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Mostrando postagens de Janeiro, 2009

A SÓS

Olhares que se cruzam, dela e do cão. Do ponto de vista do cão, o olhar somente - o literal pousar de olhos sobre alguém ou alguma coisa. Para ela uma zona de conforto na arrumação de si, como se fosse possível um cessar-fogo entre os neurônios. Poderia não ser um bicho, mas uma xícara, um poste, o que via não era absolutamente o que enxergava. Não havia a consciência de olhar o cão, nem no cão a de saber-se observado. Cara a focinho, aquele era o tempo presente dos dois. A indolência que sentia lembrava talvez o fastio que se tem em casa de mãe após a janta generosa. Isso era nostálgico e reconfortante, a sensação do território conhecido, o nada além da posse precária daquele momento de pálpebras arcando. Vovó morta, envolta em seda, o coro de filhas de Maria na trilha sonora, entregando junto ao padre o corpo à terra. Vovó se foi, é fato, ficou o cão e a urgência do que fazer dele. Chove a fina e mesma chuva sobre finados e vivos, um bolero gira na vitrola arcaica. Delírios, xô que …

TREMA DESEMPREGADO, MATA-BORRÃO INVÁLIDO, DEDAL DESALOJADO

- Eu caí.- Caiu onde, de que jeito? E nem tá machucado, do que tá reclamando?- Não ouviu falar que acabou o emprego do trema? Então, estou na rua. - Fica tranquilo, trema. Pra tudo tem solução nessa vida.- Dedal, amigo velho, como é que eu posso ficar tranquilo se tranquilo não tem mais trema? Estou liquidado – e liquidado sem trema.- Tem certeza?- Tá na regra, pode conferir.- Conforme-se, veja você o que fizeram comigo. Eu era encontrado em vários modelos nas boas lojas do ramo. Vivia nas mãos das moças mais lindas, que passavam o dia bordando e tocando piano. E hoje, olha minha situação. Se nem costurar mais se costura, quanto mais usar dedal. Meu caso é mais grave que o seu, porque minha obsolescência é em escala mundial. Você ainda pode se mudar pra Alemanha, por exemplo. O que tem de trema por lá não está escrito, todos muito bem empregados. Concorda comigo, Mata-Borrão?- Eu acho que nesse caso tem que usar a criatividade. Se ao invés de deitado você ficar de pé, vira dois pontos…

EM BRANCO

Só sei dizer que a carta veio parar na minha mão sem remetente nem destinatário. Mas estava, que diabos, na minha caixa de correspondência. Abri e encontrei três folhas sem nada escrito. Dei de ombros: não sabia de quem vinha, também não era para mim, que importava? Poderia ser um código de alguém para outro alguém, uma senha que significasse alguma coisa que só a ambos faria sentido. Mas por que na minha porta, se não era eu nem uma nem a outra parte interessada? Outra hipótese seria uma espécie de intervenção urbana, obra de teor filosófico e performático de algum artista underground, querendo dizer que nem tudo tem de ser de alguém para alguém e com algum propósito específico. Um manifesto pelo resgate do nada às nossas vidas, nesse mundo over de informação. Passei cola novamente no envelope e coloquei a carta na primeira caixa de correio que vi na rua.

Ao trabalho, ao trabalho. Três reuniões naquele dia, duas delas sem previsão de término nem de conclusão prática. Quando Daniel exp…

VOYEUR

De novo a música recorrente, a de costume em ziguezague na cachola.Você e seu rosto de quem só acalenta bons presságios, não deixa margem pra que se enxergue um primeiro anúncio de ruga, sua carne de pêssego se decompondo um dia é coisa sem cabimento. Afago uma outra chance de te ver no desaviso, sem que saiba que te espio entre lençóis, tão você mesma. É assim que gosto, devassar você no quarto. Você zapeia a TV e eu te zapeio aos centímentros, sem controle. Dias de vinho e rosas como os que tivemos e guardamos escondidos da razão, como se guarda borboleta ou selo raro, quando outra vez?
Detida para averiguações, algemada por mim. Vamos à reconstituição do crime que cometemos ao deixar que houvesse entre a gente distância e compostura em demasia, o trato cerimonioso que se impôs a contragosto. Retomemos o que foi, vestidos de nudez. Andiamo via, na asa dessa aragem que vem agora da janela.
E nesse assédio à intimidade alheia, que é impróprio chamar de alheia em se tratando de você, que…

DO PAU OCO

Já não foi a primeira vez que a câmera de segurança da fábrica de santos e anjos de gesso flagrou o inspetor de controle de qualidade e uma loiraça gesseira, toda coberta de pó branco, fazendo o que estava no Gênesis em posição ainda não catalogada pelo Kama Sutra. Espionando diariamente os dois excomungados, em serões que se estendiam das seis e quinze da tarde às nove e tanto da noite, Genaro, do serviço terceirizado de circuito de TV, junta mais um flagrante ao gordo dossiê e aguarda o momento certo: a nomeação do inspetor a gerente, “pela conduta irrepreensível no exercício de suas funções”.Mas Genaro estava longe de ser a única testemunha da sacrílega safadeza. Das estátuas, todas viram. Exceto 16 São Judas que ainda estavam sem os olhos.
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- Eu quero entrar pro ramo, Pai Zóim. Diz aí com quanto é que eu tenho que morrer pra abrir uma tenda com tudo nos conformes, daquelas de cair o queixo.- Aí já começa mal, fio precisa entender que dinheiro vem sozinho, por merecimento. …