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Mostrando postagens de Maio, 2008

A SEUS PÉS

Ela está me olhando, como se tivesse vida a coisa de quatro pernas, um assento e um encosto. É móvel promovido com o passar do tempo à condição de ente querido, pois muito bem pode uma cadeira pôr-se acima das funções de acolher o cansaço e sustentar quem seja na troca de uma lâmpada. Ao menos essa cadeira pode, já que tem veias e vísceras e carrega em sua madeira o DNA da família e o endereço de casa.

Vem a música do Burt Bacharach, “A house is not a home”, dizendo que “a chair is still a chair”. Uma casa com uma cadeira dessas, que mesmo muda é capaz de me contar tantas histórias, é um lar afinal de contas. Acorre em viva cor o longínquo aniversário em que me empoleirei nela para alcançar a velinha do bolo. Muito depois, houve uma temporada em que quase toda tarde, esparramado na poltrona, nela apoiava os pés, fumando e tomando cerveja a olhar o quadro de Paris à noite - aquele para sempre na sala de estar, com o Arco do Triunfo em pinceladas grossas.

Há muita coisa além do automatism…

RELATO DE PRISCAS ERAS

A José Saramago, pela inspiração

Por um decreto natural, sem prévio aviso, abriu-se uma fenda de fora a fora do mundo, que engoliu aquele tempo e aquelas coisas do jeito que eram para continuarem indefinidamente sendo daquela forma. Das duas margens do grande racho foram tragados homens, mulheres e crianças, abajures, carros, telefones, estantes de livros e mesas de variados feitios e estilos. Essas coisas e seres, eleitas ao acaso pelo capricho do vale que se abria, permaneceram imunes ao estrago e à velhice. O tempo deixou de exercer sua ação sobre eles e instaurou-se o caos, embora seja sabido que chegou a existir uma constituição, um hino e até uma bandeira da pátria atemporal - ainda que ninguém tenha efetivamente testemunhado o hasteamento da mesma.

Multiplicavam-se os humanos entre as dois blocos rochosos, por não terem muito o que fazer exceto procriar e observar a fenda abrir-se mais e mais, tanto em largura quanto em profundidade. E os bebês uma vez nascidos perpetuavam-se beb…

PASTORAL

Pasta o verde da fazenda no amendoal dos teus olhos. Lavoro onírico, delírio que toma corpo e afronta o cansaço-cão. O trem da Mogiana vem chegando e descarrila ao topar com teus desvios. Bifurcadora de sinas, segues gestando tornados. O sol a pedir licença pra se pôr em tua figura. Não há átomo no cosmo que, ao pressentir tua passagem, não fique tomado de espanto e seja teu servo devoto.
Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.
Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?
O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É …

HOMENAGEM À VÓ TINHOCA

A Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.

Nascida Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97 longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem freqüentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.

Não obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá seus santos no oratório doméstico, e era bom mes…

GELO

Preso no ímã da porta da geladeira estava um bilhete de Maria Carolina, um pouco mais extenso e muito menos inocente que a média dos bilhetes domésticos.


“Sempre a mesma carne, todo dia, cansa. Precisa dar aquela variadinha básica no cardápio, e foi isso o que fiz, amor. Te traí porque sou humana, seria mais fria que esta geladeira se ficasse só ao teu lado e fizesse vista grossa à grande oferta de outros homens. Sendo a vida uma só, me parece muito pouco pretensioso conformar-me ao convívio de tuas manias mesquinhas, tua escova de dentes em péssimo estado, teu ar de cardíaco no pós-operatório e tua barriga de cerveja que cresce junto com a minha repulsa. Eu fiz o que tinha que ser feito em hotéis vagabundos, nas festas da firma – da firma em que você trabalha, diga-se de passagem, e até em mictório de metrô. Eu fiz com quem se habilitasse e tivesse aquele negócio em razoável estado de funcionamento. Eu fazia onde desse, e confesso que afoitamente e no improviso era melhor. Nos carros …