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DIVAGAÇÕES INÚTEIS NO INÚTIL DA TERÇA


Qual não foi meu espanto ao constatar a surpresa nenhuma que me espreitava, insidiosa, naquela terça. Vá lá que a terça seja via de regra um dia meio sem caráter definido, insosso intervalo entre a segunda do início útil da semana e a quarta, que assinala o seu meio. Mas tão sem graça assim jamais a vi, nem a verei provavelmente.

Apático, abri o livro das gravuras austeras e segredos milenares, aquele temido na infância por não poder com seu peso, adivinhando os arabescos em ouro de suas capitulares. Dele sempre mantive prudente e salutar distanciamento, uma reverência talvez vinda de olhares censores que me asseguravam sova certa ao folheá-lo. Desistia dos intentos ao cenho franzido dos capelões d’El Rei, das amas cansadas do ofício e dos Torquemadas de plantão, desses que não faltam para assustar meninos em noites chuvosas.

Assim, respeitoso, era o meu lidar com o livro e com os demais e tantos objetos de adoração depois dele: a vitrola de feltro vermelho sobre o prato, a Rolleyflex e a máquina de escrever, além da imagem de Santo Antonio na capela da herdade – esta de visão bissexta mas marcante, a me encarar com veemência enquanto desfiava-se o rosário à hora da Ave Maria.

E foi olhando então o tomo de autoria incerta, senhor de todas as senhas e sendas possíveis, que me revi criança à mesa das refeições, formando figuras com a calda de pêssego que sobrara na tigela, a alma em paz e o corpo relaxado pelo banho antes da janta. Passado tanto tempo e mandados às favas os bichos papões, estava enfim autorizado a fazer do volume o que quisesse, que divagasse sem amarras sobre ele. Seria eu o Torquemada de plantão, se criancinhas houvesse para se meter medo ali nos arredores.

Sem intenção consciente, a bárbara fêmea à mente foi se impondo, radiante e lúbrica. Eu traria com um pé nas costas esse leão de Coliseu a bico de pena na página 15, faminto à espera dos cristãos, se soubesse ser do agrado o sacrifício aos seus olhos campesinos. Nua bárbara da infância, herança que persiste madureza afora, mulher que a bem dizer nunca existiu em carne e osso. Ainda assim há nos desenhos um não sei quê da sua íris, que decretei acastanhada porque castanhos são os olhos da maioria das musas.

Desse jeito sucedeu no silêncio do quarto de hóspedes, pois é hóspede afinal o que continuo sendo por mais que os anos passem, nessa casa eternamente de outros donos. A sala de jantar, o living, os outros quartos e cômodos, com seus tetos provisórios de alicerces vacilantes, em nada confortam nem abrigam como os lares de verdade, plenos de gentes e vozes. Esse meu pequeno quarto é espaço de transição, vestíbulo para o castelo onde reina o imperecível desde que o mundo é mundo. Onde é o lugar de bárbara, o anjo estranho a quem dei vida sem que viva.

Que minhas pálpebras verguem ao peso de seu corpo jovem, que o sono venha e me leve às histórias nunca lidas que não cabem em mil páginas que sejam. E quanto a você, livro dos muitos mistérios, fique sabendo me darei por feliz se algum dia for capaz de decifrar-lhe a orelha.

Comentários

  1. Elizete Lee4:51 AM

    Pude visualizar um menino franzino e de olhar profundo, daqueles como "Marcelino Pão e Vinho" ou do "Cine Paradiso", a folhear livro de tão grande misterio.
    Você, Marcelo conseguiu passar o imaginário juvenil e mágico.

    Grande abraço

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  2. George Lee4:58 AM

    As fantasias da infância não precisam de musas ou paisagens reais. Pudéssemos entrar nesse mundo mental! Certamente viveriamos numa realidade muito mais doce e menos agressiva, com tons de sonho e poesia!

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  3. Anônimo10:23 AM

    Que viagem, caro amigo Marcelúdico... sua pena brilha cada vez mais... que venha o Macaúbas Pulitzer...prbs!

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  4. Seu texto tornou meus olhos outra vez crianças... assim que o li, com uma ansiedade no peito e uma esperança juvenil.
    Puro encanto!
    Beijo,
    Ana

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  5. Ana Maria6:35 AM

    mande pra Malu também, acho que ela irá gostar muito!

    Parabéns, um texto impecável!

    ResponderExcluir
  6. Ana Maria6:35 AM

    mande pra Malu também, acho que ela irá gostar muito!

    Parabéns, um texto impecável!

    ResponderExcluir
  7. Tadeu8:00 AM

    Bela crônica para uma terça. Fico imaginando como seria a da sexta...

    abraço!

    Tadeu

    ResponderExcluir
  8. Anônimo2:10 PM

    oi Marcelo, que belo artesão das palavras..... lindas, convidam a matutar.
    abraço
    Sandra

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  9. Anônimo10:56 AM

    Prezado Marcelo,

    Reminiscências de um passado, talvez de um ex-aluno de um internato ou,
    até, quem sabe, lembranças de um lar de órfãos, porém, de uma ou outra
    maneira, certamente não foge a regra dos antigos internatos
    administrados por religiosos.
    Ironicamente, muito mais parecido com centros de repressões do que
    propriamente com uma escola formativa da personalidade humana de quantas
    crianças e adolescentes que por lá passaram em idos passados.
    No entanto, não é um texto que me alcança, porquanto originário de
    família sobrevivente à II guerra por imigração que, embora com forte
    religiosidade, jamais permitiu, em sua orientação aos filhos, a subserviência
    aos preceitos e dogmas de quaisquer religiões conhecidas.
    Porém, como não sou uma ilha isolada em um oceano social, obviamente,
    já privei do conhecimento e amizade de adultos que passaram boa parte de
    sua infância e adolescência em instituições “educativas” dessa
    natureza, cujas lembranças nem sempre se materializavam em momentos de
    regozijo, o que, evidentemente, contribuíram para formar uma opinião muito
    própria minha.
    Abstraindo sobre o texto, me leva a crer que a apatia, não apenas,
    sobre a terça feira, mas sobre o conjunto de tempo e espaço causava ao
    personagem lembranças de uma época de solidão e temeridade cotidiana
    baseada em questões morais e de pecados, muito característico da hipocrisia
    que cobria as relações entre educadores e educandos de uma época não
    muito distante de nós.
    É um texto triste, mas, bem pode ser proposital para que o personagem,
    agora adulto e maduro quanto as suas idéias, procurasse reviver um
    período dramático de sua vida, visando, libertar-se de amarras que o
    estariam incomodando em seus dias atuais. Claro, coisa de terapia de
    libertação.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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  10. Marcelo teu estilo é muito peculiar,prende. Kafkiano?
    abraço, virgínia

    ResponderExcluir

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