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ENFIM SEU


O tempo, esse escasso recurso não renovável, abriu um precedente em sua pressa e escorreu naquele dia lentamente entre seus dedos. E que delícia esse vagar liquefeito, que deslumbre nesse poderio. Viu que ele, o sisudo regente dos ponteiros, era melado e viscoso, descobriu nele a saliva doce das virgens que deixara de beijar por achar que a elas devia compostura em seu cheiro de recato e em suas roupas de muitos botões. Qual o quê.

O tempo tomou forma de nuvens, tantas e de sortidos contornos, aquelas que deixou de apreciar por justamente não ter tempo. Foi quando decidiu encaixotá-lo, em forte compartimento – com cadeado, segredo e tudo, a fim de que doravante fosse o tempo estacionado, sem razão de ir-se esgotando. E que não prosseguisse em slow-motion, e sim pausado ficasse, suspenso pelo cansaço de não passar mais e gritasse revolto, de dentro da caixa, para voltar a correr. Mas agora ele era o amo do ingrato ir-se das horas, manteria-o criança e seu refém até segunda ordem, e estaria em suas mãos deixar ou não o tempo tornar a marcar o tempo, criar as rugas, delimitar começos e finitudes dos amores dos homens, das estações do ano, dos trabalhos enfadonhos e das esperas nas filas. O tempo seqüestrado guardaria forçosamente o frescor da pétala em viço pleno, a tez de pêssego das moças não mais desembocaria na aridez das velhas. Era dele, enfim, a caixa do bem e do mal, o termo de toda vã filosofia, o relógio que ao adiantar-se ou atrasar-se, da forma que bem entendesse, iria do nascimento ao velório e do velório ao nascimento. Divertia-se, ria o riso destravado ao viver o que não fora. Agora era brincar de vice-versa, no cerne do inesgotar-se.


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Comentários

  1. "Agora era brincar de vice-versa, no cerne do inesgotar-se."

    Ah, Marcelo, que bom seria se assim fosse...
    Pensei em uma continuação... as conseqüências de brincar de vice-versa... daria outro texto interessante!

    Bom demais, amigo!

    Beijo!

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  2. Marcelo meu amigo, quequéisso bardo maior???? que petardo curto, inebriante, cronologicamente perfeito. Que N.Sra. das Macaúbas continue jogando luz na sua inspiração? abç

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  3. Ana Lucia Finazzi1:07 PM

    Olá primo
    Muito lindo.
    beijos

    Ana Lucia

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  4. João1:10 PM

    Léo, Gostei. Feliz fim de semana para todos. Beijos de seu pai.

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  5. Filipe Moretzsohn6:05 AM

    Cara, esse foi o melhor de todos os tempos.
    Afinal de contas, o tempo urge e o prazo é curto.
    Abrs, Sgrilóide.

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  6. Ana Maria6:42 AM

    poesia pura!muito encantador

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  7. Anônimo9:03 AM

    onde esta a minha caixa ?

    depois desta estimulada , vejo a plasticidade , o abstrato vira substancia, uma dimensão tão incompreensível
    simplificada e dominável

    quando achar a minha caixa , provavelmente abrirei , para sentir como é o passar do tempo , ja que estou ligado
    ao futuro e pra mim isto aqui parece parado .

    boa semana ,

    obrigado por agitar o meu neuronio

    Fabio

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  8. Regina9:05 AM

    Olá Marcelo,
    Acabei de ler seu texto. A questão do tempo -inexorável - é sempre uma bela matéria para os escritores. Gostei muito de sua visão do tempo. Eu também, se pudesse, aprisiona-lo-ia por um bom tempo...bj e boa semana.

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  9. Elizete Lee3:47 PM

    A gente vive guardando objetos que de alguma maneira poderiam nos transportar através de uma imaginária máquina do tempo, mas tudo é tão fugaz e ilusório.

    um fraterno abraço

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  10. Sandra Nogueira10:01 AM

    Tenho para mim que você deve ter sido e ainda ser um bom namorado. Há em você um lado irônico divertidíssimo e muito romantismo. Beleza de texto, eu amei!!!!
    abraço
    Sandra

    ResponderExcluir
  11. Sandra Nogueira10:01 AM

    Tenho para mim que você deve ter sido e ainda ser um bom namorado. Há em você um lado irônico divertidíssimo e muito romantismo. Beleza de texto, eu amei!!!!
    abraço
    Sandra

    ResponderExcluir
  12. núbia12:31 PM

    bom mesmo foi ter arrumado um TEMPINHO pra ler seu texto... tempo bem gasto! =) parabéns...rs... pra variar!

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