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DEMASIADO HUMANO

Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico - inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.


Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.


A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.


Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim - alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.


Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.


Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.


Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Maravilhoso como sempre, Marcelo!!
    Claro, limpo e com prosa tão poética...

    Adorei isto:

    "Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los."

    Abraço!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. João9:37 AM

    Filho, bom dia.Gostei da crônica "Demasiado Humano".
    Muito boa. Feliz fim de semana para todos. Abraços
    de seu pai.

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  5. Oi Marcelo!!
    Quando o via, sempre pensava nesse assunto, tema do seu post, concordo com vc quando vc diz: "Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria."
    Com certeza o fardo é pesado, porém ele que o procurou, tomara, tomara mesmo que ele dê conta do recado, para nosso bem e de toda Terra!!
    Abraço!!

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  6. Fer Pupo11:35 AM

    você jogou seu texto para o universo e minha alma estava lá, não foi pra mim que escreveu, eu sei, mas minha alma já gritou as mesmas palavras e ninguém escutou, então gritei dentro de mim com mais força, foi aí que alguém respondeu e disse "calma", estou aqui.

    batendo forte meu coração completou, Fernanda só podia ser você para fazer o que fez, continue sendo assim...valeu!



    bjs,

    Fer

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  7. Paulo Marsiglio2:42 AM

    Grande Marcelo!

    Estava meio sem tempo de lê-lo e esse último texto mais uma vez comprova o quanto você é bom!

    É interessante como consegue misturar reflexões diárias em ficção.

    Anote tudo o que pensa num Palm Top, Celular, Notebook, etc, e você verá que muita coisa vai sair dali ( se é que já não o faz ).

    Creio que o alimento de um cronista seja a vivência de situações cotidianas e aparentemente sem atrativos.

    Mas não é pra qualquer um. Aí é que você entra, com sua arte.

    Lembrei-me daquele texto de Ouro Preto (?) em que descreveu o ambiente local com perfeição.

    Em suma,sou seu fã!.

    Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar...

    Paulinho Marsiglio.

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  8. Um primor, como sempre... e o distanciamento do cotidiano provocado pelo poder foi definido por um ex-presidente: "é passar oito anos sem tocar numa maçaneta nem carregar sua mala, tem sempre um ajudante-de-ordens que o faça" abraço

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  9. Filipe Moretzsohn11:54 AM

    YES, WE CAN SURVIVE!

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  10. Evelyne11:56 AM

    Oi, Marcelo! Comecei pensando em Nietzsche, entrei na mitologia, passei por Deus e encontrei Mr. Obama com toda sua humanidade e poder que não invejo. Já me perguntei quanto pesa essa esperança, quantas concessões ele fez e como terminará.
    Meu amigo, seu talento produziu um retrato sensível do presidente! Nota 10 ( para variar,rs). Parabéns!Beijão e boa semana!

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  11. Nelson Marchetti12:22 AM

    ótimo! muito bom!!!!

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  12. Sandra Nogueira7:00 AM

    Marcelo querido, estou começando a acreditar nos seus poderes extra-sensoriais. Se Barak o lesse certamente ficaria assustado, com medo de que seu código de acesso de alma tivesse sido decifrado rsrsrs
    Muito bom....
    abração
    Sandra

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  13. Patrícia7:00 AM

    muito, muito bom, Marcelo!!!!

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  14. Willian - RAC7:01 AM

    Sensacional!!!!!!!!! Marcelo.Bom dia a serviço da meteorologia!

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  15. Juliano Sanches4:56 PM

    Olá Cumpade tudo bem.

    Nem parece que li um texto seu. Recebeu o santo do Obama. Cuidado com
    esses guias especulativos hein rs rs rs Seu texto ficou sério hein
    hum... puxa vida... Cade as risadas no final e no meio do texto? Bom,
    mas, valeu a pena. Puxa legal. Retratou bem o notável. O poder tem um
    preço rs rs rs

    Um grande abraço, meu caro.

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  16. Ana Lucia Finazzi5:04 PM

    Oi
    Esperamos que ele não sucumba ao peso.
    beijo
    Ana Lucia

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  17. Ana Maria4:33 PM

    com certeza Marcelo, não queria estar no lugar dele.

    Porém acho que ele vai dar conta do recado, é muito carismático e inteligente.

    Tomara!

    Um grande abraço!

    Ana Maria

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  18. Belvedere Bruno3:10 PM

    Meu Deus, My God, essa tá o MÁXIMO!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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