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A SEUS PÉS


Ela está me olhando, como se tivesse vida a coisa de quatro pernas, um assento e um encosto. É móvel promovido com o passar do tempo à condição de ente querido, pois muito bem pode uma cadeira pôr-se acima das funções de acolher o cansaço e sustentar quem seja na troca de uma lâmpada. Ao menos essa cadeira pode, já que tem veias e vísceras e carrega em sua madeira o DNA da família e o endereço de casa.

Vem a música do Burt Bacharach, “A house is not a home”, dizendo que “a chair is still a chair”. Uma casa com uma cadeira dessas, que mesmo muda é capaz de me contar tantas histórias, é um lar afinal de contas. Acorre em viva cor o longínquo aniversário em que me empoleirei nela para alcançar a velinha do bolo. Muito depois, houve uma temporada em que quase toda tarde, esparramado na poltrona, nela apoiava os pés, fumando e tomando cerveja a olhar o quadro de Paris à noite - aquele para sempre na sala de estar, com o Arco do Triunfo em pinceladas grossas.

Há muita coisa além do automatismo dos cafés da manhã e das refeições na memória da minha cadeira, se é que a posso chamar de minha. Nela em algum momento fez-se intriga, confissões e certamente até sexo, a sós e a dois. Testemunhou ela insultos, afagos e cochilos, mães amamentando, fiéis em novena. Foi refúgio da criançada no esconde-esconde e serviu à platéia em saraus improvisados e discursos de sobremesa. Nessa cadeira à minha frente consolou-se gente em aflição, no luto e na angústia das esperas. Passou de palhinha a couro, de verniz a pátina, sem perder a identificação metálica embaixo do assento, com o selo da “Casa Allemã”. Conheceu dezenas de caminhões de mudança e tinha doze companheiras a princípio, quando a mobília era completa. Mas jamais foi objeto de cobiça. Manteve-se mera cadeira, com a discreta dignidade das cadeiras de família, tendo mais valor estimativo que monetário. Sentiu os suores frios e os arroubos dos finais de copas do mundo, no senta-levanta nervoso da torcida. Acudiu como amparo na hora da notícia triste, foi inventariada e trocou de mãos no correr das gerações.

Braços firmes e pernas nem tanto, ela parece fazer comigo esse retrospecto e permanece me encarando sem expressão, com a mesma frieza da vidraça às suas costas. É provável que sinta-se ainda hoje parte da imbuia que a gestou, ao passo que sinto nela uma finalidade e um sentido que não se esgotam no instrumento cadeira e sua mecânica utilidade.

Quando morrer, alguém se sentará nela para chorar o que fui e o que não deu tempo de ser. Um neto, quem sabe um bisneto, se tiver a sorte de viver bastante. Seja lá quem, será alguém que possivelmente pouco compreenderá do insondável da vida e do além dela, que estará ali circunspecto e calado ante o pesar da perda. Revoltado com a tirania do findar-se ou esperançoso com a perspectiva de um paraíso onde deverei flanar tendo assuntos mais nobres em mente, despreocupado com móveis e utensílios que a terra há de comer. Liberto da cansada carne para ser de novo menino, trepado em outras cadeiras de outros mundos. Então verei minha peça da “Casa Allemã” desfazer-se e passar a decorar as salas das lembranças dos que ficam.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Belo demais, Marcelo!!!
    Pensei tanto nessas emoções todas ao olhar para alguns objetos, no entanto não seria capaz de expressá-las em palavras tão bem dispostas, certeiras, belas e corretas como as suas.
    Tão bom ler seus textos!
    Beijo, amigo!

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  2. João Batista2:07 AM

    parabéns pela
    linda crônica "A seus pés". Inspiradíssima e passa
    para as pessoas o que você vive nesse belíssimo
    trabalho.

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  3. Anônimo8:00 AM

    Oi Marcelo

    percebo nas lembranças coisas que voce escreveu

    é uma sensação boa

    as cadeiras , lendo isto lembrei da impressão percepção que eu tinha
    quando criança e observava as cadeiras

    vou fazer um pedido


    quero que voce escreva uma série

    a forma que as emoções aparecem nos seus textos muda a captação a
    onda a frequencia

    e isto ficou muito claro no texto A Missa , aquele ambiente sacro e a
    sensualidade proibida e insistente
    produzindo um conflito interno

    uma série neste contexto doze textos histórias capítulos

    bom domingo

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  4. Mel Coelho8:02 AM

    Oi Marcelo,

    Foi um prazer enorme ler sua crônica. Também tenho a sensação, as vezes, que as coisas inanimadas têm alguma alma, haahahahahahahah...

    Carinho,
    Mel

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  5. Regina Costa8:07 AM

    Ola Marcelo,
    Seu texto veio dar calor a este domingo chuvoso e frio que faz no Rio.
    Ha muito que nao leio alguem capaz de bordar palavras com tanta sensibilidade.Parabens e obrigada pelo momento magico.
    Abraçao

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  6. Marcelo, estou descadeirado com a sua sensibilidade em extrair poesia de prosaicos objetos. FANTÁSTICO!!! Qual será a próxima da série? As confissões de um criado-mudo? E sabe do que me lembrei? Nada a ver com sua cadeira poética, essa lembrança foi uma pândega que também daria ótima crônica. Em 1985, FHC disputava a prefeitura de SP com o Jânio. Antes da eleição, ele sentou-se na cadeira de prefeito para uma foto. Perdeu a eleição e Jânio assumiu desinfetando a cadeira justificando: "Nádegas indevidas a usaram". abraços crepusculares cheios de reverência.

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  7. Evelyne12:11 PM

    Lindo texto, Marcelo! Você é um mago ( opa! não quero ofender,rs) das palavras. Amei o que li. Você deu vida(s) a um objeto e me encantou.
    Bom domingo!
    Abração.

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  8. Elizete Lee12:18 PM

    Querido Marcelo!

    Só tua sensibilidade é capaz de tornar os objetos em personagens vivos em nosso palco da vida.

    Mais uma vez; PARABÉNS...
    Abraço fraterno.

    ResponderExcluir
  9. Lindo, sensível, mágico!

    Malu

    ResponderExcluir
  10. Marília5:31 AM

    Marcelo
    Ando sumida.
    Que maravilhoso! Sensível!!!
    Um beijo e obrigada.
    Marília

    ResponderExcluir
  11. Tadeu5:32 AM

    Caro Marcelo, estou deixando a agência. Mas não gostaria de deixar suas crônicas. Por favor, use o e-mail: tadeubrettas@terra.com.br

    Um abraço e obrigado pela oportunidade de ter trabalhado contigo!

    Tadeu

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  12. Rosa Pena5:47 AM

    espetacular..........beijos

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  13. Maria Inês8:04 AM

    Amei sua crônica!

    Há tempos escrevi algo similar, enfatizando que cada objeto, por mais simples e comum que seja, é personagem de muitas histórias.
    Uma das primeiras histórias da sua cadeira seria contada pela árvore que produz a belíssima madeira de lei - a imbuia. Quem sabe, declinaria lamentos, por ter sido cortada, ou orgulhosa, por estar numa cadeira de tanta serventia e poesia...
    Ah, se tempo nos fosse dado para escrever sobre cada um que passa pelas nossas mãos...e toca nossas lembranças! Não haveria papel que chegasse, não é?

    Abraço,
    M.Inês Prado
    colaboradora do EDIÇÃO EXTRA

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  14. Sandra Nogueira8:37 AM

    Marcelo, bela pessoa, você está se tornando meu escritor favorito, falo sério! Que belo presente, a semana começou melhor.
    um grande abraço e a esperança de tomar um café juntos, não na sua cadeira, claro, mas em um outra qualquer que guarde em suas entranhas a energia de cada um que nela se acomode, troque confidências, ou simplesmente relaxe após um dia pesado.
    beijão
    Sandra

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  15. Marieta10:01 AM

    LINDO....ADOREI, MESMO AINDA SENDO PRESENTE JÁ CAUSA MUITA SAUDADE.
    PROMETO QUE UM DIA ELA VAI PRÁ SUA CASA HA HA HA (DEUS ME LIVRE DOS FANTASMAS...)
    BEIJOS



    Marieta

    ResponderExcluir
  16. Marieta10:03 AM

    LINDO....ADOREI, MESMO AINDA SENDO PRESENTE JÁ CAUSA MUITA SAUDADE.
    PROMETO QUE UM DIA ELA VAI PRÁ SUA CASA HA HA HA (DEUS ME LIVRE DOS FANTASMAS...)
    BEIJOS



    Marieta

    ResponderExcluir
  17. Adriano7:29 AM

    MARAVILHOSO!!! Meus olhos se encheram d'água. De verdade! Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  18. Maria Amélia8:20 AM

    Muito bom, Marcelo!!



    Adorei.........

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  19. Belvedere Bruno2:40 PM

    Excelente!!!!!!!!!!!!!! J´apublicou livro? Se já, me envie um. Sou divulgadora culturall, rs
    Bjssssssssssss

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  20. Tereza8:14 AM

    "A Seus Pés"
    é de uma beleza
    absolutamente
    desconcertante!!!!!!!!!!!!!
    Meu Deus, que coisa linda!!
    Abençoados sejam você e sua sensibilidade!!
    Grande bjo!!!

    ResponderExcluir
  21. Sua sensibilidade é magnífica, você consegue enxergar no cotidiano a essência mágica da vida!

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