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Mostrando postagens de Março, 2008

OBRIGADO, MAMÃE

A natureza sempre mostrou-se pródiga ao nos brindar com plantas para todas ou quase todas as moléstias, de quadros irreversíveis de Parkinson a furúnculos de ocasião. Assim foi durante séculos com o chá de couve-manteiga, que não obstante o nome frágil da verdura era capaz de dinamitar em minutos a mais titânica pedra no rim. O mesmo se pode dizer do alecrim, célebre por sua propriedade de deter a leucemia em estágio avançado, pelo menos entre os eunucos da Ásia Setentrional, que em número de 47 serviram como grupo de controle nos estudos levados a efeito pelo “The New England Journal of Medicine”. Há que se citar também o alívio que o reino das ervas oferecia ao masturbador contumaz, que em 97,3% dos casos relatados lograva aplacar o vício solitário com a ingestão diária de três cápsulas de semente moída de tangerina anã, até então empregada com sucesso enquanto antídoto e estancador do priapismo provocado pela catuaba.

Mas os tempos são outros, e a camomila, a hortelã, a erva-cidreir…

HÓSPEDE À REVELIA

Como se guarda uma relíquia de família: é dessa forma que forçosamente te hospedo, profana no sacrário dos sacrários. Não te dei nome nem finalidade, não te vi na Globo nem ali na esquina, nem famosa nem desconhecida tampouco alguém dirá que és. Também, para ser sincero, não sei nem de lourice nem morenidade que doure ou alveje tua pele, nem de cabelos lisos ou cacheados, nem de palavra tua que tenha ficado, ressoando, em meus ouvidos. Te conservo em silhueta indefinida, até que venha a hecatombe que dizime a raça humana, e tudo indica que não tarda esse momento. Marmórea e absoluta nunca te apresentaste. Não, não é materialmente organizada que fazes parte de meus móveis e utensílios, que surges pelos quadros nas paredes e impregnas com teu cheiro até os vapores das panelas. Existes enquanto ser que não há de ser, e fora da abstração jamais terás sobrevida, até porque perderias fatalmente teu encanto. És o ingresso para a ópera de encenação incerta e final arrebatador, sabes disso e t…

DE VOLTA PARA O FUTURO - VERSÃO BRASILEIRA

- Pronto.
- Gilberto?
- Sim.
- Não discuta comigo porque a gente não tem muito tempo. Aqui é você falando com você, aceite isso pra encurtar a história.
- Quem é o engraçadinho, heim?
- Eu sou o você do passado. Eu sou você aos 17. Deixa eu te explicar direitinho o que acontece: o nosso eu de 2062, ou seja, o Gilberto do futuro, tem uma mensagem urgente pra você. Ou pra nós, se preferir. Não desliga que o assunto é sério...
- Tudo bem, vou entrar na brincadeira. O que você quer comigo? Ou melhor, o que eu quero comigo?
- A gente está numa bela de uma enrascada, meu velho. Permita-me chamá-lo de velho, já que você, ou o eu que está aí, tem idade pra ser pai deste que vos fala. O sr. concorda?
- Mande o senhor para aquele lugar, seu pirralho.
- Eu não faria isso comigo. Afinal, eu somos nós, de forma que tenho que zelar por você o tempo todo, pelo meu próprio bem.
- Bom, pra encurtar o assunto...
- Ok, vamos lá.


- Nós temos 98 anos e estamos numa pior, lá em 2062.
- Nossa, que judiação...
- Deixa de …

CISMEI DE IR

Encasquetei, parti pra cima de mim e já fui logo ameaçando: eu vou. E quem sou eu pra discutir comigo? Acatei obediente. Não é de hoje que me devo essa viagem. Mas quero ir sem aviso, chegar se supetão é bom demais da conta. Pego a vida acontecendo de rédea frouxa, no passo lento, sem nada arrumadinho aguardando chegada.

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A linha da vida na mão do negro Milton aponta a vereda pra que se chegue a Minas são e salvo, assobiando em lombo de pangaré. Tia Júlia espera com o doce no tacho, mexendo em fogo brando o que éramos.
Lá na cidade, cervejas no copo espumam sobre a mesa meio bamba. Os Guedes e os Borges todos, o clube em sua esquina repleto de Brants, Bastos e Tisos, que vão parindo Nascimentos tantos pela tarde afora. Três Pontas. O sol na cabeça. Minas é dura, de pedra e de ferro, não poupa ninguém do suor na ladeira.

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São sete flautas cansadas a saudar nossa chegada. Tia Júlia espalha o sal da terra na massa do pão de queijo. Há um ritmo de monjolo que orquestra tudo ao redo…

LÚCIA FOI PARA O CÉU

Era uma vez a recatada Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!

E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.

Embar…