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EM DEFESA DE UM ADMINISTRADOR INJURIADO


Creiam-me: José Denárdio da Figueira Paranhos é inocente. A acusação maldosa de que tem sido vítima explica-se pela indisfarçável inveja de seus adversários, em face do que fez e ainda fará por nossa terra.

Imputam-lhe como crime a compra de 2,5 toneladas de canjica sem licitação. Ora, senhores, não estamos falando de concorrência pública para aquisição de mísseis, turbinas para hidrelétricas, cápsulas espaciais e outros itens de pouca importância e custo unitário irrisório, tão irrisório que a própria sociedade se envergonharia em investigar os meandros de compra. Falamos de canjica e seus essenciais derivados, e do caos que poderia advir com sua escassez. Daí ser plenamente justificada, neste caso, a dispensa de licitação, até porque um único fornecedor demonstrou suficiente competência técnica no manejo e distribuição do insumo precioso aos entrepostos públicos.

E como é precioso. Dentre miríades de aplicações cotidianas, podemos citar a farinha de canjica enriquecida com ferro, vitaminas e ácidos graxos, comprovadamente mais eficaz que o óleo de fígado de bacalhau no combate às hipovitaminoses A e D. A canjica em flocos, processada, embalada e distribuída simultaneamente pela Canjesp, Canjerj, Canjemg, Canjesc e Canjenorte às escolas de suas respectivas redes de ensino, com ação clinicamente demonstrada no incremento da memorização de números de telefone, incluindo DDD e independente do prefixo da operadora. (E aqui abro um parêntese para louvar a canjica como instrumento de integração nacional e de desenvolvimento de nossas telecomunicações).

Continuando, citemos a canjica em pasta, que utilizada em conjunto com a fécula de mandioca gera poderoso grude para colagem de pipas, papagaios, pandorgas, maranhões e outras incontáveis denominações popularmente atribuídas a esse artefato tão estimado pela gurizada. Temos ainda a canjica moída e desmembrada em suas moléculas e átomos, recentemente aprovada pelo Ministério dos Esportes para utilização como antiderrapante em barras assimétricas. E, logicamente, a canjica in natura, largamente empregada como substituta do feijão para marcar os números sorteados nas cartelas dos bingos devidamente regularizados.

Tão rica é em possibilidades esta nossa glória verde e amarela que nada menos de 14 laboratórios farmacêuticos multinacionais pelejam junto à OMS a quebra de sua patente, argüindo como justificativa os bilhões de potenciais beneficiados ao redor do globo com seu manancial de utilizações farmacológicas – incluindo-se aí um revolucionário tônico para calvície e um regularizador de disfunção erétil capaz de deixar o azulzinho Viagra vermelho de vergonha.

Tecidas estas considerações, destaco também em defesa de José Denárdio seus inequívocos sinais exteriores de pobreza, ou de empobrecimento lícito, como a posse de um tupperware rachado e colado com durex e a constatação de um taco solto em sua sala de estar, com um volante da loteria esportiva de 1973 servindo de rejunte provisório – ou permanente, pela longa data da gambiarra. A única, aliás, que o incorruptível caráter do acusado poderia conceber. Coragem, José Denárdio, mantenha a cabeça erguida. A história lhe fará justiça.


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Comentários

  1. Rosa Pena3:27 AM

    não consigo parar de rir.. estou as gargalhadas..Esse texto está esporrante... beijos..

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  2. Elizete Lee4:59 AM

    É Marcelo, tudo pode ser justificado nesse país...kkkkk, desde que, não se deixe os "tentáculos" soltos....

    Abração

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  3. João9:16 AM

    gostei da canjicada. E na realidade

    gosto mesmo de canjia.Feliz fim de se-

    mana. Beijos de seu pai.

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  4. Belvedere Bruno11:02 AM

    Tô rindo, é claro!!!!!!! rsssssssss
    Abs
    Belvedere

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  5. A dor de dente até passou! Acho que vou tomar uma canjica..rsrsrsrs
    bjssssssssssss
    Nice Pinheiro

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  6. Fer Pupo1:35 PM

    Você acredita que me deu vontade de comer, rsbj, Fer

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  7. Mary Maia1:03 AM

    Rindo...E viva a canjica...heheAliás, cá entre nós, acho que ficarei sócia do José Denárdio. Receita das engordiet: com leite, mais leite de côco, côco ralado, leite condensado. Nossa! Por que você foi me lembrar...ai ai...Amo canjica.E já amo você também. Sabia? "Du fundu du meu colassaum"Espero que esteja tudo bem contigo.BeijãoMary

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  8. Evelyne8:28 AM

    Marcelo é também gourmet e envereda pelo Estatuto dos Contratos e das Licitações Públicas com desenvoltura. Ô mente criativa, meu amigo! Não sou muito chegada à canjica, mas aos seus textos sempre serei. São saborosos e dizem mais do que aparentam dizer.Beijos e boa semana!Evelyne

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  9. Ana Maria11:27 AM

    muito bem defendido, Marcelo!

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  10. Sandra Nogueira5:56 AM

    Marcelo, querido amigo, se um dia precisar de uma defesa apaixonada chamarei você rsrsrs Lendo seu texto imaginei quantos bons advogados hoje possuem linguajar tão rico como o seu. Aplaudo, como sempre!
    abração
    Sandra

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  11. Filipe Moretzsohn3:23 AM

    fião, se é muito loco mesmo!!!!Valeu, dei risada pra caramba.

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  12. Paulo Marsiglio6:03 AM

    Excelente essa Marcelo!Muito hilária! Não que as outras não o sejam...Um abração,Paulinho Marsiglio

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  13. O Denárdio, ante a maldosa perseguição, deveria substituir a canjica pelo coquinho gosmento desta Sanja. Tem todas as propriedades da canjica, mas tem uma mais de grife aclamada pelos súditos da Beloca. abç.

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