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A SÓS


Olhares que se cruzam, dela e do cão. Do ponto de vista do cão, o olhar somente - o literal pousar de olhos sobre alguém ou alguma coisa. Para ela uma zona de conforto na arrumação de si, como se fosse possível um cessar-fogo entre os neurônios. Poderia não ser um bicho, mas uma xícara, um poste, o que via não era absolutamente o que enxergava. Não havia a consciência de olhar o cão, nem no cão a de saber-se observado. Cara a focinho, aquele era o tempo presente dos dois. A indolência que sentia lembrava talvez o fastio que se tem em casa de mãe após a janta generosa. Isso era nostálgico e reconfortante, a sensação do território conhecido, o nada além da posse precária daquele momento de pálpebras arcando. Vovó morta, envolta em seda, o coro de filhas de Maria na trilha sonora, entregando junto ao padre o corpo à terra. Vovó se foi, é fato, ficou o cão e a urgência do que fazer dele. Chove a fina e mesma chuva sobre finados e vivos, um bolero gira na vitrola arcaica. Delírios, xô que já é tarde. Deixem-na a sós com seu cão.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Adriano Neves12:35 PM

    Bela crônica. Belo flagrante. Como é bom chegar em casa olhar pro bichinho de estimação e saber que de você ele só cobra carinho e nada mais.

    Abraço.
    Adriano

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  2. Juliano Sanches12:37 PM

    Olá tudo bem.

    Estou vivo aqui, em casa, com o toca cd's jorrando as trovas do
    cantador Elomar e, de repente, o seu texto me bate aos olhos. É
    bastante enigmático. E tem um apelo feminino muito forte, porque fala
    de mãe e de vovó. Elomar diz que mentira de água é "matar a sede".
    Talvez mentira de homem é matar a vida. A vida é um eterno recomeçar.
    É nós que teatralizamos a existência, a ponto de entorpecer as
    situações com devaneios mal-construídos. Lembro-me também que, quando
    existia uma ligação mística entre entre o cachorro e o falecido, o
    animal, por honra, se encarregava de velar o corpo até o seu
    desencarne. Talvez, esse cachorro tenha optado por acompanhar a vovó.
    Quanto a mamãe, ela lembra épocas de fogão à lenha, vividas no bom
    gosto do pé descalço no chão de Guaxupé. Minha memória viaja até as
    paisagens descritas em Fogão de Lenha, de Chitãozinho e Xororó. Uma
    mandioquinha na panela de barro, em cima da chapa do bitelo. Linguiças
    a defumar. Em meio a tudo isso, o olhar de mãe. Um olhar que remonta a
    força criadora, a força de revitalização da Terra. Se você tiver essa
    música aí no seu saco de estopa, bota ela no seu blog, pois acredito
    que vai dar muito sentidos a quem escu(r)tar.

    Inté cumpade.

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  3. Filipe Moretzsohn5:24 AM

    OIII?????
    Entendi nada.
    Abrs

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  4. Curto e direto, mas não menos intenso do que tudo que é da sua lavra, meu caro. Acachapante!

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  5. Evelyne12:55 PM

    Uma zona de conforto entre a despedida e a ação. Uma leveza de chuva fina em sua prosa, Marcelo. Ótima, como sempre! Beijos, amigo.

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  6. Como um flash da câmara fotográfica, sua capacidade de sentir o momento exato do "clic" e colocar em palavras, é genial.

    Abração

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  7. LINDO!!!!!!!

    MALU

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  8. Sandra Nogueira2:41 PM

    tocante, Marcelo, achei lindo. Lembrei-me da minha mãe, com Alzheimer e uma cadelinha que nem parece bicho, não brinca, não pula, não corre, permanece eternamente aos pés dela, as vezes no colo, ou sobre ela, quando cochila.
    Idosos e animais tem um caso de amor acima da compreensão.
    beijão e boa semana
    Sandra

    ResponderExcluir
  9. Helô2:43 PM

    que bonito!
    bjks, Marcelindo!
    Helô

    ResponderExcluir
  10. Ana Maria2:43 PM

    triste né!

    um abraço e até!

    Ana Maia

    ResponderExcluir
  11. Esse cachorro é meio caído do céu, né? Lembrança viva do que se foi, agente facilitador e atenuante do luto.

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  12. Olá!!
    Muito bom o texto!!
    Triste tbém pro cão, que afinal de contas, fique literalmente só...
    Abraço!!

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