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O MELHOR DA FESTA


É esperar por ela. Assim o velho ditado, assim Priscila deitada. Olha pela janela grande do quarto e vê um cinza chumbo empurrando no céu o carneiro de nuvens. Não demora e a chuva vai regar as bostas das vacas lá no morro, que gratas pelo frescor retribuirão com cogumelos a quem quiser colher, chapéus de sol que dariam cores e sons insuspeitos à festa de logo mais. Isso se Priscila fosse de se alucinar. Qualquer uma menos ela, aluna de internato, sem chance, nem vinho de missa conhecia. A uma mulher dessas bastaria uma taça de espumante leve para destravar um vagão de cismas e magoas. No caso dela a lucidez já era, a seco, a perda do juízo e o delírio extremo. Estava há meses a 220, trêmula. Mas a festa daria jeito nisso. A festa prometia e ela acreditava.


Busca Priscila a si mesma na cama. Não acha. Já tentou o Google? O que o Google não acha, não existe. Se o Google não achou Deus, Deus inexiste. Google talvez seja Deus, sendo Deus uma busca como muitos dizem. Se julga Priscila um mosaico de desenho incerto, definido a esmo, sem traçado prévio. Ao resto do mundo o merecido estrago, todas as maldições juntas do Antigo Testamento. Que a ira divina varresse tudo, poupando apenas deleites pequenos mas insubstituíveis, como tentar adivinhar o que teria de almoço ou espreguiçar em fronhas frescas pra espantar o mormaço.


Cadê os headphones? Ouvir música até perder-se em meditação profunda, talvez aquele movimento mais lento da Pastoral, iria bem hoje como nunca enquanto a hora não chega.


O que passou não volta por nada e será sempre muito melhor do que o que é. Sua mecha de cabelo adolescente, guardado no porta-jóias, será infinitamente mais sedosa e interessante que esse grisalho que chega dizendo que veio de vez, para o resto da vida. Mas deixa ele vir, nunca será um susto tão grande quanto o daquele dia em que teu pai, Priscila, te pegou fumando no quintal, lembra? Fumando pela curiosidade, não pelo vício ou por achar charmoso. Um cigarro é um corpo estranho no canto da tua boca sem malícia.


Ela ouve a água passar pelo latão da calha, misturada com a música do Roberto Carlos tocando no vizinho. Ele também vai à festa. Todos vão à festa. No quarto o cheiro de pastilha de eucalipto insiste. Gripe mal curada, quer estar inteira para logo mais.


O que sente agora, partindo do estômago até a lua mais próxima, é como um cordão de prata e néon azul, que Ludmila chamaria de perispírito. Agora é o exato instante em que o mormaço é vencido pela aragem do morro, que sem querer acabou trazendo o cardápio do almoço, agora não mais surpresa: omelete acebolado. Mas comerá só um pouco. À noite tem a festa.



© Direitos Reservados





Comentários

  1. Fer Pupo3:06 PM

    ..é assim mesmo.....
    bj, Fer

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  2. João5:47 AM

    Parabens!. Feliz fim de
    semana. Beijos de seus pais.

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  3. Rosa Pena7:40 AM

    kkkk;;; onde está? busca no google... kkklklkk, fora empurrar o carneiro ..kkkk.. não paro de rir.. um beijo
    rosa

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  4. Ainda inebriado pelo hexa do meu Tricolor, cá venho me deleitar com mais uma crônica monumental do amigo. E!, caro amigo, neste dezembro de festas e balanço, dê um pulo me Sanja pra macaubices, papos...

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  5. Regina6:09 AM

    Olá Marcelo,
    O melhor da festa são seus textos, menino!
    Bj e boa semana

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  6. Evelyne7:06 AM

    Marcelo, esperar a festa nunca foi tão poético , nem tão rico em curiosidade acerca de quem a espera. Tá lindo!
    Beijos, meu amigo!
    Evelyne

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  7. Seus textos, sempre festa para meus olhos!
    Abração!
    Ana

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  8. Sandra Nogueira6:54 AM

    Marcelo, meu amigo, a mim faltam palavras para parabenizá-lo. Em você as palavras jorram aos borbotões, convidando à reflexão, ao riso, ao devaneio. Já te falei que o considero um grande escritor? Ah! estou repetitiva? rs
    abração
    Sandra

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  9. Ana Maria6:33 AM

    vamos à esta festa também??? um abração! Ana Maria

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  10. Wagner6:34 AM

    Marcelão, muito bom como sempre.

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