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PROLIXO

Coloco sem pestanejar o meu cargo à disposição e a minha honra em jogo se não for a pura expressão da verdade o que irei narrar nas linhas que seguem.


Juro, com a mão direita sobre a Bíblia, perante a justiça de Deus e a dos homens, que nada omitirei ou acrescentarei à bombástica e reveladora sucessão de acontecimentos de que fui testemunha, afirmando que os mesmos têm efetivamente o poder de mudar o curso atual da história e afetar de forma indelével e contundente a vida de um terço da humanidade, numa projeção bastante conservadora e tomando-se por base a parcela economicamente ativa da população.


Alerto, de antemão e a quem interessar possa, que me encontro munido do necessário arcabouço jurídico para defender-me daqueles que, maldosa e levianamente, tencionarem levar-me às barras dos tribunais por provocar-lhes eventuais infartos do miocárdio, colapsos nervosos, palpitações, tremedeiras, espasmos e outros fenômenos de natureza semelhante e conseqüências potencialmente fatais, advindos das revelações a serem por mim anunciadas.


Ainda que se argumente que tais revelações não se caracterizem em si mesmas, numa análise fria e cartesiana, como capazes de insuflar o pânico nas massas e manifestações de protesto das categorias profissionais mais articuladas, seus insondáveis desdobramentos levariam a resultados a bem dizer catastróficos. Políticas internas e relações internacionais, economias capitalistas e socialistas, transportes coletivos e individuais e até mesmo a sintaxe dos idiomas atualmente falados no planeta seriam mortalmente abatidos e cruelmente dizimados de forma truculenta, impiedosa e avassaladora, mesmo que empreendidos todos os esforços em contrário.


Do ponto de vista da prudência e do instinto de auto-preservação, não há dúvida de que deveria este escrevinhador desviar a pauta para assuntos mais amenos, que em nada lembrassem o messianismo e a responsabilidade imensa de que forçosamente estou imbuído, na qualidade de guardião de um segredo capaz de deflagrar centenas de revoluções simultâneas nos quatro cantos do mundo. Algo, porém, lá no fundo da alma e da consciência, clama para que a verdade venha à tona, custe o que custar e doa a quem doer. Mesmo que possa ganhar legiões de inimigos, que seja injustamente chamado de anticristo e taxado pelas esquinas de pomo da discórdia, não renunciarei ao me direito de livre expressão e ao meu dever de alertar a comunidade do iminente perigo que corre.


Expostas estas indispensáveis considerações, iria finalmente elencar os fatos, não fosse ter percebido nesse exato instante (uma e meia da madrugada, horário de Brasília) que o limitado espaço que possuo (três mil caracteres, no máximo) ora se esgota, à minha revelia e ante a justificada ira de meus dois ou três leitores. Por serem assim tão poucos, creio não correr sério risco de vida. Até porque, se me matarem, aí é que não saberão mesmo do que afinal se trata aquilo que estou falando – assunto ao qual prometo voltar tão logo me seja possível.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Evelyne7:31 AM

    Primeira leitura do dia e a delícia de ler Marcelo . Encantador prolixo ou não...

    Menino, ( perdoe, a intimidade) "simplesmente demais da conta," rsrs

    Não tema estou a milhas e milhas de você, não sei os outros 3 + alguns zeros.

    Maravilha de texto!

    Bom fim de semana e beijos

    Evelyne

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  2. João7:33 AM

    Léo, bom dia. Saúde e paz para todos.Gostei do PROLIXO. Bem bolado.
    Parabéns. Feliz fim de semana e beijos de seu pai.

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  3. Fabio Camargo9:15 AM

    Muito boa!!!

    Prendeu minha atenção mais do que nunca! rss
    E de forma humorada!

    Parabéns...
    Um abraço, Marcelão.

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  4. Rosa Pena10:45 AM

    Eu que faço parte desses 2 ou 3 leitores, e com a liberdade que sinto por te considerar amigo digo:
    - Você deveria se candidatar pelo menos ao senado. Conseguiu falar bem e bonito, usar seu espaço e tempo, para mostrar como se faz um bom discurso, prender o leitor ou eleitor e depois deixá-lo de calças curtas, na espera.

    Marcelo........... um show de texto. APLAUSOS ! Viro nesse momento sua "caba" ( caba é ótimo) eleitoral, ou eleitoreira.. UI! RS. beijos..rosa
    www.rosapena.com

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  5. Elizete Lee2:24 PM

    Mesmo com uma vontade danada de fazer "xixi", fiquei presa no texto, pois sou curiosa demais.
    Só você para prender a gente assim!

    Abraços e parabéns SEMPRE!

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  6. Nei - consciencia.org2:35 PM

    Está perdoado, Marcelo. Não se culpe tanto por ter quebrado, sem querer, o pote de geléia da vovó.

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  7. Anônimo5:00 AM

    Marcelo, se vc não disser do que se trata essa sua "bombástica e reveladora sucessão de acontecimentos", sabe prá onde vou mandar essa sua crônica?
    PRO LIXO.rsrs. Um abraço. Paulo Carlini.

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  8. Marcelocomotiva das letras, dez para o seu manejo do verbo; no entanto, esse rodeio não-revelador criou certo desconforto aos seus leitores. peço desculpas e uso o comentário do blog como extensão dos seus limitados caracteres e revelo: nossos agronômos não conseguiram conter a praga belocus sanjus e os macaubais foram dizimados. o desabastecimento macaúbico vem aí pra causar grandes tragédias.

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  9. Mary Maia2:26 AM

    Ai... que raiva! urrrrrrr
    "Vô ti matá" (Mentirinha, espero a próxima... ansiosa, é claro...rs)
    Beijos e boa semana.
    Mary ( uma das suas 300.000.ªs. leitoras rs ) (no mínimo)

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  10. Contando comigo sao 4 leitores entao! rs
    falou!

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  11. Regina8:41 AM

    Olá Marcelo,
    Adoro os títulos de seus textos! tão maliciosamente dúbios, tão propositadamente de segundas, terceiras e quartas intenções...Muito bom!
    Abs e boa semana.

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  12. George Lee7:23 PM

    Você é um grande camarada! Consegue fazer a gente imaginar tantas coisas... e no final nos deixa no suspense.... Sou um dos seus assiduos leitores, jamais colocaria sua vida em risco pela curiosidade....e depois, temos a esperança que um dia voce nos conte essa tão bombástica revelação...
    Parabens meu irmão, por mais esse grande texto.

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  13. Shirlei Rocha3:18 AM

    Olá Marcelo, Cheguei aqui por mero acaso e fiquei diante da tela por mais de uma hora. Estou adorando ler suas "crônicas"?, são uma delícia, estava até me perguntando: quem será esse cara que escreve dessa maneira tão descontraída? O fato é que entrei no Google para descobrir "porquê o alface hidropônico que venho comprando no sacolão da esquina tem as folhas tão quebradiças" e aí , me deparo com esse blog que me fascinou e não consigo parar de ler, até abandonei o livro que estava devorando, sobre Fidel, pois tenho prazo para devolvê-lo na biblioteca. Me desculpe pela maneira que me expresso, mas não sou exatamente uma internauta, gosto de fazer algumas incursões, tirar dúvidas, ver o noticiário, tenho orkut mas não curto muito, msn, nem pensar!!!! , Quero parabenizá-lo pelo seu blog.

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  14. José Carlos Carneiro3:19 AM

    O teu "Prolixo" extrapolou pra lá de Bagdá, no bom sentido, e cutucou com vara curta minhas entranhas pensantes, num desafio que me botou pasmado e que, num rasgo incontido em retrucar tua investida no campo do livre-pensar, exigiu não uma réplica, mas deu nos costados aquela vontade incontida de sacolejar os cacarecos amontoados nas masmorras íntimas e me saiu este defenestrar de um palavrório sem eira nem beira, mais tendendo para um iminente cataclismo prestes a romper o dique da incontinência verbal do que vir a ser de utilidade mínima para qualquer reflexão. Em ficando o dito pelo que nada diz, ainda assim lá vai a bala, mas é de festim.
    É Preciso...
    ... subir, nem que seja num caixote ou tijolo,
    fazendo de um ou outro tribuna ou palanque,
    rasgar o verbo, soltar a língua, botar pra fora o que vier à cabeça,
    só não valem palavrões e impropérios,
    não é preciso platéia, palmas, microfones, torcida organizada e fã-clube,
    pode ser sob o chuveiro ou na banheira,
    não requer ensaio ou fundo musical,
    pode mesmo não haver o uso da palavra, pois,
    para ser tachado de louco basta pouco,
    mas pouco importa se o rótulo acontecer,
    não vá esmorecer,
    vale mais o ato consumado do que o desejo não realizado,
    o resto é papo furado,
    importa o estado, não o instituído, mas o de espírito,
    e ele lava a alma e acalma, infla o peito e descarrega o ar viciado,
    recarrega as baterias, estimula a alegria, recupera as boas sintonias,
    nocauteia os dissabores, renova o fluxo dos humores,
    é muito provável que se conquiste o riso aberto e mais debochado,
    o elo que estava perdido,
    o ponto solto no espaço e que volta ao abrigo da emoção.
    Sinto que tudo isto é preciso e só sabe avaliar quem viu chegada a hora dessa precisão.
    De vez em quando é preciso chacoalhar a roseira,
    tudo levar na brincadeira, atropelar a barreira,
    saber subir e descer a ladeira e rolar pela pirambeira,
    estancar a cegueira,
    rechaçar o baixo astral,
    elevar o moral,
    ser menos normal,
    fazer de conta que é carnaval,
    e que ninguém me leva a mal.
    José Carlos Carneiro.

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  15. Oi, amigo!!
    Sem ser prolixa, seu texto está DEMAIS!!!
    Saudades!
    Beijo,
    Ana

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  16. Marcelo, li "Scanning Clarice" no Comunique-se, segui sua trilha e encontrei o blog. Muito bom o que pude ver até agora... seguirei em frente! Um abraço, caro escriba...

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