seja sua dadivosa e bem-humorada criatividade, querido amigo!

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  7. admirada
    Tata

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  8. elizete Lee1:00 PM

    Foi muito esclarecedor.
    Realmente vou tomar partido pelo reino de Patavina.
    Adorei o a menção ao "flambado".

    Abraços!
    Vai ser criativo assim... sôohhhh

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  9. Marcelo,
    Que humor delicioso e inteligente, amigo!
    A-do-rei!!!
    Beijos e obrigada pela visita lá no meu canto!

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  10. carlos alberto5:47 PM

    Caro Marcelo,



    “A bem da verdade” reflete humoristicamente a distância entre “o fato e a fantasia” com que se caracteriza a história desde seus primórdios. No Brasil, a distância entre a falácia e a quase verdade dista, no mínimo em 10.950 dias, ou seja, a metade de uma vida média de pouquíssimos anos atrás e, o suficiente para que um ser humano normal nem se lembre mais da importância ou não do fato consumado àquela época.

    E, diante dessa quase infinita distância é pouco provável que, nos tempos atuais, se consiga resgatar alguma espécie de verdade absoluta dos fatos de alhures dos distantes reinos de não sei onde. Um mínimo de explicação talvez, apenas, Zoroastro poderia nos aconselhar a esquecer tudo e começar de novo, minimizando assim, o estresse da tentativa em se bisbilhotar o que se passava ou passou nas câmaras dos recônditos e misteriosos castelos de areia, que os ventos e a água já carregaram para bem longe de nossas mentes.

    Corroborando tal teoria, menciono um pequeno trecho de Izzy (Isidor Feinstein Stone, autor de “The Trial of Sócrates”, falecido em 1989) que, em cujo prelúdio, enfatiza o aspecto crucial das dúvidas, em quaisquer reconstituições históricas: “Foi Platão quem criou o Sócrates de nossa imaginação, e até hoje é impossível determinar até que ponto essa imagem corresponde ao Sócrates histórico e até que ponto é produto do gênio criativo de Platão. A busca do Sócrates histórico, como a de Jesus histórico, continua a gerar uma literatura cada vez mais imensa, um vasto mar de especulações e polêmicas eruditas”.

    Todavia, fugindo de considerações literárias tão pesadas, até porque, creio, não foi a proposta do autor do texto “a bem da verdade”, é de se encantar com o resgate de algumas formas de expressão, de há muito esquecidas em nosso vocabulário, que, tornaram-se sonoras aos meus ouvidos, resgatando-me um pedacinho da infância despreocupada e descompromissada com o futuro.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto

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