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LÚCIA FOI PARA O CÉU


Era uma vez a recatada Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!


E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.


Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Nelson7:19 AM

    Show Marcelo!!!!

    Abração!!

    Nelson

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  2. João Batista7:24 AM

    Gostei de "Lúcia foi para o céu".
    Feliz fim de semana.Seu pai.

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  3. Lucy in the Sky with Diamonds, aquela polêmica toda se a música seria uma alusão ao LSD. Caro, Marcelo, qual seria a alusão duñesca para LFPC? O texto, pra variar, irrepreensível, mas fica uma interrogação pela sigla. abraço e prbs.

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  4. sigla, lúcia. e siglo-te para onde fores.

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  5. Elizete Lee5:14 PM

    Poético e perturbador.

    Que a Luz de sua poesia esteja sempre resplandecendo em nossas vidas.
    Sincero carinho
    Elizete

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  6. Filipe Moretzsohn11:49 PM

    Nego, teria alguma inspiração em LUCY IN THE SKY?
    Grande texto,
    Até mais,
    Filipe

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  7. Marcelo11:52 PM

    Lauro e Filipe,
    Sim, há uma sugestão à Lucy dos Beatles. Mas a referência acaba aí, já que a minha pobre Lúcia não tem nada a ver com a Lucy cheia de diamantes dos fab four...

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  8. Sandra Nogueira10:21 AM

    que texto lindo e tocante, emocionou-me, como se eu conhecesse Lúcia e fosse real seu adeus. Pudessem todas as Lúcias, saltando de penhascos ou não, terem um poeta para enaltecer seus atos..... Lindo!
    abração
    Sandra

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  9. Belvedere Bruno10:22 AM

    Muito bom. Excelente! Abs
    Belvedere

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  10. Ana Maria4:16 AM

    gostei muito e me ví nela!

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  11. Maria Amélia7:15 AM

    Amei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    demaisssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  12. Lindo, Marcelo!
    Fiquei pensando em quantas lúcias nós, mulheres, ainda temos a conhecer...
    Beijo!

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  13. Anônimo7:16 AM

    Muito booooooooooom!!!
    parabéns por mais esse.
    bj da fã
    Núbia

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  14. carlos alberto5:40 PM

    Caro Marcelo,



    “Lúcia foi para o céu” é um texto interessante na medida em que se possa abstrair do objeto concreto e material com que comumente encaramos o nosso dia a dia e muitos, até mesmo, a própria vida.

    Porém, transcendendo a linguagem metafórica, poderíamos associar com a nossa infinita capacidade de recriar nosso destino deixando-nos viajar ao interior de nosso ser em busca das respostas as nossas dúvidas.

    Crença intrínseca, sobretudo dos orientais que buscam harmonizar-se com o meio e consigo mesmo, através da captação da energia cósmica que, fluindo pelo corpo material lhes proporcionam conforto e fortalecimento de suas convicções.

    E, tem muito sentido, desde que sabemos que somos feitos do mesmo material que constitui o universo e tudo o que o envolve e que se mantém em equilíbrio molécula a molécula, átomo a átomo, até o ínfimo e imperceptível núcleo de cada uma das células dos corpos humanos e celestes.

    Portanto, a Lúcia do texto, deve, na melhor das hipóteses, ser uma exímia praticante de “yoga” com todas as habilidades inerentes aos exercícios daquilo que poderíamos chamar, no bom sentido, de capacidade para viagem astral.

    Nós mesmos, menos conhecedores de tais técnicas, poderíamos experimentar essa sensação nos três ou cinco minutos que antecedem ao sono profundo. O difícil é nos lembrar antes e depois.

    Um forte abraço.

    Carlos Alberto

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