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SALVEM OS ÍMÃS DE GELADEIRA!


A atual crise econômica em que todos nós terráqueos estamos metidos não vem deixando pedra sobre pedra. Até mesmo setores historicamente imunes às oscilações monetárias e blindados contra o vacilante humor de Wall Street andam combalidos, à cata de uma solução messiânica que os façam sair do buraco. É o caso do pujante comércio de rapé, commodity cujo preço mínimo internacional caiu a níveis aviltantes, forçando os produtores da região de Barra do Garça, considerado o Vale do Rapé, a trocarem seu cultivo pelo do alpiste.


A indústria de conta-gotas é outra duramente atingida pelo tsunami econômico. Fábricas de renome, algumas com mais de 122 anos e meio no mercado, vêm adaptando seu maquinário e utilizando sua capacidade ociosa para a produção de carimbos de bichinhos e capas de banco de bicicleta com estampas de times de futebol.


E que dizer do nosso parque industrial de benjamins, também conhecidos como “Tês”, dependendo da região em que são comercializados? O desalento beira o caos. No último dia 23, a cotação do produto nas bolsas de São Paulo e do Rio variava entre R$ 1,94 e R$ 2,26, fechando a R$ 2,15 e perdendo definitivamente a paridade com o dólar, mantida intacta há décadas. A mercadoria era tão firme na bolsa que os operadores do pregão apelidavam sua cotação de “dólar-Tê”, servindo inclusive como indexador de contratos.


As lojas de armarinhos também aos poucos vão se adaptando ao novo quadro, acrescentando ao seu já extenso mix de quinquilharias os próprios armarinhos, que sempre deram nome às lojas desse gênero mas que estranhamente nunca foram comercializados por elas. Juarez Afrânio Ling, dirigente lojista, explica: “Estamos focando no nosso negócio principal, a nossa vocação verdadeira: o armarinho. Com puxadores de metal, de madeira, com gavetas e divisões internas, mas sempre armarinho. É um nicho de mercado altamente promissor, a que estávamos desatentos em face da diversificação crescente em nosso segmento. Eu diria que é uma volta às origens”.


Na esteira da desgraça, os fast-foods reclamam de barriga vazia. Uma das maiores redes do país teve que cortar na carne e eliminou o hambúrguer do cheese-salada, mantendo apenas o cheese e a salada. Uma saída criativa e honesta para a crise, já que o produto, ainda que diminuído, oferece ao consumidor exatamente o que promete.


Ruim para produtos, pior para serviços. Desde o estopim da turbulência, os pontos de charrete estão às moscas, e nada parece reverter essa tendência a médio prazo. A majoração do feno e da alfafa no mercado internacional ainda não chegou ao consumidor, que por sua vez vem migrando para a carroça e o metrô como alternativas de transporte.


O serviço de carpideiras vem sendo particularmente muito penalizado. Quase todas choram dolorosas perdas. Laurentina Benite Lemos, presidente do sindicato da categoria, desabafa: “É um paradoxo. Nunca choramos tanto, contudo não estamos ganhando mais com isso. Alguém pode me explicar essa situação?”


Num catastrófico efeito dominó, a quebradeira ameaça os mordedores pediátricos, a macaúba em coco e em gosma, as lixas de unha, os dadinhos de amendoim, as tampas de pia, os alfinetes de cabecinha, as cantoneiras de fotografia, as lousas verdes e negras e mais uma infinidade de gêneros vitais ao dia-a-dia do brasileiro. Oremos para que ao menos os ímãs de geladeira escapem ilesos desse furacão. Oremos!



© Direitos Reservados




Comentários

  1. João Batista3:13 PM

    gostei da crônica do imã da geladeira.

    Bem original. Beijos de seu pai.

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  2. Ana Lucia Finazzi5:31 AM

    Sim, oremos!
    beijo

    Ana Lucia

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  3. A macaúba, não!!!! PelamordeDeus!!! Clamores macaúbicos fervorosos não me impedem de pedir também pela pujante indústria dos desencaroçadores de azeitonas. DEZ!!!

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  4. Felippe Alves10:41 AM

    ... mantendo apenas o cheese e a salada. Uma saída criativa e honesta para a crise, já que o produto, ainda que diminuído, oferece ao consumidor exatamente o que promete.



    Muito criativo... hahaha, adorei. É a realidade, mas não deixa de soar cômico...

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  5. Evelyne Furtado10:53 AM

    Ainda bem que não há oscilação em sua criatividade e seu humor, Marcelo! Salve os imãs de geladeira!Adorei! Bjs e parabéns, amigo!

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  6. Ótima análise de mercado. Show!
    Abrax _X_

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  7. Rosa Pena7:41 AM

    GENIAL!

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  8. Parabéns Marcelo! Ótimo texto!

    Abraço!

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  9. Ana Maria7:43 AM

    uma aula de economia, com humor bem temparadinho, muito bom Marcelo! Até a próxima. Ana

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  10. Sandra Nogueira8:51 AM

    Marcelo, meu amigo, você é uma enciclopédia. Morri de rir com o rapé, que quando criança comprava com meu avô, na Tabacaria Leão, na cidade de Garça, onde nasci. Mais grandinha voltei lá sózinha e comprei um pacote para fazer graça na escola, a sessão de espirro foi um sucesso.
    abração

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  11. Giuliano4:42 PM

    Salvemos tb aqueles espelhos de mercearia com moldura cor de laranja, aquelas jarras plasticas em formato de abacaxi e por ai vai !
    abração e boa semana !

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  12. Gostei do texto Marcelo, muito Genial como sempre!
    Sucesso!
    Abraço forte!

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  13. Nessas andanças pelo mundo, eu tive que variar nas lembrancinhas: os imãs tornaram-se caros e souvenirs muito comuns.. risos... acho que a vida deles estão com os dias contados!!! Beijo, querido!

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  14. Não dou a mínima para ímã de geladeira, Marcelo! O uísque, rapaz, o uísque 18 yars old! Vai sumir do mercado? Deve ser coisa de uma entidade atrasada que só vai de 51.
    Preocupado abraço!

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  15. Hahahahah, estou rindo até agora meu amigo Marcelo, como você foi lembrar das cantoneiras de fotografias e esquecer da goma arábica, das ligas de meias para homens? Incrível sua criatividade, oremos para que não a perca. Abraços ♥

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  16. Sem lixas de unha o que será de nós? Tudo, menos as lixas de unhas!
    É sempre um prazer passear por aqui. Abraço, amigo!!

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  17. Jésuizinho do céu! Quando poderia imaginar que as carpideiras seriam citadas em um texto novamente?? Personagens há anos inexistentes. Só mesmo o Marcelo para ressuscitá-las. Oremos, irmão! Oremos!

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  18. Mais, cantoneiras de fotografias...rs. Ainda existem!? Realmente, oremos!

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