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ARQUIVO MORTO


Provavelmente as imagens eram de um feriado prolongado, mas não estava bem certo. A impressão que dava é que tinham passado uma borracha ou um ferro de roupa em cima das cenas. Corpos e vozes distorcidos ao irreconhecível. Minha mãe com voz do meu pai e vice-versa. Minha filha, com seus quatro anos e morrendo de medo de bicho-papão, falava como um deles enquanto brincava com um Lango-Lango verde e outro abóbora. A reunião de família estava mais para um parque de diversões com aqueles espelhos que deformam gente. Tinha feito a gravação e guardado, nunca mais reproduzi. Vai ver a falta de uso fez tudo aquilo.

Do not touch this tape inside. Desobedeci a recomendação e abri o compartimento, pra ver se salvava o estrago. Rebobinei, depois dei avanço rápido, coloquei na parte do meio da gravação, talvez mais pra frente houvesse algum registro preservado. Mensagem de ajuste de tracking. As cores sumidas, faixas de chuvisco no meio da tela. Mal dava pra ler no rodapé a data: Maio, 14, 1992.

Arrumei emprestado um outro videocassete, quem sabe as cabeças do meu estivessem sujas. Nada que atenuasse o irreparável. Resolvi transferir a ruína remanescente, no estado em que se encontrava, para DVD. Algo assistível tinha de restar. O gravador de DVD não aceitava, com a mensagem “Vídeo instável. Gravação pausada”.

Se passado, presente e futuro são dimensões que existem simultaneamente, aquela fita estava ao mesmo tempo na loja esperando ser comprada, sendo desvirginada pela filmadora e já em forma de sucata num lixão de 2030. Eu também, enquanto pensava nisso, estava nascendo e morto há séculos. Deixei quieto. Não há leite derramado.


© Direitos Reservados


Comentários

  1. Gostei muito de "Arquivo Morto". Parabéns.Beijos
    e abraços para todos. Seu pai.

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  2. Marieta10:55 AM

    MANO, ADOREI NEM O MEU VIDEO FUNCIONA MAIS PRA EU PODER ASSISTIR AS FITAS E VER O QUE RESTOU. BEIJOS...
    Marieta

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  3. Filipe Moretzsohn7:12 AM

    Nego, sometimes is not easy to rewind our past memories...
    Belo texto.
    Até mais,
    Filipe

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  4. Evelyne Furtado8:03 AM

    Não há leite derramado, Marcelo. Há um texto sensível e belo escrito no presente por um autor que lida com o passado sem arrependimento e se abre para o futuro. Mais uma vez me encantei,
    Beijos e bom domingo, meu amigo.

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  5. Tânia8:06 AM

    olá, Marcelo!
    achei ótimo, seu conto! parabéns.
    sou poeta e editora, tenho um projeto para o qual vou te enviar o convite, ok?
    tomara que aceite.
    irá por outro email, onde transito mais.
    Abrs,
    tânia diniz - h- mg

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  6. Anônimo9:44 AM

    Disse tudo! Nã há leite derramado....

    abração



    nelson

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  7. Deborah Dubner9:46 AM

    Oi, Marcelo, tudo bem?

    Sempre leio suas cronicas, mas nem sempre comento. Adorei essa. Também me sinto assim, completamente jurássica, em relação a coisas tão "novas", que acabei de aprender. É impressionante. Li sua crônica e morri de rir, com certa nostalgia também. Time goes by...

    abração

    Deborah

    ResponderExcluir
  8. Marcelo, amigo, sobre o texto: mais um curto exemplo sobre a sua maestria no manejo da palavra escrita. suas crônicas são permeadas por um delicioso tempero poético-reminiscente.
    sobre o eleitor que votou no último minuto na seção que eu presidi: seu brother, Marcos... o cara é zen.
    abraço

    ResponderExcluir
  9. Ana Maria5:15 AM

    me lembrou o meu arquivo, preciso arquivá-lo, mas, não está sendo fácil. um beijo Marcelo!

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  10. mais um primor atemporal do sguassábia, o mentor intelectual dos tempos literários de todo o sempre, amém! =)

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  11. Sandra Nogueira4:54 PM

    Profundas reflexões de um poeta. Parece gozação, mas acho que não é. Um grande abraço, Marcelo, quero continuar lendo seus excelentes textos por muito tempo.....
    Sandra

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