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GELO


Preso no ímã da porta da geladeira estava um bilhete de Maria Carolina, um pouco mais extenso e muito menos inocente que a média dos bilhetes domésticos.


“Sempre a mesma carne, todo dia, cansa. Precisa dar aquela variadinha básica no cardápio, e foi isso o que fiz, amor. Te traí porque sou humana, seria mais fria que esta geladeira se ficasse só ao teu lado e fizesse vista grossa à grande oferta de outros homens. Sendo a vida uma só, me parece muito pouco pretensioso conformar-me ao convívio de tuas manias mesquinhas, tua escova de dentes em péssimo estado, teu ar de cardíaco no pós-operatório e tua barriga de cerveja que cresce junto com a minha repulsa. Eu fiz o que tinha que ser feito em hotéis vagabundos, nas festas da firma – da firma em que você trabalha, diga-se de passagem, e até em mictório de metrô. Eu fiz com quem se habilitasse e tivesse aquele negócio em razoável estado de funcionamento. Eu fazia onde desse, e confesso que afoitamente e no improviso era melhor. Nos carros pequenos e grandes, muros, quitinetes emprestados e na roda gigante de um parque de diversões, com um sujeito barbudo que puxava uma perna, coitado. Teve um dia, amor, que foi na escada de incêndio, aqui mesmo em nosso prédio, com três vizinhos de uma vez e mais aquela morena de cabelo liso do 121. E quando disse que ia ao cabeleireiro, na terça passada, estava era tirando um filho de nem sei quem. Eu te sacaneei demais, se tem outra vida além dessa miséria em que a gente se arrasta, minha luxúria já cavou lugar cativo no fundo do inferno, à direita do coisa-ruim. E quanto mais eu fazia de dia, mais eu gostava de ir contigo à noite, pela cosquinha de saber que você nada sabia, pelo gosto de enganar mesmo. Dava uma pena danada ver você ali, arfando com uma pontinha de orgulho, achando que a minha fome era sinal de que eu me guardava pra ti. Se serve de consolo, fica sabendo que a dependência em fornicação variada é de família. Tua sogra nunca prestou, desde a menarca até hoje, e a mãe dela quase foi presa, tamanho o fogo e a devassidão. Quanto aos nossos filhos, nem precisa ficar na dúvida. Já de cara eu te garanto que não são teus, mas não exija de mim um prognóstico de possíveis pais. Seria leviana em arriscar um short-list, e dentre os inúmeros suspeitos está o teu irmão, Lúcio, pedaço de mau caminho que me levou às nuvens na piscina da casa de praia, no réveillon de 2002, enquanto você roncava entupido de vinho. Se depois de tudo isso ainda tiver fome, tem carne de panela no potinho atrás da gelatina. É só esquentar. Até um dia, amor.”

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Állan5:48 PM

    supreendente como sempre e não cansamos de ler a mesma carne que nos
    oferece toda semana.

    grande abraço,
    ´Állan

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  2. Marcelo, 1:15 da madruga, tomei uns gorós e tô um bocado sentimentalóide: estou me condoendo pelo corno e o meu instinto mais primitivo me faz querer descer a mão na ninfo vagabunda.

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  3. Sandra5:33 AM

    Olá Marcelo, tudo bem com vc ?
    Acabei de ler Gelo e gostaria de entender de onde vem tanta criatividade em tão pouco tempo, afinal todas as semanas vc precisa de novas idéias !
    Achei ótimo e que Deus te conserve assim tão especial !!!!

    Um grande abraço p/ vc e p/a Tininha e um ótimo final de semana.

    Sandra

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  4. Mais sangue vivo de carne escorrendo na geladeira impossível!
    Carne ao ponto, amigo Marcelo!
    Beijo!

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  5. Seu Pedro9:26 AM

    E o cara achou a carne de panela atrás da gelatina? Pô a mulhar é boa, deixou comida para ele!
    Por isto é que aconselho não usar ímãs na porta da geladeira....

    Um abs...

    Edito esta ou a do chápeu?

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  6. Maria Amélia3:09 PM

    uiaaaa..que serelepeeee, hein!!???

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  7. amigo, que terremoto hein! depois dessa bomba, o galo da previsão do tempo ficou roxo e caiu pra trás, e o pinguim foi procurar abrigo em outra freguesia, ou outra geladeira menos tsunâmica. bravo!

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  8. Milena8:07 AM

    Gostei da sinceridade nua e crua dessa mulher! Vixe! Caprichou heim Marceleza?!

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  9. Anônimo8:12 AM

    Marcelo:
    Esta foi quente, ousada, surrealista(?), sadomasoquista, tétrica, bem aplicada nas duas bolas, mas, muito criativa, muito bem bolada. Fico imaginando de onde você sai com estas e outras, qual seu estado de espírito, para mim sui generis, desprovido de qualquer preconceito conceitual, talvez com a mente centrada nas coisas inusitadas que poucos ousam ousar. Como você tem o dom de tamanha criatividade, proponho um desafio, sem querer me remeter por plágio ao livro do Saramago, "As Intermitências da Morte", aliás muito bom, que você, assim como eu, escrevamos uma crônica com o seguinte título: "A autópsia da morte". Não quero que assuma tal compromisso, pois, cá entre nós, você não precisa de sugestões. Mas aí está a proposta. Outro dia um desavisado amigo, achando que eu possivelmente fugiria da raia, propôs um desafio nestes moldes, cujo tema foi: "Como é que pode?" Um tema muito vago, convenhamos. O que cada um de nós produziu de abobrinhas em um passeio maluco por coisas da vida e do dia-a-dia foi de estarrecer. A proposta atual é juntarmos as duas para ver no que dará o festival devaneios, ou tiradas, que não levam a nada, mas, para quem sobra tempo, é lúdico, pelo menos.
    Um abraço. Em tempo: conheço um Sguassabia, não sei se é teu parente, o Juarez, advogado, que sempre encontro. Gente fina!
    Jotace.

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  10. Tadeu8:16 AM

    Marcelo, depois um final de semana frio, foi bom ver o realismo e a assertividade da Maria Carolina. Sua crônica deu um frio na barriga. Ficarei um tempo sem procurar bilhetes na geladeira!

    Tadeu

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  11. Helô9:12 AM

    uau!!!! show!!! adoro textos assim, acho que sou meio revoltada com a vida (com a minha)... :) boa semana! bjsssssssssss

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  12. Fez-me lembrar Nelson Rodrigues, A vida como ela é.
    É isso aí!

    Beijos
    Malu

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  13. Elizete Lee5:52 PM

    Um soco na boca do estomâgo!

    Abraços sinceros.

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  14. Sandra Nogueira8:05 AM

    Marcelo, você é demais, adoro o que escreve. Tomei a liberdade de copiar o texto para um amigo, ator de teatro e ele amou também.
    um abraço gelado rsrsrsrs
    Sandra

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  15. Nossa, demais! A carne: a mesma. Será que alguém consegue ficar com uma só por toda a vida? - Sei lá. Sinceramente.

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  16. Nelson8:32 AM

    Ótimo Marcelo! Esse ainda não tinha lido!
    rs.... Parabéns!!!!

    Abs!!!

    Nelson

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