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NOTURNO EM DÓ


Ai meu Deus, o sono que carecia, nenhuma sombra de gente dando sinal de chegar. Virou-se para o outro lado. O toque fresco do lençol grosso de linho, o bafo dessa noite quase dia. A franja do cobertor, as cócegas no queixo, a pena de gastar a vida assim nesse sei lá.

- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roía tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.


- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?


Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
© Direitos Reservados


Comentários

  1. Rosa Pena1:38 PM

    Você me lembra o saudoso Mauro Rasi! Não sei se lia ele, mas vale a pena reler. Sensacional. Encontro traços dele em sua escrita.. beijos

    rosa

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  2. Rosa Pena1:40 PM

    Marcelo..

    Para mim , na minha leitura, foi a melhor descrição de um portador do mal de Alzheimer. Talvez não seja isso, mas foi como li e achei fabuloso.Parabéns meu amigo querido e perdoa a ausência.beijo

    rosa

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  3. Ana Maria3:59 PM

    muito louco! eu diria uma doce loucura!!!! abraço!

    Ana

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  4. Que retrato da demência, meu caro... só um estouvado pra não gostar das suas linhas.

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  5. Quem somos nós sem a nossa memória?
    Mais uma vez, parabéns pelo perturbador texto.

    Abraço fraterno

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  6. Evelyne5:25 AM

    A palavra vestindo o medo, o desespero solitário, a aceitação. Lindo, Marcelo! Bjs e boa semana!

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  7. Sandra Nogueira8:27 AM

    Marcelo querido, bom dia! Você é poético e suave até quando fala da loucura, dos hospícios de antigamente, da camisa de força(?), dos delírios de uma mente perturbada. O dó não vejo como a nota musical, embora pudesse ser uma melodia triste.
    um grande abraço
    Sandra

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  8. Marco Antonio Rossi8:27 AM

    hospício do dia a dia......

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  9. Oi Marcelo!!!
    O que digo aqui é sempre repetitivo, mas novamente...super legal!!
    Abraço!!

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  10. Regina Costa5:26 PM

    Nossa, Marcelo, que texto instigante esse, o "Noturno em dó"! Fantástico.
    Bjs

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