Pular para o conteúdo principal

SIX O'CLOCK


Eu poderia começar dizendo que o sol do horário de verão britânico entrava coado pelos vitrais da Abadia para pousar solene na tumba da Rainha Mary II. E assim o faço, por mais romanticamente descritivo que seja. O spalla da Orquestra Filarmônica Real repete outra vez a passagem mais difícil do concerto, aquilo definitivamente não fora escrito para amadores.


Na seiscentista monarquia, quantas vezes a Mary infante teria atravessado a nave do templo, para mais tarde casar-se, coroar-se e entrar pela derradeira vez no monumento gótico, aos 32, num suntuoso ataúde. Em outra ala, no Poet’s Corner, Dickens vara o tempo em sono eterno, possivelmente escoltado pelo avarento Ebenezer Scrooge e seus fantasmas. O eco do andar de um Beefeather vem trazê-lo de volta ao violino. Então empenha toda a alma num vibrato, pensando no tio-avô que definha não muito longe dali. Talvez fosse seu último Natal. Apesar do rosto pouco vincado, da mão forte de veias saltadas, da voz rouca ao pedir para passar o pão à mesa envolta em aromas de velas e sopas, tudo indicava que não tornaria a ver os fogos de artifício anunciarem o Ano Novo sobre o Tâmisa.


“Mantenha o violino afastado do sol, pois o calor faz a madeira rachar ou descolar”. O conselho do velho mestre dos tempos de conservatório ia e voltava em sua mente como o hipnótico tema do Adagio. Soa a última nota, em uníssono com o violoncelo de Edwin. Westminster é muda, pode-se ouvir o pousar da mosca entre duas teclas do órgão de tubos. É muda e assustadoramente triste a Abadia àquela hora, que os católicos chamam de Ave Maria.


Suas orelhas eram grandes, demasiado grandes para não serem notadas e odiadas por Anne Elisabeth. Ela jamais se interessaria por um orelhudo de dentes tortos. Turistas e mais turistas, às levas. Estrangeiros que já viram tudo na cidade e aparecem por ali nessa tarde quase noite, para roubar a concentração do ensaio disparando seus flashes, mesmo sendo proibido. Façam o sightseeing bem longe, comam fish and chips, corram afoitos com seus mapas para a roda gigante ou o Palácio de Buckingham, longe da real e absoluta treva que vem vindo, a treva só plenamente compreendida pelos súditos nativos da rainha. Eles são de Massachusetts, Iowa e Connecticut, seguem deixando cascas de amendoim sobre os restos mortais de quem ergueu a Londres mais sublime, posando no sarcófago de Newton como quem tira fotos com o Pateta e o Pato Donald. Dobrem o valor do ingresso, please, quem sabe assim cai pela metade o número dos abutres.


Em pizzicato dançam seus dedos e seus medos, na forma de mínimos elfos. Ele vê nas quatro cordas os quatro inconfessáveis sonhos desfeitos, os quatro planos futuros forçosamente adiados e as quatro vezes, só na última meia hora, em que bendisse mentalmente a névoa, os tijolos à vista, a hipoteca paga em dia e a velha e boa xícara de chá a lhe esperar de madrugada em Notting Hill.


Apesar do adiantado da hora, voltou à pé para o apartamento, repassando mentalmente o trecho massacrante da partitura e imaginando o interior do chalé que alugou em Greenwich para ocupar sozinho no fim de semana. Com uma plástica nas orelhas, quem sabe da próxima vez conseguisse levar Anne Elisabeth consigo.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Ana Maria2:00 AM

    muito Londrino, Marcelo!

    me perdi um pouco, porém o texto é impecável.

    Abração e até!


    Ana Maria

    ResponderExcluir
  2. Evelyne12:28 PM

    Marcelo, fiz um passeio encantador por Londres e pela história ao som de violinos. Coisas da vida: essa semana li, vi, revi a Inglaterra. Assisti À Outra ( diria as outras, Ana e Maria Bolena), Elisabeth (filme e livro) e a Rainha ( a atual Elisabeth). Agora leio uma tarde bem londrina.Adorei, amigo!
    Beijos
    Evelyne

    ResponderExcluir
  3. Regina1:38 PM

    Oi, Marcelo, "Six o'clock" me deu muita saudade da terra onde vivi anos tão felizes! Obrigada pela boa recordação!
    Bj

    ResponderExcluir
  4. Mildred2:54 PM

    Sua produção literária é rica, bem humorada, uma delícia de ler, e própria de uma mente brilhante! Parabéns!
    Bjs, Mildred

    ResponderExcluir
  5. Clássica, moderna, tradicional, vanguardista, provinciana, cosmopolita, xenófoba, multiracial. Londres, London. Cheia de nuances e paradoxos. Instigante! Surpreendente!, como a sua pena, caro amigo. Ainda não conheço Londres, mas me deleito em viagens nos seus escritos!!!

    ResponderExcluir
  6. Giuliano3:12 PM

    A Rainha Mary Two, tomava chá das five ? hehe

    abs e boa semanas !

    ResponderExcluir
  7. Filipe Moretzsohn3:25 AM

    Would you splain it to me tomorrow mother fucker!!!!!!!!!!Bye

    ResponderExcluir
  8. Maravilha!
    Abraços

    Sonia Alcalde

    ResponderExcluir
  9. Leopoldo Gonzaga2:26 PM

    A propósito, quanto é o aluguel de um chalé em Greenwich.

    O irmão, versado que é, em questões imobiliárias, poderia me dar uma base?

    Aliás, o parque me dá saudades. Todas as vezes que tive oportunidade de ir a Londres,

    Peguei o barco e dei uma chegada lá. Não tem nada de especial, mas é mágico.



    O parque de Greenwich, não sei pq, me faz lembrar ”O Espião”.

    Um puta filme que se passa em Londres na época da guerra. Vale a pena ver.



    Abç

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…