Pular para o conteúdo principal

CABINES DE NATAL


Naudisléia, cobradora de cabine de pedágio. Vandercleyson, porteiro de prédio. Namorados, falam pelo celular na noite de 24 de dezembro.


- Né mole não, amor. Todo mundo enchendo a cara, se entupindo de uva passa e eu aqui, plantado nessa cadeira com meu radinho. Luzinha de Natal pra mim é esse painel piscando com os número dos apartamento, compreende? E ainda tem que prestar atenção em tudo pra nada estragar a festa dos bacana.


- E eu não sei, Vandercleyson? Cê ainda tem o rádio pra escutar, aqui nem isso eles deixa. Nós rala e o povo se mandando pra praia, com os porta-mala cheio de malancia e peru.


- Daqui a pouco, que nem igualzinho todo ano, um ou outro desce com um panetone na mão, aquele seco e sem gosto que ninguém quis, que sobrou da cesta da firma, pra me entregar com um vinho bem sem-vergonha. A Dona Letícia do 67 até uns ano pra trás mandava um pratinho com umas fatia de tender, coberto com papel toalha. Das vez vinha também pudim de noz, empada de massa podre. Mas agora faleceu-se, a coitada. Nesses dia aqui no prédio fica tudo eles bonzinho, rindo e desejando boas festa. Daqui um tempo começa a chegar os carnê do IPTU e vira tudo bicho de novo. Ninguém olha mais na cara, até vim o Natal outra vez.


- Ah meu nego, liga não. Mudando de assunto, eu acho memo é que a gente anda muito precisado de um diazinho de xamego e vadiação. Só nós dois, pensou? Aí depois eu ainda fazia um macarrão caprichento... Seu recibo, moço. Boa viagem.


- Sabe, amor, aqui tá tocando aquela música que fala “Pobrezinho, nasceu em Belém”, ói só que mundo pequeno, Naudisléia, o Menino Jesus também é lá de Belém do Pará... vai ver a minha mãe até conhece a família.


- Peraí que eu não tô te escutando, caminhão barulhento demais, sô. Fala mais alto, mor... É sete e quarenta, moço... tem quarenta centavos, pra facilitar o troco?


- O quê?


- Não, tô falando com o motorista pra vê se tem moeda. Pronto, continua, bem.


- Tava falando do Cristo, conterrâneo nosso...


- Não tô entendendo patavina.


- Quer que fala mais alto, é?


- Não, essa história de conterrâneo eu não entendi nadica.


- Deixa pra lá. Até que hora vai o serviço aí no pedágio?


- O ônibus vem pegar nóis às duas e meia da manhã, aí já vem a moça do outro turno. Daí só pego de novo dia 26 às dezoito e trinta.


- Naudisléia, espera um pouco, güenta aí que eu tô falando com o doutor do 43 aqui no interfone. Então, doutor, tem um pacote embrulhado pra presente que deixaram aqui na portaria pro senhor. Ahn... ah, não sei o que é, não senhor. Chegou faz uns par de hora viu, um crioulinho de motocicleta que veio trazer. Sei... tá certo, depois o senhor pega aqui comigo.


- Mas esse interfone não pára, heim?


- Então, Léia, eu fico pensando na vida injusta que a gente veve. Como é que você, vendo tanto carro passar o dia inteiro na tua frente, tem que andar de ônibus, eu queria entender essas coisa que o homem lá de cima deixa acontecer, mesmo em noite de Natal, que é aniversário dele. Podia dar um refresco só hoje, que era bem merecido, né não?


(Campainha)


- Ô meu Deus, outra entrega... um instantinho, Naudisléia. Alô, Seu Afrânio? Tem encomenda aqui de leitão, dois cupim e mais uns saquinho de farofa com miúdo, pode mandar subir? Ah, e veio junto uma pet daquelas de 2 litro e meio de guaraná. O quê? O pisca? Ah, então, deixa eu explicar pro senhor. É que o síndico falou assim que é pra eu desligar os pisca tudinho depois da meia-noite, pra não gastar muita força, compreende? Qualquer coisa o senhor fala com ele. Ô Léia, tá me escutando? O que eu ia te dizer é que eu acho que cê tá trabalhando demais, moreco. Doze hora e meia sem descanso, cheirando esse óleo dísio... eles abusa demais docê. Tá certo que o sirviço aqui no prédio não é nenhuma maravilha, mas pelo menos não estrago com a saúde, compreende? Ih, olha só, tem um Papai Noel dos gordo aqui na frente da guarita falando hohoho e dizendo que vai distribuir bala. Cada figura... não, quê isso Papai Noel, vira esse negócio pra lá, calma... ai... ai... Naudisléia, me vinga... Naudisléia, dá o troco!


- Seu troco, moço.


- Fica pra você, querida, caixinha de Natal.


- Ô, coisa boa. Brigado. Vai com Deus e boas festa.


- Então, Vandercleyson... Vandercleyson... fala comigo...



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marieta12:32 PM

    QUE TRISTE NÉ MANO? INFELIZMENTE ESSA É A NOSSA REALIDADE.
    FELIZ NATAL....
    beijos....


    Marieta

    ResponderExcluir
  2. Filipe Moretzsohn2:02 PM

    Então é Natal....
    Cara, dei risada pracaramba. Esse texto tá bem legal.
    Valeu, abraço
    Filipe

    ResponderExcluir
  3. Elizete Lee3:35 PM

    Êta desgraceira de mundo!!

    Até agora to rindo...ahahahahehehhuuu
    Só você consegue transformar a desgraça em GRAÇA de GRAÇA....

    ABRAÇOS

    ResponderExcluir
  4. Adorei!! Um espetáculo de fim de semana pra vc. Veja se não some, moço...rs.
    bjs

    ResponderExcluir
  5. Anônimo10:58 PM

    adorei!!!!sarita barros

    ResponderExcluir
  6. Graaaaaande, Marcelo... uma crônica de Natal cheia de humor, mas que não esconde as agruras da plebe... bacana como sempre!!!!!

    ResponderExcluir
  7. Evelyne Furtado10:59 AM

    Ai, Marcelo! Uma face real e dura do Natal. Senti a perfuração no meu peito e doeu. Uma dor bonita em razão do seu talento, amigo. Um dia rio da morte em seu texto, em outro ...
    Bejios e parabéns!
    Veca

    ResponderExcluir
  8. Willian - RAC12:49 PM

    Srº Marcelo. Muito bacana.
    Sucesso nas realizações.
    Bela semana

    ResponderExcluir
  9. Ana Maria3:02 AM

    Captou muito bem o espitrito natalino, Marcelo. Um abração! até o próximo texto. Ana Maria

    ResponderExcluir
  10. Sandra Nogueira6:15 AM

    oi Marcelo,
    Você é um humorista de primeira linha. Continuo achando que tem que escrever para o teatro. Há em você uma boa dose de humor e também muita sensibilidade e uma observação profunda dos desvarios da sociedade capitalista. Te acho o máximo!
    abração
    Sandra

    ResponderExcluir
  11. Belvedere Bruno6:35 AM

    Muito bom, Marcelo!!!!!!!!!!!!!

    ResponderExcluir
  12. Estava eu aqui no meu blog na net e entrei sei lá onde e de repente me vi ai no seu blog..que coisa mais comica tudo isso, adorei!!! li varios textos mas esse me encantou , é criação sua ou fato real? Feliz 2009 .......um abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…