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CISMEI DE IR


Encasquetei, parti pra cima de mim e já fui logo ameaçando: eu vou. E quem sou eu pra discutir comigo? Acatei obediente. Não é de hoje que me devo essa viagem. Mas quero ir sem aviso, chegar se supetão é bom demais da conta. Pego a vida acontecendo de rédea frouxa, no passo lento, sem nada arrumadinho aguardando chegada.

******

A linha da vida na mão do negro Milton aponta a vereda pra que se chegue a Minas são e salvo, assobiando em lombo de pangaré. Tia Júlia espera com o doce no tacho, mexendo em fogo brando o que éramos.
Lá na cidade, cervejas no copo espumam sobre a mesa meio bamba. Os Guedes e os Borges todos, o clube em sua esquina repleto de Brants, Bastos e Tisos, que vão parindo Nascimentos tantos pela tarde afora. Três Pontas. O sol na cabeça. Minas é dura, de pedra e de ferro, não poupa ninguém do suor na ladeira.

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São sete flautas cansadas a saudar nossa chegada. Tia Júlia espalha o sal da terra na massa do pão de queijo. Há um ritmo de monjolo que orquestra tudo ao redor, do cuco ao crepitar da lenha.
Milton, braços cruzados, monta sentinela na plataforma da estação que é a vida do seu lugar. Beto, ao sol de primavera, passa a mão pelos cabelos, ri pra dentro, fala baixo. Receia olhar nos olhos, se basta consigo mesmo.

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Que notícias me dão dos amigos? Antonia casou. Gersinho tá pra Belzonte. Os outros sempre por aqui mesmo, do jeito que você deixou quando se foi sem mais aquela. Tudo com filho criado, agora. Mas magoados contigo. Quando você foi embora, fez-se noite no viver. Eita que doeu em todos não te ver jamais. Montanha pra riba, montanha pra baixo e nada de te encontrar. Se achegue que o café saiu agorinha. E não se moleste aí, conferindo as horas como se houvesse precisão de não atrasar compromisso. O tempo aqui, é bom que te lembre, é trem que custa pra passar.

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O ciclo do ouro no nome de Minas. Depois do almoço, no quarto da tia, a rede que range. A sesta da velha, a cesta de ovos, pilão pilando fubá e o sol a pino nos costados lá de fora. Libertas Quae Sera Tamen, mineira, liberta esse viço que não cansa os olhos nem descansa o apetite. Me diz inconfidências, mineira, que me deixem vermelho que nem goiabada. Que nem o triângulo da bandeira. Que nem a chita do teu vestido.

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Depois do amor, a fome. O doce escorre da colher aos teus mamilos. Amor de Minas é bom e manso. Espreguiçado assim, desse modo esparramado em linho branco. É pena que logo tenha que dar nos cascos, antes que chegue o teu dono oficial, ameaçando de morte essa vida que ganho nos teus braços lisos. No inverno te proteger, de manhã sair pra pescar. Verde lugar, paisagem desse caminhar.

******

Ixe, nem te conto o que acontece. Senta pra não cair de costas.
Jaca madura, quase passada, pedindo corte. A seiva adocicada esculpe no ar o que Minas tem de muito mole, que a bem dizer é quase tudo no embalar das indolências. Sem pressa, como convém, no toco fiz singrar o canivete, era pequeno mas lembro, faz tantos anos e foi ontem, sou capaz de te jurar.

- Minino, vem rapidim pa drento que tá sereno.

Frases que o vento vem às vezes me lembrar. Tralhas entulhadas, secos e molhados, Minas em geral.


© Direitos Reservados




Comentários

  1. Que delícia de descrição gastro-mineira-musical!
    Adoro seu jeito especial de acariciar as lembranças.
    Beijo, amigo!

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  2. Uai, Marcelim! Tá bão dimais essi palavrório, sô. Trem bão dimais! mais ocê bem pudia tê iscrito sobre uns torresmim, uns lombim cum farofa...

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  3. Belvedere Bruno1:46 PM

    Excelente! Vc escreve em jornal tb? Eu escrevo em dois e em uma revista. Adoro jornais.

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  4. Anônimo1:47 PM

    Muuuuito bom, Marcelo, você é um escritor de mão cheia...
    Tem algum livro publicado?
    Parbens

    Tereza

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  5. de minas lembro do céu coalhado de estrelas e meu querido avô, que hoje vive no céu olhando os astros bem de perto. lindo texto, amigo!

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  6. Nara Hailer8:39 AM

    adorei!

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  7. Ana Maria8:40 AM

    achei um texto delicioso.

    Ana

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  8. Milena2:34 PM

    adoooorei!rs

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  9. Paulinho4:24 PM

    Grande Marcelo,

    Sou sempre um observador atento às suas crônicas.

    Também sou um admirador das Minas e das Esquinas, com seus Borges e Nascimentos.

    Isso que descreveste foi real, já estiveste lá ou é fruto da imaginação?

    Acreditas que não conheço lá ( Tiradentes, Ouro Preto, etc ) mas parece que já fui?

    Em abril vou a um Congresso em BH e vou conhecer o clima de Minas ( o Triângulo Mineiro é São Paulo ).

    Um abraço,
    Paulinho.

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  10. Sandra Nogueira4:16 PM

    tenho um lado mineiro, de Ouro Fino, que me deixa íntima dessa prosa aí. As frases de compositores mineiros se casam completamente com o texto leve e bom. Pronto, quem mandou você dar corda? Agora estou me sentindo crítica literária. hahahahaha, não é muita audácia?
    abraço
    Sandra

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  11. Anônimo4:52 PM

    Caro Marcelo,



    “Cismei de ir” é um texto extremamente agradável, tanto pela simplicidade de compreensão quanto pelo linguajar característico de uma região que me é muito simpática. Aliás, é o modo de falar também incorporado pelos goianos, onde, por força de trabalho, vivi por cerca de três anos.

    E, ainda, minha nora que mora em Campinas-SP há um bom tempo, não perdeu de todo esse “jeitinho” de falar que tanto agrada aos ouvidos, pela calma e sutileza no encaminhamento das idéias que transmite ao conversar ou contar os “causos”.

    O texto retrata com muita riqueza de detalhes, o palavreado que pude ver e sentir nas vezes em que me foi possível estar, em algumas cidades do interior das Minas Gerais.

    E, até mesmo, em Belo Horizonte , cidade grande e capital do Estado ou, como você disse “belzonte”, os mineiros de lá, também, não perderam esse sotaque tão característico, do mineiro desconfiado, cismado e observador do comportamento dos forasteiros.

    Se o personagem revive ou não sua infância e adolescência eu não saberia dizer, mas, retrata muito bem o reencontro com aqueles que, um dia, deixou para trás, para além dos morros e montanhas, em busca dos novos horizontes.

    O pãozinho de queijo que, aqui pelas minhas bandas recebe o nome de “chipa” por conta da influência do vizinho Paraguai, não tem igual no sabor, assim, como a “caninha” ou “cachaça”, como queira, amarelinha da cor de mel, antes do jantar e o torresminho salpicado de limão antes ou junto com o almoço, complementam a minha dieta preferida nas terras de Tiradentes e da liberdade ainda que tardia e me faz esquecer que tenho que me preocupar com um tal de colesterol que “azucrina” a nossa cabeça.

    Ficar a beira da janela, diretamente na calçada, junto ao meio fio, observando e cumprimentando os vizinhos em suas idas e vindas partindo de todos os lugares indo para não sei onde, é um desafio ou jogo de adivinhação em descobrir quem vai onde e para que, se presta a ajudar o tal “trem” do tempo a passar.

    Marcelo, muito feliz esse texto, parabéns.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto

    ResponderExcluir
  12. elizete lee5:22 AM

    Eta!!!

    Deixou um cheiro de café de coador com pão de queijo,!

    "Diacho de prosa boa, sô..!

    Grande abraço
    Elizete

    ResponderExcluir

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