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Sabia que não escaparia ninguém, pelo ruído incomum e pela fissura logo abaixo de uma das turbinas. Nem por isso sua mão tremeu mais ao servir vinho para o grisalho panamenho que dela não tirava os olhos desde o check-in em Los Angeles. A echarpe com centenas de loguinhos da companhia aérea disfarçava o suor frio. Seu olhar ia da taça de vinho à turbina condenada, da consciência do dever à certeza da tragédia, não havia clima nem vontade de corresponder à insinuação daquele homem.

Se tivesse idéia das cinzas a que nos reduziremos, não perderia os últimos momentos nesse joguinho infrutífero. Pense em sua mulher, senhor. Nos filhos, no cachorro, nos negócios, não em mim. Faça um ato de contrição, um nome do Pai, por favor, desmonte esse ar patético de cobiça carnal. Torça para que haja algo acima desses 14 mil pés.

Nenhuma movimentação estranha na cabine, ninguém além dela tinha percebido. Muitos dormiam e passariam do calor das mantas de bordo para o sono eterno sem darem pelo ocorrido. Para o não-ser sem escala e sem stress. Envolveu a taça de vinho do panamenho com o guardanapo.

- Thank you so much (com uma piscadela desavergonhada).

Adeus aos procedimentos protocolares e gestos contidos. Pegou a garrafa de vinho do carrinho de bebidas e começou a sorvê-la no gargalo, olhando de soslaio a turbina com defeito. Afrouxou o nó da echarpe e sorriu cúmplice para os próprios pensamentos. Viu-se a si mesma entre as nuvens, lendo “O apanhador no campo de centeio”.

O panamenho foi buscá-la com mais uma investida.
- Um milhão pelos seus pensamentos.
- Não valem isso. E tenho pra mim que poderiam assustá-lo.
- Isso são modos de uma aeromoça que se preze, beber no gargalo na frente dos passageiros?

Há de ser o primeiro a espatifar-se, pensou. Bem na janelinha da falha mecânica e se fazendo de gostoso. Que seja agora, no pileque, a inconsciência. Explodamos de uma vez.

(Mais um gole, bem sorvido. Trança as pernas)

Caiu sobre uma poltrona vazia e espiou pela janela. Sobre o Saara, agora.

Não cesse essa anestesia boa, quero inexistir feliz. Serão semanas de busca.

Riu.
© Direitos Reservados

Comentários

  1. Mel Coelho8:45 AM

    Carinho,
    Mel

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  2. Elizete Lee6:22 PM

    A vida é um sopro nem sempre de alívio; então porque não rir na hora do sufoco da eminente morte?

    Abraço fraterno.

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  3. Belvedere Bruno6:08 AM

    Que excelente idéia, Marcelo!!!!!!!!!!!!!!!Gostei muito!!!!!!!!!!!Bjs

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  4. Marcelo, sacada legal essa. Entre cantadas, mortes iminentes e goles etílicos, o texto ficou envolto numa coisa meio mórbida-sexual. Bacana!!!!

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  5. Clineida12:13 PM

    gracinha ne, marcelo justo hoje q embarquei minha filha e genro em lua de mel p salvador e "estou indo" credo em cruz p os states em outubro vc me faz uma brincadeira-seria dessas? ja chega minha habitual dor de barriga e mao gelada nos voos e aquela sensação esquisita de estar cominhando-voando em cima de costelas infinitas de vacas tb infinitas e sem estrada em baixo na hora das inexplicaveis turbulencias!!! tenha mais do de mim, abracos 1000 c meu perdão p escrever tao bem...e so!ruim vc esta ficando. n te chamo mais de santo nem de bonzinho!!!

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  6. Anônimo1:01 PM

    MarcelinhoTenho orgulho de você.Parabéns.Um bjMarília

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  7. Evelyne4:47 PM

    Um bonito fim: anestesiada pelo vinho e livre de todas as convenções.A morte pode ser vista dessa forma. Seus textos são mágicos, Marcelo e possibilita várias reflexões.
    Beijos e boa semana para você!
    Veca

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  8. "Bem na janelinha da falha mecânica"... ahahahaha... demais da conta, bixo! como sempre!

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  9. Ana Maria8:01 AM

    sangue frio não?

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  10. Regina8:07 AM

    Olá Marcelo,
    Concordo que cair com o 737 não é nada bom, mas ficar lendo "O apanhador no campo de centeio" nas nuvens é tudo de bom numa pós-morte!
    Bj e boa semana
    Adorei o texto.

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  11. Se o avião não caiu mesmo, ela foi demitida...hehe
    Caiu ou não caiu??? Me conta, vai? rs
    Pode não ter caído, uai! A esperança é a última que morre (dizem)
    Você tá bem, né?
    Beijos
    Mary

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Primeira visita oficial ao seu blog, apesar de conhecer seus textos mágicos e admirár as consoantes reticentes que você cria e nos envolve.
    Abraços e ótimo fim de semnna, Marcelo!

    Vou incluí-lo entre os meus preferidos, ok?

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