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ENCOUNTRY O SUCESSO


Valdivino & Laudislano são um estouro nas paradas. Um sucesso talvez maior que mil estouros de boiada, coisa que nenhum dos dois viu de perto na vida, embora se proclamem cantores sertanejos como Januário & Vespertino, com seus cinturões dourados comprados numa excursão ao Mississippi. Dupla que por sua vez, a exemplo de Furacão & Hurricane, está com a agenda de shows lotada até julho de 2010 em feiras agropecuárias onde não há agricultura e muito menos pecuária. Talentos que não ficam nada a dever a Christóvão & Christino, que quase largaram a estrada com ameaça de gangrena nas pernas, fato idêntico ocorrido a Juanito & Ranulfo, por causa da compressão das calças excessivamente agarradas.

Essa maciça e inconteste consagração popular faz lembrar os trinados rouxinolescos de Joracy & Jurabel, guardiões da nossa legítima música de raiz, ainda que a única raiz que conheçam seja a raiz forte servida no restaurante japonês caríssimo que frequentam nos Jardins. Os mesmos Jardins que abrigam os empresários artísticos de Tiago & Risério, Suzano & Bebeto e Wilson José & José Wilson, reis absolutos do cancioneiro arranca-toco, sem que jamais suas caminhonetes 4x4 cabine sêxtupla tenham passado perto de um caminhão de bóias-frias. Frutos consagrados da roça como Alexandrino & Dito da Tulha, com suas taperas e ranchinhos fincados em Alphaville, suas aparições compradas nos programas de auditório e suas cotas de 48 páginas/ano de fotos no Castelo de Caras.

Nenhum outro duo, todavia, tem levado tão a sério o trabalho de preservação das tradições caipiras quanto Caio Morotti & Feliciano, cujas reboladinhas country e solinhos de banjo resgatam às novas gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts. Ídolos que sofreram forte influência dos inimitáveis Osmar & Arsênio, dupla com apresentações-surpresa e merchandising garantidos até a edição 15 do Big Brother Brasil, aquele reality show roteirizado pela equipe de redatores da Rede Globo.

O fato é que o Olimpo da autêntica moda de viola é pródigo de estrelas. Só mesmo alguém com estrume na cabeça poderia deixar de reconhecer a contribuição decisiva de Bruna & Torrone, Aladin & Lâmpada Maravilhosa e Andrezinho & Rodrigão para o sucesso dos leilões de gado empreendidos por esse Brasil sem porteira. O caviar russo e as doses cavalares de Blue Label ali servidos de nada adiantariam sem os megashows dessa turminha rural – que verdadeiramente embala e alavanca os lances mínimos de 500 mil reais por uma colher de sopa de sêmen de zebu premiado.

Meu amigo, eu diria que esse é o lado maravilhoso da chamada globalização: o Texas fica em Pindamonhangaba e vice-versa. Dá orgulho ver os nossos jecas e matutos tornando-se tão idênticos a um farmer anglo-saxônico, ainda que só na roupitcha. Cabe a nós valorizar e levar adiante essa bandeira multicultural. Às vezes ouço falar, meio por alto, de outros nomes menos conhecidos: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Nhana, Pena Branca & Xavantinho. Confesso minha ignorância. Seriam novas duplinhas country? Se tiverem mesmo talento, logo logo estarão na TV. É esperar para ver.

Comentários

  1. Evelyne Furtado9:09 AM

    Sucesso é fazer crítica com suprema criatividade, Marcelo. O tempo qualifica. Permanece o que é bom e tem raízes. Um texto com a sua marca de qualidade. Adorei! Feliz páscoa para você e sua família, amigo! Bjs

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  2. Meu caro crepuscular desterrado, na próxima EAPIC sei que vc não vai ser premiado pela melhor montaria, mas deve faturar o Golden Cow, conferido aos melhores escribas do universo country. abs

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  3. João3:31 PM

    Gostei da crônica das novas duplas caipiras, que não sei se existem. Beijos de seu pai.

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  4. Ana Maria3:32 PM

    muito boa a crítica, Marcelo é isso ái, que pena que estas últimas duplas que vc citou e que seriam verdadeiramente merecedores deste quinhão, não o terão.é a injustiça da vez, como sempre! grande abraço!

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  5. Rosa Pena7:11 AM

    É esse o seu genêro inconfundível que disse. Um cronista social, como se estivesse escrevendo uma coluna, uma crítica ou uma resenha. Os seus títulos e os nomes dos personagens são impagáveis. Caio na gargalhada. "É na sola da bota É na palma da mão É na sola da bota É na palma da mão"...he he he! Esse "COUNTRY" ta ótimo! Ta bom demais isso.. "gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts"..rs..

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  6. Maria Amélia7:52 AM

    Adorei!! Muito bom, pra variar!!! Parabéns Marcelo. bjão e feliz páscoa!

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  7. Maíra Reicher11:07 AM

    rsrrsrs muito bom rsrsrsrsrsrs

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  8. Eli Muzamba5:52 AM

    A música está uma bagunça meu caro Marcelo.
    Nos últimos anos vimos o forró universitário, o pagode universitário e agora o sertanejo universitário.
    Será que deveríamos pedir ajuda AOS universitários ou PARA os universitários?

    abraço

    Muzamba

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  9. Marco Antonio Rossi7:03 AM

    faltou uma dupla
    SINGULAR E PLURAL
    SINGULAR NA HISTÓRIA DO NOSSO SERTANEJO, QUE APRENDEU O PLURAL DO SUCESSO PELA GLOBALIZAÇÃO, DEIXANDO DE LADO
    A CRIATIVIDADE SERENA DE NOSSOS VIOLEIROS.
    uM ABRAÇO
    rOSSI

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  10. Sandra Nogueira8:24 AM

    Marcelo querido, muito bom dia. Espero que sua Páscoa tenha transcorrido em paz e alegria. Menino, dei muita risada com os nomes, o panorama fake que envolve a turma e novas duplas surgindo todo dia. Estou pensando em montar uma também com um gênero bem diferente: o rapcountryfunk. O nome poderia ser MCWood & Stock. Você acha que emplacamos?
    beijão
    Sandra

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  11. Palmas...Palmas...!!Pena que neste espaço não tenha som!
    Adoro seus textos, são sátiros e eu dou muita risada!
    São hilários: grangrena nas pernas..48 páginas/ano de fotos no castelo de caras...rárarará

    Abração

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  12. George Lee10:16 AM

    Do jeito que as coisas andam, muita gente pode levar a serio, tentando adotar os sugestivos nomes de duplas que você colocou em sua cronica. ...
    Pois é, esse fenomeno é o que se chama de anti cultura....
    Parabens por mais essa cronica!

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  13. José Carlos Carneiro1:55 PM

    Marcelo: simplesmente genial. Um banho de humor e criatividade. Acho que é um dos marcos em suas excelentes crônicas. Arrasou pra valer e está de parabéns, mais uma vez. Dá gosto ler algo tão divertido, criativo, atual, perspicaz, original ao extremo, sutil.

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