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MAIS CUIDADO DA PRÓXIMA VEZ


Foi como abrir o guarda-roupa pra pegar um par de meias e sentir as malas, sapatos, ternos e cabides despencando em avalanche sobre mim. Em certas coisas não se deve mexer, sob que pretexto for. É fio que, puxado, desfia o casaco todo. Pé de vento repentino no castelo de cartas.

Às carradas e sem seqüência que fizesse algum sentido, me abraçaram em redemoinho as muitas centenas de fotos de antes de anteontem, todas num sépia que esmaecia os rostos dos retratados. Sentia o turbilhonamento me envolvendo num cone furioso. E me larguei completamente, atento para ver até onde iria aquele despropósito.

Soprado pelo acaso horas e horas, a milhares de metros acima das nuvens, fui perdendo altitude lentamente até cair no mar dos colos mornos, que conhecia dos prospectos das agências de turismo. Eram só colos, a perder de vista, sem as cabeças e troncos, somente esse filé do corpo onde os bebês tão bem se encaixam e onde os amantes têm e oferecem os arrepios mais sutis. Algumas das espáduas muito brancas e tão lisas, várias delas sardentas, outras queimadas pelo sol com a marquinha da alça do biquíni. Desse país guardei as cores da bandeira e a melodia do seu hino, que entoava enquanto era conduzido, na gala do melhor traje, ao baile dos quixotes e borralheiras na Grande Praça de Antuérpia. À luz dos fogos-fátuos, assistia pasmo ao que se passava num beco próximo, tão próximo que me parecia uma extensão de mim a fazer-me ponte sobre o Mississipi. Abre-te Sésamo e vi, abrindo-se sesamente, o riso do Gibrair, glutão de muitas coxinhas falando de cromossomos. Escondido atrás do Sódio da tabela periódica, ele não deu por mim na sala nem percebeu quando saí. Já não era sem tempo: chamava-me a mãe para o almoço. Mas isso em um dos ouvidos. No outro uma voz gelada, vinda de alto-falante: “Doutor Marcos, Emergência”. De novo: “Doutor Marcos, Emergência”. Pane no cone de fotos. Pouso forçado, ferimentos vários. Que sirva de lição, da próxima vez garanto que não me deixo levar.


© Direitos Reservados



Comentários

  1. Filipe Moretzsohn2:15 AM

    Belo texto das nuvens, parabéns.
    Filipe

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  2. Sandra Nogueira3:34 AM

    oi Marcelo,adoro seus textos tão bonitos e interessantes.
    abraço
    Sandra

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  3. Ana Maria3:00 AM

    cuidado mesmo!

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  4. Lauro3:47 PM

    Marcelúdico, pois o trio que deu origem à série, voltou a dar suas penadas simultâneas no centenário macaúbico. E lendo-o, cada vez mais me pergunto: mereço ombrear a página com um cara tão acima da média? prbs, Pulitzer das Macaúbas.

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  5. Elizete Lee4:47 PM

    Esse seu mergulho no cone do tempo é como um vício.
    Quem é poeta sempre estará nesses vôos.
    Quem sabe, levando um pará-quedas da próxima vez?

    Abraços
    Elizete

    ResponderExcluir
  6. Carlos Alberto11:21 AM

    A meu ver há certa simbiose entre “Divagações Inúteis no Inútil da
    Terça” com “Mais cuidado da próxima vez”, porque, enquanto a primeira
    reflete um momento passado de apáticas lembranças infantis, a segunda, nos
    remete as inevitáveis travessuras da infância e adolescência em qualquer
    tempo.
    Quase todas as crianças em algum momento de sua vida, se viram as
    voltas, ou muito próximo, de um desmoronamento de um armário ou do conteúdo
    deste, por pura e inconseqüente travessura. O mesmo, também, se aplica
    aos interruptores e tomadas de força, onde a imensa maioria já sentiu o
    desconforto do coice de um choque elétrico.
    Daí a entrada ao pronto socorro é um passo, para desespero e angústia
    de pais e filhos, os primeiros rezando para que nada de mais grave tenha
    sucedido e os segundos porque enfrentarão um povo de branco que
    costuma usar seringa e bisturi, esses desejam que tudo não passe de um pouco
    de gesso, para que possa chamar a atenção de amiguinhos e colher
    inúmeros autógrafos.
    No futuro, doces lembranças para contar e recontar aos novos e velhos
    amigos, como forma de dizer-se ter sido uma criança absolutamente
    normal. E, diga-se de passagem, nós adultos bem que gostamos de ter em nossa
    história, para contar, ocorrências desse tipo sem gravidade, mas que
    insistiremos sempre em valoriza-las.
    Um forte abraço.
    Carlos Alberto

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