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CORAÇÃO DE ESTUDANTE


Assistindo ao primeiro capítulo de “Queridos Amigos”, vi alguns dos amigos queridos e outros nem tanto pularem do pântano mofado feito pipoca de microondas. Uma espécie de “efeito cebola”, onde uma camada de recordação que se descasca vai revelando outra, mais profunda, que parecia perdida mas que estava lá quieta, pronta para fazer chorar caso mexesse com ela.

Pode ser que a série se arraste daqui pra frente, e é natural que seja assim, pois se arrastaram sem arroubos de entusiasmo ou idolatria ao que quer que fosse aqueles anos perdidos. Não perdidos na memória, mas como valor utilitário mesmo. Foram anos que começavam e agonizavam sufocados por sua névoa paralisante, burocraticamente vividos, sem sentido prático nem perspectiva histórica. Um tempo sem ídolos, bandeiras e gritos de guerra, que mesmo quixotescos sempre fazem falta e dão à década alguma personalidade.

Bateu latejando o sentimento do tempo perdido, o vazio de termos nos esquecido num lado B qualquer de um disco do Lulu Santos. Girando, girando até agora no prato do 3 em 1 e deixando a todos tontos, sem achar rumo de vida. Éramos os que viam “Viva o MR-8” pichado nas paredes dos diretórios acadêmicos mas não sabíamos direito do que se tratava, geração que não disse a que veio nem muito menos foi informada para onde era levada. Liquidificávamos o Trem Azul da Elis, a tanga do Gabeira, o irmão do Henfil, o enterro da ditadura e a bisonha esperança na nova república, o João que preferia cheiro de cavalo ao do povo, o Sarney e seus fiscais.

Entrou o comercial, fechei os olhos e prossegui capinando o mato seco entre os miolos pra tirar dali um ou outro fruto que valesse uma recordação, que merecesse ser guardado no meio daquele torvelinho de fatos estéreis. Pois o que fazíamos, eu e todo mundo parido nas barbas de 64, era estarmos até tarde da noite em nossos quartos, legiões do Legião, paralamas de sucessos duradouros ou esquecíveis. Sucessos dos outros, nunca nossos. Víamos valores permanentes se descartalizarem, os telefones de baquelite se plastificarem, as casas de nossos avós virarem estacionamentos e os jardins das praças públicas serem tomados por monóxido de carbono.

Observando o reencontro de amigos da série da Globo, me pergunto de que no fim das contas adiantaria uma suposta reunião nossa, garotos de 21 em 1985. Vale a pena ver de novo? Não, não vale. Mais vale viver os 43 de agora, ainda que paire sobre nossas cabeças a ameaça de derretimento das calotas polares e a catastrófica aproximação da última profecia de Nostradamus. Não importa. Conta e muito a lucidez de hoje, embora provavelmente mais da metade da fita já tenha corrido e não haja possibilidade de rebobinamento.

Voltando aos muros pichados, havia aqueles que diziam “Tortura nunca mais”. E repisar esse passado é deixar-se vencer pelo torturante band-aid no calcanhar. Assim quis que saísse esse texto, escorreito e com a falta de burilamento que acabou ficando. Crônica de um jato só, vomitada na rebordosa de uma festa de estudante às vésperas da morte do Tancredo.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. "Querido amigo",
    No mínimo um espetáculo de reflexão.
    Como queria ter escrito esse texto...Tive a mesmíssima sensação ao assistir à minissérie.
    Inclusive acho que foi ela que também inspirou meu "vômito" de sombras...
    Beijos! E um final de semana colorido para você e os seus!

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  2. João Batista11:56 AM

    Gostei muto de "Coração de Estudante". Belíssima
    crônica que saiu num jato so. Parabéns e feliz fim de semana.

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  3. Anônimo12:38 PM

    Nostálgico viajante oitentista, para sua posse na Academia Paulista de Letras, vou comprar meu terno no Mappim, ou na Ducal?, ou na Sandiz?. Não vi a minissérie, ainda, mas a dona Maria Adelaide deve ter um consultor secreto ali pelos lados de Barão Geraldo.
    Lauro

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  4. Anônimo5:24 AM

    Gosto assim, dessa crônica vomitada.
    Aqui encontro sentimento, aqui encontro concretude, aqui me encontro.

    Beijos
    Malu

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  5. Marieta5:25 AM

    Maravilhoooooso adoreiiiiiiiiii,
    beijos......

    ResponderExcluir
  6. Alberto5:26 AM

    Oi Marcelo,

    Gostei muito deste texto. Muito bom mesmo.

    Abs

    Alberto

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  7. Regina Lúcia Barros Leal da Silveira5:43 AM

    Ola Marcelo
    Gostei!
    Que desabafo !!!!!!!!!!!!!!!!!
    Regina

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  8. Maria Amélia5:51 AM

    showwwwwwwwwwwwwwwwww Marcelo.
    sou sua fã.
    adoreiiiiii!!!!!!

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  9. Filipe Moretzsohn6:40 AM

    Nego, sim sou um NET de novo!!!
    Quase uma semana depois, RAIOS DUPLOS me fizeram estar numa ilha deserta sem comunicação com o mundo exterior.
    Belo texto, meio doido como sempre, parabéns.
    Sgrilóide.

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  10. Elizete Lee7:16 PM

    Anos 80...quantos desabores..

    Adorei, quando você fala da lucidez de hoje, apesar da realidade perversa.

    Abraços

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  11. Tadeu7:34 AM

    "Conta e muito a lucidez de hoje..." depois de ler o Jabor no Estadão, vale a pena ver um pouco de ponderação e otimismo na crônica" ...grato mais uma vez,

    Tadeu

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  12. Paulo Marsiglio2:55 PM

    Olá,Marcelo!

    Muito boa a crônica!
    As casas de nossos avós virarem estacionamento foi excelente!
    Não assisti à minissérie pois durmo mais fácil que um urso quando vai hibernar.
    Quanto a essa geração de 80, tenho boas lembranças, por incrível que pareça!
    Acho que a década de 90 é que foi o prenúncio do "nada" que se instalaria nos jovens até os dias atuais; uma depressão em todos os sentidos; pra mim foi o "cair da ficha", o sonho acabou aí.
    Cada um tem uma preferência porém o que faço hoje é deixar pra trás, ainda tenho muito o que viver.
    Vamos chegar até os 90 ( antigamente achava que só chegava aos 80 ) com muita história pra contar e para isso teremos que curtir o lado B de nossas vidas.
    Acredito que um dia possamos lembrar de hoje assim: como eu era jovem...
    Um grande abraço,
    Paulinho.

    ResponderExcluir
  13. Wagner3:09 PM

    Marcelo, lindo demais.

    Esse mexe com muita gente e mereceria uma publicação mais acessível. Porque não manda para, pelo menos, Correio Popular?

    Abraço e parabéns.



    Wagner Bastos

    ResponderExcluir
  14. Sandra Nogueira3:11 PM

    é isso aí, Marcelo, " na parede da mémória essa lembrança é o quadro que dói mais", agora não são mais os nossos pais, nós é que somos os mesmos (com algumas exceções).
    um abraço
    Sandra

    ResponderExcluir
  15. Marco Fraga3:17 PM

    P. merda, enraizadão, bom pra K7

    ResponderExcluir
  16. Carlos Alberto5:44 PM

    Caro Marcelo,



    Não li o livro de Maria Adelaide Amaral que ensejou o enredo da minisérie “Queridos Amigos” que esta sendo apresentada pela rede globo de televisão e, que, após três capítulos, deixei de assistir por conta do caráter novelesco e descompromissado com os fatos históricos de toda uma geração de verdadeiros idealistas, que lhe imprimiram para, quem sabe, alavancar alguns pontinhos a mais de ibop que é, verdadeiramente, o interesse da mídia para valorizar o marketing de seus patrocinadores.

    Não quero dizer, com isso, que concordasse com aqueles ideais e, por essa razão, desejaria vê-los retratados fielmente, mas, porque, minha percepção me levou a crer que o objetivo da autora ou dos adaptadores do romance leva-nos a assistir uma infindável série de conflitos pessoas que teria muito pouco a ver com os eventuais traumas de remanescentes ou sobreviventes das sessões de tortura sofridas nas mãos do aparelho estatal daquele período.

    O fato de termos vivido o início da juventude na década de 60 ou década perdida para muitos de nós, nos credencia a lembranças muito mais realistas sobre os rescaldos da década de 80, do que aqueles apresentados pelo reencontro dos ex-exilados e ex-torturados “queridos amigos”.

    É óbvio que seria uma tremenda ingenuidade de minha parte, quaisquer críticas ao romance ou a minisérie, porquanto, trata-se do relato, ficcional ou não, de um grupo específico de amigos que, de maneira nenhuma poderá ser generalizado como representativo das conseqüências de toda uma sociedade que sobreviveu ao arrepio dos valores da dignidade humana e absoluta falta de confiança nas pessoas, por duas décadas seguidas.

    Marx, Engels, jamais fizeram parte de minha literatura de cabeceira, não por covardia em me juntar a ânsia irrefletida por mudanças estruturais de uma nação, propostas pelos seus adeptos, que, diga-se de passagem, não eram poucos, e muito mais por estar amadurecido e definitivamente convencido da inviabilidade ao longo do tempo de um sistema tão repressor ou, mais ainda, do que a própria ditadura de estado que, igualmente deveria ser combatida.

    Tanto agora, quanto antes, acredito piamente que uma sociedade deve ser motivada, não pela força repressora do estado, seja de qualquer sistema e sim pela sua capacidade de desafiar seus cidadãos a buscar alternativas de desenvolvimento com um mínimo de oportunidades igualitárias, o que é, diametralmente oposto a qualquer sistema totalitário.

    Portanto, abordado “coração de estudante” me parece o título correto para representar a necessidade e o direito inalienável do acesso, do povo, a uma educação isenta e de qualidade, razão maior de qualquer Estado comprometido sem hipocrisias com o desenvolvimento de seus cidadãos.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto

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