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NÃO ME VENHA COM FIRULAS


Certo, muito certo quem diz que em boca fechada não entra mosquito – embora, dizendo isso, já esteja o dito cujo contraditoriamente abrindo a boca. Derivo a expressão popular para o papel e afirmo que página em branco quase sempre em branco mereceria ficar, abortar a idéia de um texto esquecível é um fardo a menos que se leva e que se impõe a quem lê, é uma contribuição que se dá para que o mundo continue sendo um lugar razoavelmente prático de se viver.

Pois digo, feitas estas considerações, que viva o café da manhã e sua função de alimentar, viva a aula de geografia e sua função de instruir, viva o sexo a intervalos regulares e sua função de procriar, liberar endorfinas, tornar os dois humanos envolvidos provisoriamente saciados e com baixos teores de neurose no trato social.

De que serve, convenhamos, a insistência em coisas sem serventia, que não caibam no porta-malas envoltas em plástico-bolha, não tenham manual do proprietário e não se ponham a acender seus leds indicadores de funcionamento quando pressionado o botão esquerdo do painel frontal?

Viva o pai que se engravata e sai à caça do leão de cada dia para sustentar as bocas que tem em casa, viva a mãe com suas panelas na fervura e seus tupperwares no freezer, viva a solidariedade providencial dos vizinhos a nos suprir com suas xícaras de açúcar.

Louvado seja o Louva-Deus em sua silenciosa missão na cadeia alimentar, bendito seja o Benedito, primo-irmão do Juvenal, aquele que entrega em mãos as contas do Credicard. Ergam-se bustos e confiram-se títulos de cidadãos beneméritos aos carrancudos engenheiros debruçados em cálculos e estruturas, a projetar pontes para que as hordas dos desocupados possam vagar com segurança.

Soem todas as trombetas em honra e glória à barba bem escanhoada, ao dízimo recolhido pontualmente, às revisões automotivas feitas nos prazos previstos, aos sapatos que espelham o asseio do dono, aos esquecidos hábitos de levar um lenço ao bolso e trazer sempre um guarda-chuva à mão.

Corra assim o real da vida, ainda que tosca e sem quinhão de alento, mas vivida em carne viva. Rude que só vendo, regida pelas estações mal definidas, greves, partos prematuros e buracos na pista.

Abaixo a cantilena estéril dos poetas, a troca que o ator tem com a platéia, os compêndios filosóficos e as notas de rodapé. Exceção se faça a Los Hermanos, me dizendo agora, em meu dispensável MP4, que “sem você sou pá furada”.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Elizete Lee5:26 PM

    Marcelo,

    Você com toda essa carga poética me fez sentir o quanto é bom entrar no "blog consoantes reticentes" e poder ter a liberdade de fazer um comentário, mesmo que não seja do tamanho de sua grandeza.

    Parabéns...

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  2. Evelyne3:15 AM

    Tá bom demais seu texto. Seu discurso além de bem escrito, fluente e irônico, cumpre sua missão, sem senhor.

    Beijão e noite boa.

    Veca

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  3. Mary Maia3:16 AM

    Sim, meu amigo. Viva "Los Hermanos'' que só me confirma (ou confirmam) que "sem você sou pá furada''. (Você é você mesmo, o Marcelo)A cada texto seu fico mais encantada. Não são meros elogios ou a troca deles.Gosto mesmo, muito, da sua maneira de escrever. Tenho até comentado isso com algumas pessoas.Foi uma feliz descoberta para mim.Foi (é) uma benção te "conhecer". Continuo pedindo: Não me prive do encantamento.Obrigada!BeijosMary( Qual a origem de Sguassábia?) Cá com os meus botões, acho que tem a ver com sabedoria: Sábia, a sua mãe que te colocou no mundo e depois no cartório erraram. Deveria ser SguassábiO. Nem adianta falar que a minha 'teoria' está errada. Acho que é, e pronto! hehe : ))

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  4. Rosa Pena5:41 AM

    Viva o fardo de te ler, Viva os teus textos esquecíveis , viva as endorfinas que eles liberam, louvada seja a net que me traz uma crônica deliciosa de café da manhã num domingo medíocre . Sem escritos assim para me fazer pensar, sorrir, não sou nem pá.Um beijo meu amigorosa

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  5. João Batista8:31 AM

    Gostei do "Não me venha com firulas". Parabéns!Beijos de seu pai.Sua mãe está passando bem.

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  6. Clineida8:32 AM

    marcelo lindo e culto amei esse seu texto o ql li mto rapidamente; mas deu p entender o belo jogo de palavras, super diferente e atipico....como vc! abracos 1000

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  7. ... e confetes ao cronista que lavra, revisa e apara para entregar aos seus féis uma obra para deleite, para ler e reler, para guardar... Rapá, show de texto, necessária reverência ao óbvio.

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  8. Ana Maria5:10 AM

    muito bom, Marcelo!

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  9. Leopoldo5:24 AM

    Eta firulada de texto legal. Parabéns irmão!

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  10. Maria Amélia8:10 AM

    E Viva o Marcelo que faz aniversário 365 vezes por ano e nos presenteia com seus textos às segundas pela manhã!!!



    Ótima semana, Marcelo.

    Bjos e Parabéns

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  11. três vivas animados ao amigo mestre do laboro gramatical!

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  12. Sandra Nogueira8:06 AM

    Prazer adiado, hoje pude ler tranquilamente e me aprofundar nas suas palavras tão bem colocadas que chego a pensar que você é um escultor.
    abraço grande
    Sandra

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  13. Regina8:33 AM

    Olá Marcelo,
    Sem firulas: excelente seu texto da semana. Penso que vc já está fazendo uma espécie de "catequese" com seus leitores...rsrsrs
    Abs e boa semana

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